Uma luta que não pode chegar ao fim

Uma luta que não pode chegar ao fim. 15141.jpegA concatenação do movimento e o desespero da mídia e do governo mostram que chega a hora do Brasil entrar na onda de protestos que já assola a Europa

Há que se ter cuidado com o que vem sendo dito na grande mídia nos últimos dias sobre as manifestações dos bombeiros do estado do Rio. Para quem vem acompanhando o noticiário, dia após dia, parece que vemos uma história que se aproxima de seu fim. Fica a pergunta: o movimento realmente acabou? Parece que não.

Façamos um recapitulação da história. Na sexta-feira, dia 3, cerca de dois mil bombeiros ocuparam o Quartel Central da corporação. Na manhã seguinte, depois de uma truculenta invasão do Bope que chegou a deixar feridos, quase 500 manifestantes foram presos, a mando do governador Sérgio Cabral que, em coletiva, descartou a representatividade do movimento (!) e chamou os militares rebelados de vândalos e irresponsáveis.

Nos dias que se seguiram, em diversos editoriais, o jornal O Globo declarou que o governador agira com "rigor devido" para reprimir a "tresloucada e irresponsável" manifestação, afirmando que a repressão era importante para "desestimular a repetição dos delitos - em qualquer categoria, do setor público ou não". Além disso, no lead de todas as matérias, mencionava-se o suposto vandalismo dos bombeiros na ocupação, sem menções aos tiros de fuzil calibre 762 que receberam. Em linhas gerais, o jornal defendia sua posição de classe contra os movimentos populares e de trabalhadores, aliando-se a Cabral, maior representante das elites fluminenses.

A estratégia, no entanto, falhou. A população aliou-se em massa ao movimento e um fato insólito aconteceu: cessaram os boxes de opinião e as menções ao vandalismo nas páginas de O Globo. Afinal, seus próprios leitores estavam do lado dos vândalos sanguinários. Enquanto isso, no meio das elites, o terror crescia. Em Brasília, deputados federais pediram que o ministro da Justiça pressionasse Cabral para soltar logo os presos, com medo de uma disseminação dos protestos país afora. No Rio, faixas e fitas vermelhas começaram a pipocar em janelas e carros. As reuniões de gabinete a portas fechadas aumentaram e, perto do final da semana, aconteceu o abominável: o movimento concatenou e, juntaram-se a bombeiros, policiais militares e professores estaduais, com indicativos de uma possível adesão massiva do sindicato dos médicos.

Um dia depois, os bombeiros detidos foram liberados e o tom da manifestação, aparentemente, mudou: não mais reivindicações, apenas agradecimento ao apoio da sociedade; abre-se o caminho das negociações pacíficas com o governador, que afinal não é tão mal assim. O discurso é estranho, se o comparamos com o que vem sendo publicado no blog do movimento, o S.O.S Bombeiros RJ. Lá, vemos cartas ao governador reivindicando, além de salários, liberdade de manifestação. Acusam Cabral de truculência no trato com os movimentos sociais, ou seja, uma bandeira bem mais ampla do que a do aumento salarial por si só. Falam, até mesmo, da manipulação promovida pela grande mídia.

Duas são as prováveis razões para a mudança de tom logo depois da libertação dos 439. Em primeiro lugar, um exagero dos meios de comunicação comerciais que, de uma vez por todas, querem abafar o movimento. Outro ponto é uma possível cooptação das lideranças, no meio de tantas reuniões a portas fechadas, o que deve perder força depois da libertação das lideranças antigas, antes presas, como já é possível perceber no blog.

Um questão, no entanto, continua fundamental na luta: a anistia aos bombeiros presos. Os libertos ainda continuam respondendo a processos administrativos e criminais, já que apenas estão respondendo em liberdade, o que legitima a criminalização das manifestações populares, uma atitude imperdoável.

De qualquer jeito, o movimento dos bombeiros trouxe, à sociedade fluminense, um ensinamento importante: o de que é possível sim acreditar em nosso poder de luta. O ato de domingo, em Copacabana, levou às ruas mais de 50 mil, segundo os organizadores, ou 27 mil, segundo o governo. Seja qual for o número, é uma mobilização fascinante, que não se via há anos nas ruas do Rio e que mostra insatisfação e, sobretudo, solidariedade e compaixão com as causas que nos atravessam enquanto povo.

Só os próximos dias dirão o que esperar do movimento dos bombeiros. Mesmo assim, um prognóstico generoso seria que, somado às lutas salariais e pela anistia, viesse também um alargamento da pauta, agregando professores, médicos, bombeiros, policiais, estudantes e quantos mais setores forem na conformação de uma luta conjunta, que mostre as contradições que já não podem mais perdurar do sistema capitalista em que vivemos. Façamos, afinal, do medo dos parlamentares de Brasília, um medo real. Que chegue ao Brasil as explosões de revoltas que já aparecem na Espanha, na Grécia, em Portugal, na Itália e até no Oriente Médio. Porque quem detém a força não são eles, mas nós, trabalhadores e estudantes, brasileiros ou não. Nós, o povo unido.


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Ricardo Cabral (@_ricardocabral) é jornalista.

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey