Precisamos dar às coisas seus nomes verdadeiros

No momento em que se reabre a questão sobre com que nome devemos chamar aquela grande avenida que vai da Rodoviária até a ponte do Guaíba, se de Legalidade ou de Castelo Branco, podemos perceber, mais uma vez que não são simples nomes que se debatem, mas conceitos políticos e até mesmo a história, que estão em jogos.

Além dessa escolha (obviamente, eu escolho Legalidade) precisamos definir também o significado de algumas palavras da nossa língua, antes que se estabeleça uma anarquia total, onde a cada dia, velhos termos, que ontem serviam como sinônimos de alguma coisa, hoje são seus antônimos.

Um exemplo: Michel Temer, já foi chamado de um grande constitucionalista e se auto considera um democrata e tem horror que o chamem de golpista e traidor. Mas, todo mundo sabe que ele participou do movimento para derrubar uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu nenhum ato atentatório à constituição e que isso foi um gesto de traição à democracia.

Outro dia, o seu amigo (parece que não é mais), o Joelson Batista, o chamou de "o ladrão geral da República".

Constitucionalista, democrata, golpista ou ladrão?

Precisamos definir com urgência o significado de algumas palavras fundamentais para a vida política brasileira.

Começamos pela mais usada e pervertida de todas as palavras, democracia e na sequência, os que dizem a respeitar, os democratas.

A sua mais simples definição é aquela que diz que democracia é a forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo.

Como vivemos numa época onde cada vez mais dependemos do que dizem as fontes eletrônicas, vamos copiar a Wikipédia:

"Democracia é um regime político em que todos os cidadãos participam igualmente, diretamente ou através de representantes eleitos, na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governança através do sufrágio universal. "

Parece um saco sem fundo, onde cabe a maioria dos políticos brasileiros, porque todos eles, inclusive Michel Temer, repetem essas definições em seus discursos.

Golpe de estado ou revolução?

Na visão clássica dessas duas palavras, golpe significa derrubar, ilegalmente, um governo constitucionalmente legítimo e revolução, uma mudança drástica na organização social e econômica de um país.

O ilegalmente, presente na definição de golpe de estado, é que abre a perspectiva de grandes confusões, pois que entra no campo jurídico onde as interpretações, às vezes, valem mais do que as certezas.

No consenso da maioria das pessoas, qual seria o maior golpe, dado ilegalmente, contra a democracia na história da humanidade. Possivelmente, Adolf Hitler, com a instauração do regime nazista na Alemanha, seria o mais indicado. Só que, tecnicamente, Hitler chegou ao poder pela via parlamentar em 1933. Seu partido, o Nacional Socialista, foi escolhido pelo Presidente Hindenburg para formar o governo.

O golpe que Hitler deu, o famoso Putsch de Munique, 10 anos antes, só rendeu a ele algum tempo de prisão.

O conceito de revolução pode ser aplicado à francesa, à chinesa, à soviética, à Inglesa e à cubana, com mais ou menos precisão, porque elas tiveram um sentido de lutas de classe e mudaram, pelo menos durante algum tempo, a correlação entre as forças sociais e políticas de seus países.

Enquanto a palavra golpe é abominada pelos seus autores, a palavra revolução é sempre benvinda, mesmo quando não tem essas características.

No Rio Grande do Sul, chamam o movimento dos grandes fazendeiros contra o poder central por divergências menores em questões econômicas, de Revolução Farroupilha. Obviamente um exagero, tanto quanto chamar os movimentos de 1930 e 1932, de revoluções.

A de 30, que levou Getúlio Vargas ao governo, ainda poderia ter algumas características revolucionárias, na medida que tentou substituir um grupo conservador por outro mais avançado politicamente, embora na essência o poder real continuasse longe do povo que o movimento dizia representar.

A de 32, dita constitucionalista, foi uma tentativa dos derrotados em 30, de recuperar o terreno perdido. Ela olhava para o passado e não para o futuro, como devem ser as revoluções.

Em 1964, os generais que tomaram o poder no Brasil, batizaram o movimento de Revolução de 31 de Março. Não foi nunca uma revolução, e nem foi no dia 31 de março. Foi um golpe de estado e se deu no dia primeiro de abril, o chamado dia dos bobos.

Supondo que os estudiosos da língua portuguesa chegassem a conclusão que a definição de democracia está correta - é a expressão da vontade do povo - seria preciso então se adotar com urgência, medidas que estimulasse essa vontade a se expressar livremente e depois, que ela não pudesse ser fraudada.

Em 1917, depois que os bolcheviques assumiram o poder na Rússia, Lenin disse aos seus seguidores que o processo revolucionário recém estava começando. A grande batalha não fora derrubar o regime do Tzar e depois o governo de Kerensky, mas conscientizar o povo dos seus direitos como classe social.

Então, as tarefas da esquerda hoje são, menos pensar sobre como vencer as eleições, embora não possa se omitir também de 2018, e mais, a de começar a explicar para o povo o significado de algumas palavras, para que ele possa identificar com mais precisão quem são, por exemplo, os democratas e os golpistas.

Com Lula e Dilma, o PT chegou ao governo no Brasil, mas nunca teve o poder real em suas mãos. Por uma série de razões, ele deixou escapar essa oportunidade histórica e permitiu com suas alianças espúrias, inclusive um retrocesso político.

Os erros e vacilações do governo Jango ajudaram um golpe militar que durante 20 anos atrasou o desenvolvimento democrático do Brasil.

O novo golpe em 2016, em boa parte fruto das políticas de acomodação de Lula e Dilma, precisa ter uma vida menor. Para isso é preciso começar logo o processo de conscientização de todo o povo.

A discussão franca e aberta sobre os erros cometidos pelo PT e seus aliados é um primeiro passo nesse sentido

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey
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