Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Ah! Saramago, Saramago!!!

Exultámos quando Saramago ganhou o Nobel da Literatura. Solidarizámo-nos com ele quando a sua obra “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi vetada da lista concorrente a um prémio literário Europeu, em 1991, pela mão do então Sub-Secretário de Estado adjunto da Cultura, Sousa Lara. Porém agora, com o seu pronunciamento anti-bíblico em Penafiel, na apresentação do seu romance “Caim”, não podemos mais estar do seu lado, embora continuemos a ler os seus trabalhos, inclusive este último, apesar de tudo. Não faremos autocensura, como muitos o fazem. Isso seria uma birra de criança mal educada… É necessário conhecer a obra, para conhecer o seu autor. Temos dúvidas porém que Saramago o faça, ou que o tenha feito em profundidade em relação à Bíblia, que resolveu invectivar.

Pelas suas declarações, algumas roçando o anedótico, como aquela de que Deus nunca mais trabalhou depois de ter feito o Mundo e o Homem… como se o Criador fosse humano, Saramago faz uma interpretação literal do texto bíblico sem atender ao seu contexto antropológico cultural. Nisto faz o mesmo que qualquer seita que anda de porta em porta a anunciar o fim dos tempos… só que com sinal contrário. Mais, ignora, propositadamente ou não, que o Livro do Génesis não é genuíno a respeito das narrações que faz sobre a Criação, a Tentação e Queda do Paraíso, o Dilúvio, etc., etc. Tais narrações remontam aos primórdios da Civilização, sendo algumas ainda mais antigas do que esta e de procedência diversa, o que significa que desde que o homem se libertou da sua condição puramente animal, tais questões estiveram sempre presentes no espírito dele, não tendo sido uma manipulação da Igreja. Os mitos e lendas antiquíssimos chegaram oralmente aos ouvidos de Moisés no decorrer de muitas gerações. O autor do Pentateuco limitou-se a “reescrever” a “origem das origens”, numa linguagem muito própria com sentido apologético, em ordem à coesão espiritual e social do seu povo, na longa caminhada pelo deserto do Sinai, correspondendo aos conhecimentos disponíveis na época. Nem podia ser de outro modo.

Recordemos, por outro lado, que Abraão, tido como patriarca dos povos semitas (Judeus e Árabes), que para alguns exegetas trata-se de uma personagem histórica ficcional, como Adão e Eva, criada para explicar a origem do povo Hebraico, procedeu de uma cultura pagã da Mesopotâmia. Nesta era hábito apaziguar o furor dos deuses ou pagar-se os seus favores com sacrifícios de animais e até de humanos, prática que infelizmente ainda existe em muitas partes do Globo. Daí, numa demonstração máxima de obediência a Deus, Abraão estivesse na disposição de sacrificar o seu próprio filho, tendo acabado por sacrificar um cordeiro. Mas isso foi o seu modo, ainda pagão, de provar a sua extrema fidelidade e confiança em Jeová, seu novo deus. A grande herança cultural e religiosa que recebemos dos homens de antanho, foi precisamente a passagem de uma religião animista, primitiva, sacrificial, para uma religião monoteísta, que com o advento de Cristo, adquiriu a sua máxima expressão humana e civilizada. Ora, José Saramago parece não compreender isto e não compreendendo, não compreende o sentido do que é narrado desde o Génesis ao Apocalipse. A crueldade e as guerras estão lá precisamente para nos lembrar que não devemos repetir, nos nossos dias, tais “pecados”. Infelizmente sabemos que a saga do mal está bem presente entre nós, povos civilizados, independentemente do entendimento que tenhamos da Bíblia, não sendo verdade que esta seja um manual de instruções para cometer crimes lesa a Humanidade.

Saramago embora pareça um “espírito livre”, é contudo fortemente condicionado pelo Materialismo Dialéctico, que se reflecte nas suas obras. Tal pensamento filosófico que também nos fascinou nos nossos “verdes anos”, caracteriza-se fundamentalmente por não reconhecer, em absoluto, o lado espiritual da natureza humana, ou seja, a sua ambivalência, que só é contraditória à luz do Positivismo de Auguste Comte e de seus discípulos, base da refutação e negação da Religião, como fenómeno intrínseco da condição humana. Daí ele recusar a Fé e tudo o que esta representa.

Lembramo-nos que numa certa entrevista o laureado da Academia Sueca confessou a sua incapacidade para crer em Deus, concluindo que os crentes certamente serão mais felizes do que ele por crerem na Eternidade… Esta confissão reconhece o lado puramente funcional da Religião, mas despreza por completo a experiência transcendental de milhões de homens, ao longo da História e no Presente. Tal pensamento é típico de uma doutrina que vê o Homem apenas como um animal racional e o seu cérebro, não a fonte complexa da Inteligência, quiçá a sede operacional do Espírito, mas um órgão que apenas segrega ideias, como outros que segregam os fluidos necessários ao metabolismo do organismo humano. Portanto, só matéria e nada, mais… Por outro lado, há no pensamento de Saramago um darwinismo fatalista em que tudo termina com a morte, reduzindo o homem apenas a mais uma espécie zoológica entre milhares de outras com as quais se aparenta.

No seu pronunciamento anti-bíblico em Penafiel não afrontou apenas a Fé, mas a mais fundamental obra da Cultura Judaico-Cristã, de que ele é beneficiário, quer queira ou não. Tanto que o texto bíblico já lhe propiciou duas obras. Polémicas é certo, mas, sem essa influência cultural benigna, apesar da crueldade que ele faz questão de salientar, não as poderia criar e se as criasse, não teria certamente mercado… Ora ninguém escreve do nada para ninguém…

Nesta sua cruzada contra Deus e a Religião, mais em particular, contra o Cristianismo, Saramago acaba por fazer coro, conscientemente ou não, com os propósitos fracturantes da Nova Ordem Económica e Social, concebida e dirigida por homens como Rockfeller, Rothschild, Henry Kissinger, etc., os quais preconizam desde há muito a redução da Humanidade a 1/3, alegando um excesso de população mundial em razão dos recursos disponíveis, o que não é verdade. Não o é, porque ninguém ainda foi capaz de o demonstrar, independentemente da Economia vigente que é, esta sim, a responsável pela fome no mundo, pelos profundos desequilíbrios sociais e por uma injusta redistribuição da riqueza mundial criada. Para tanto, tais ideólogos do Governo Mundial criaram e mantém várias agências (ONGs), sob diferentes designações, algumas aparentemente inocentes e até filantrópicas, que por todo o mundo promovem a cruel doutrina da “morte assistida” (o aborto social e a eutanásia) e o prazer sexual fora do contexto natural. O programa de educação sexual que se pretende implementar em Portugal, por exemplo, é um autêntico convite à perversão sexual, cuja origem reporta-se a tais organizações. Tais agências funcionam como lobbies junto dos Governos Nacionais pressionando a adopção de políticas que cumpram os desígnios da Elite Global, algumas já reguladas pela lei, das quais o Mundo Ocidental já se recente, pelo crescente envelhecimento da sua população por falta de uma taxa de nascimentos que a rejuvenesça.

A obsessão de Saramago pela mítica crueldade que retira literalmente da Bíblia, fruto de uma exegese sem fôlego antropológico, fá-lo esquecer a actual, que é uma crueldade ditada não pela mão de Jeová, mas pela Elite Global, que se arroga substituir Deus na mente e coração dos homens, para a qual o Cristianismo é um sério obstáculo. Daí o seu esforço para desacreditá-lo e para, mais tarde, substituí-lo por uma Fé estritamente materialista, mais conveniente aos seus obscuros “negócios”. Temos pena que Saramago não veja isto, sendo um homem tão preocupado com os pobres.

Artur Rosa Teixeira (Pensionista)

artur.teixeira1946@gmail.com