Nossa frágil situação no planeta

Dentre as questões mais complexas de nossa época, certamente a crise ambiental ocupa elevado lugar no ranking dos problemas globais de consequências muito preocupantes para a humanidade.

Tomar ciência das coisas, conhecendo a realidade dos fatos é, seguramente, o primeiro passo para a tomada de decisões visando reverter quadros adversos - e a crise ambiental, sem dúvida alguma, se insere com propriedade dentro dessa perspectiva.

Marcus Eduardo de Oliveira

Razão pela qual, diante dos mais variados estudos e relatórios elaborados até o momento por eminentes cientistas e especialistas no assunto, já sabemos o suficiente para entender nossa frágil situação no planeta, mediante a não menos frágil situação do planeta, mas, lamentavelmente, ainda não conseguimos colocar em prática - não por desconhecimento, mais por inapetência política e fragilidade na governança global - mecanismos que promovam a abrupta ruptura do atual modelo econômico que, respondendo a interesses consolidados na esfera corporativa global, prioriza a produção e o consumo em níveis elevados, à medida que descapitaliza o patrimônio natural.

Desse modo, persiste o dilema maior: crescer ou preservar? A resposta está na raiz de uma problemática que amplia esse conflito, tendo em conta que se deve discutir a necessidade de mais produção/consumir (para o bem do mercado) ou a de mais proteção da natureza (para o bem da humanidade).

Essa situação guarda estreita relação com o fato de termos criado ao longo dos últimos 200 anos uma cultura de consumo de massa (consumismo desenfreado) que excede nossas necessidades, permitindo assim a abertura de uma ferida quase incurável no planeta, à medida que os abusos de consumo global, quando não esgotam, alteram para pior o funcionamento dos serviços ecossistêmicos vitais, a começar pela regulação do clima, comprometido pelo uso sem limites dos combustíveis fósseis.

Uma segunda ponderação atrelada a essa mesma questão está na maneira desigual de se consumir. O exemplo mais ilustrativo disso repousa no seguinte argumento: se todos os seres humanos consumissem como os estadunidenses, a Terra poderia sustentar apenas um quarto da população humana sem comprometer a biocapacidade do planeta.

De igual maneira, se todos consumissem ao mesmo ritmo de consumo médio de um chinês, o planeta poderia então sustentar apenas 84% da população atual.

Essa situação - já calamitosa - poderá ser agravada se as previsões dos analistas se confirmarem, quando 1 bilhão de pessoas incorporarem o consumo global até 2025.

É de amplo conhecimento que maior pressão sobre o consumo também pressiona por consequência à natureza ao fornecer recursos e energia para a produção econômica, o que agrava mais ainda a já frágil situação do planeta, alterando as condições climáticas, trazendo ondas de calor, megatempestades, secas massivas, inundações e deslocamentos populacionais - em 2010, por exemplo, o número de refugiados ambientais em todo o mundo atingiu a impressionante marca de 50 milhões de pessoas. Estimativas nada otimistas da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que, em 2050, o número de seres humanos nas condições de refúgio ambiental estará entre 250 milhões e 1 bilhão de pessoas.

Para finalizar, cabe apontar a ponderação feita por Erik Assadourian: nenhuma dessas mudanças se alinham à perpetuação de uma cultura global de consumo, embora certamente uma pequena elite ainda será capaz de manter a versão materialista da ´boa vida´.

Enquanto a versão materialista for prática corriqueira, ainda que por parte de poucos, nossa frágil situação no planeta se agravará ainda mais, até uma possível e completa dissolução.

  

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo.

[email protected]

 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey