Rachadura no golpe

Todas as direitas se uniram para darem o golpe de 17 de abril passado, na Câmara dos Deputados, ratificado pelo Senado posteriormente, para derrubar a presidente Dilma. Agora, acontece um racha entre elas. Uma parte dela defende a aprovação de uma lei que garanta a punição de juízes, promotores, delegados e outros agentes públicos que cometam abuso de autoridade. Isso, por ver-se também ameaçada pelos constantes atos ilegais praticados abusivamente por membros do Poder Judiciário e do Ministério Público; numa conjuntura política em que muitos dos seus integrantes são alvos de denúncia de corrupção. Teme que aconteça consigo o que vem acontecendo com o PT, que não conseguiu evitar que, até mesmo, seu líder maior, o ex-presidente Lula, ficasse livre de um claro abuso de autoridade, ao ser preso por um juiz que costuma colocar-se acima da lei. Diz esta ala golpista não ser contra a Lava-Jato e outras operações do tipo, mas que contesta o poder excepcional que certos juízes e membros do Ministério Público atribuem a si mesmos, agindo abusivamente. E conta com apoio da maioria da esquerda que, por questão de princípio, acha que o abuso de autoridade contra quem quer que seja, deve ser condenado, por se tratar de um atentado às liberdades individuais, aos direitos humanos e à própria democracia.

A outra parte da direita golpista tem outro propósito : dar um golpe dentro do golpe, uma espécie de AI-5 dentro do golpe de 2016, inspirada, em grande medida, no que aconteceu no seio do golpe implantado em 64, já em 1968, quando a direita da direita assumiu o controle da ditadura. É o que existe de mais fascista entre os que têm agido contra a democracia e o povo. Liderada, de fato, por Sérgio Moro e membros do Ministério Público, ideólogos de condutas abusivas de autoridades, acima de normas legais, tenta convencer a população, principalmente setores da classe média despolitizada, de que a solução política e econômica que ora enfrenta o país, só é possível por caminho antidemocrático, através de um verdadeiro Estado de Exceção, em que agentes públicos de julgamento, de acusação e policiais devem ter liberdade de agirem como bem entendem, desrespeitando a lei, ou interpretando-a a seu gosto.

Um apelo de caráter fascista, chantageando com o sentimento de desespero de boa parte da população, como se deu na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler e, posteriormente, em outras regiões do mundo, causando as tragédias conhecidas de todos nós. Uma ala direitista que, conscientemente ou não, se inspira nessa irracionalidade de lesa-humanidade, de crime contra a democracia e o nosso povo. Gente que deseja um regime autoritário no país, agora, dirigido por um ditador de toga ou de farda. Não é por acaso, diga-se de passagem, que militantes desse setor, que querem um Sérgio Moro ditador, e os que pretendem um ditador de farda, se juntam em manifestações por um Brasil sem democracia, de volta ao fascismo implantado em 64. 

Na verdade, sem confessar, ocultando seu real objetivo, inclusive com apoio da Rede Globo e outros meios de comunicação, sempre comprometidos com golpes, o que anseia esta ala golpista, com esta linha de ação política, é a implantação de um estado policial, um terrorismo de estado, contra a liberdade de o povo lutar por seus direitos e interesses, a fim de implantar um regime autoritário, de que depende uma minoria para assegurar seus privilégios. Acha que a defesa do capitalismo só é viável antidemocraticamente.

Para esta área da direita, o ataque à Constituição Federal e à democracia, que culminou com o golpe que derrubou uma presidente eleita pelo povo, não basta. É preciso ir mais adiante. O que só é possível, a seu ver, se golpistas do Poder Judiciário, de órgãos policiais e do Ministério Público não tiverem de submeter-se a regras legais. É o mesmo setor que apoia abertamente prisões ilegais e policiais que matam trabalhadores na periferia, principalmente da população negra, que reprimem, a todo instante, movimentos estudantis, sindicais e outros movimentos sociais.

É necessária total atenção das forças democráticas. Numa conjuntura em que a grande mídia procura envenenar ideologicamente a população, praticamente, explicitando a ideia de que política é coisa de ladrão, na verdade, tentando fechar as portas para uma saída democrática, o apelo fascista pode tomar corpo. Não nos esqueçamos de que a ala mais fascista da direita, que deu o golpe em 64, ao se tornar hegemônica entre os golpistas, logo tratou de levar às últimas consequências a prática da ditadura, de cometer assassinatos, prisões e torturas contra os opositores do regime.

Assim, é dever de todo democrata lutar contra o golpe de 17 de abril como um todo, mas, com especial atenção, para o que existe de mais fascista entre os golpistas em geral.

A rachadura entre os golpistas pode nos ajudar a derrotar o governo golpista. O que depende - é bom que se diga - da união de todas as forças democráticas e de esquerda, independentemente de determinadas divergências político-ideológicas.

Sem esta união, seríamos derrotados. 

 

Marcelo Fonseca

 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey