Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

A crise econômica e suas consequências para os trabalhadores

Paulo Henrique Costa Mattos

O mundo vive uma crise de largas proporções provocada pela ganância do capitalismo financeiro especulativo que estimulou um pensamento único na economia e incentivou a financeirização total da economia capitalista, que é a riqueza produzida na forma de “papéis” (títulos públicos, ações, títulos derivativos etc) descolada da riqueza produzida na economia real, produtiva. Somente em derivativos e aplicações financeiras chegou-se a movimentar US$ 600 trilhões de dólares, enquanto o PIB mundial da economia não especulativa era de US$ 65 trilhões de dólares, ou seja, quase dez vezes inferiores ao valor da esfera especulativa.


As bases dessa crise financeira atual estão nas políticas de desregulamentação e da auto-regulação do mercado, que formou, particularmente nos últimos trinta anos, dogmas constitutivos do modelo de crescimento liberal que pregava a liberdade de funcionamento do mercado, a ausência de controles mais rígidos por parte do Estado e a construção de um longo ciclo de descolamento da esfera financeira em relação à economia que, ao que tudo indica, agora está em cheque.


O Brasil está inserido nesta lógica especulativa e agora pagará um alto preço pela opção de Lula em herdar e manter o mesmo modelo econômico de Fernando Henrique Cardoso, perdendo a chance de uma exitosa transição do falido modelo de dependência externa, de submissão ao sistema financeiro, aos bancos e transnacionais para outro tipo de economia, de maior valorização do trabalho, de elevação dos mecanismos de poupança interna, de fomento da sustentabilidade e da qualidade de vida para todos.


As reservas internacionais brasileiras correspondem hoje ao valor da dívida externa, enquanto a dívida interna é 5 vezes maior que as reservas, com um valor superior a 1 trilhão de reais. Somente o passivo de curto prazo está em torno de 600 bilhões de dólares, ou seja, três vezes as reservas. Mas a crise mundial está apenas no seu começo e a alta do dólar vem consumindo as reservas brasileiras rapidamente. Até meados de novembro de 2008, apesar de o Banco Central Brasileiro ter gastado mais de US$ 50 bilhões em intervenções, não conseguiu deter a depreciação do real. Além disso, o governo também já anunciou que as remessas de dólares ao exterior superaram o ingresso de capital estrangeiro em US$ 877 milhões, apenas nas duas semanas do corrente mês.


A crise econômica mundial tem inúmeros elementos que apontam a desestabilização da cadeia produtiva do país e ameaça de quebra muitas empresas nacionais, que, após anos de real forte e abertura econômica, usa muitos insumos importados. E as perspectivas não são favoráveis ao real nos próximos meses já que o dólar continuará em alta (até agora com alta anual de 34,5%) e a pressão do mercado sobre o câmbio é forte, interessando a muitos capitalistas estrangeiros, que apostam no mercado futuro da bolsa de valores, lucrando milhões se a cotação do dólar se mantiver em alta. Essa é a demonstração cabal de que o jogo virou e as empresas brasileiras exportadoras, que, na busca de ampliação de seus lucros pela via financeira, especulavam no mercado de câmbio futuro, com a eclosão da crise e a forte desvalorização da moeda brasileira frente à moeda norte-americana, começaram a acumular fortíssimas perdas. Um número grande de empresas estão envolvidas e algumas fontes já apontam que o prejuízo delas é superior a R$ 35 bilhões.


Lula, que disse antes das eleições 2008 que não admitia adotar medidas de combate à crise auxiliando empresas que especulavam no mercado, já tomou uma série de medidas não só para salvar empresas exportadoras e bancos, como também para manter o fluxo de capitais especulativos no Brasil. O ex-operário presidente manteve a mesma lógica da subserviência e do capachismo nacional ao capital ao assegurar que mais uma vez os trabalhadores brasileiros pagarão com seu suor, miséria e déficit social o alto custo da crise.


O Banco Central decidiu liberar parte dos depósitos compulsórios, com o pretexto de destravar as operações de crédito, mas a verdadeira razão dessa medida é apenas dar um alívio aos bancos frente à inadimplência das empresas exportadoras com seus contratos de câmbio, algumas delas já levando o problema para a Justiça resolver. Mas os próprios efeitos dessa injeção de liquidez se mostram pouco efetivos. O crédito continua paralisado e empresas com planos de investimento e operações de financiamento em curso estão sendo informadas pelos bancos da paralisação dos negócios em andamento.


O governo do ex-operário presidente editou uma Medida Provisória (nº 442/2008) que ampliou substancialmente a autonomia do Banco Central, inclusive na utilização das reservas de divisas do país, com o objetivo de viabilizar linhas de crédito a bancos brasileiros com filiais no exterior e a empresas exportadoras. Ou seja: frente a uma forte especulação contra o Real, quando agentes econômicos correm para o dólar, o Banco Central passa a poder

alimentar ainda mais esse jogo, e com a utilização das reservas internacionais. É como se Lula quisesse apagar um incêndio com gasolina.


Lula é o bombeiro do capital e, além de adotar medidas emergenciais de “salvamento” dos “pobres exportadores e banqueiros”, irá usar os bancos públicos para comprar ativospodres de bancos privados, salvar os fundos de pensão de operações duvidosas e especulativas fracassadas. Mais uma vez será cometido o crime de usar os recursos públicos para salvar bancos falidos, empresários picaretas de plantão. Mais uma vez um saco de maldades será despejado contra a cabeça dos trabalhadores, favorecendo a corrupção, os desrespeitos aos direitos dos trabalhadores, o arrocho salarial, o desemprego, a violência e a barbárie. E dessa vez não dá para ele dizer que não sabia.


As conseqüências da crise sobre a economia brasileira serão trágicas, pois os capitalistas internacionais procurarão jogar todo o peso de seus custos sobre a população brasileira. Assim poderemos ter como principais conseqüências da crise global na economia brasileira os seguintes aspectos:


a) queda da produção industrial, agrícola e do crescimento econômico geral, medido pelo PIB;


b) queda das exportações. Como dependemos de exportações primárias de matérias-primas agrícolas ou minerais, e os seus preços no mercado internacional foram rebaixados, prevê-se um déficit na balança comercial. Ou seja, vamos gastar mais na compra, na importação, do que receberemos nas vendas, nas exportações (dos 20 principais produtos exportados, 18 são matérias primas);


c) queda na taxa de investimento das empresas e do governo. Como a economia esta muito concentrada em 500 empresas e no Estado, essas empresas vão priorizar o envio dos recursos pro exterior ou pagar suas dívidas. O governo está priorizando o pagamento dos juros. Então a conseqüência é que a taxa de investimento, que é medida pelo valor a ser aplicado em máquinas sobre a produção total, vai cair. No auge do milagre econômico, chegamos a investir até 30% de tudo o que era produzido. Durante o neoliberalismo essa taxa caiu para 20%; e possivelmente durante a crise, a taxa de investimento deve ficar abaixo de 20%; portanto, vai demorar ainda mais a recuperação do crescimento da produção, que esta diretamente relacionado com a taxa de investimento nos anos anteriores.


Uma das piores faces da crise em nossa economia vai ser o aumento da taxa de câmbio e a crescente desvalorização do real frente ao dólar. Segundo os especialistas, a taxa de câmbio a essa altura, março de 2009, já deveria estar ao redor de 3,50 reais por dólar. Com isso teremos que usar mais riqueza nacional para comprar bens que vêm do exterior. E os setores exportadores vão ganhar mais dinheiro em real por suas exportações. Mas como as exportações estão concentradas em poucas empresas, os ganhos também estarão concentrados.


Mas teremos uma série de outros acontecimentos também muito nocivos, a exemplo da própria diminuição das remessas de dólares e euros que os trabalhadores brasileiros no exterior faziam para suas famílias no Brasil. Esse valor chegou atingir a 4 bilhões de dólares por ano. E agora certamente deverá diminuir muito. E muitos trabalhadores migrantes do Japão, da Europa e dos Estados Unidos já começaram a retornar afetados pela crise naqueles países.


A fantasia consumista dos brasileiros, tão estimulada pelo ex-operário presidente também está chegando ao fim com a diminuição dos volumes de capital disponível para crédito aos consumidores, e também para as empresas fazerem investimentos. Cerca de 20% de todo o crédito oferecido no Brasil antes da crise era de capital financeiro estrangeiro, que vinha aqui se locupletar com altas taxas de juros. Agora, com a crise, esse capital desapareceu, já caiu em 20%.


Por onde se busca olhar para a crise percebemos que as consequências para a classe trabalhadora e para o povo em geral serão muitas e nefastas. A consequência mais grave será o aumento do desemprego. Milhares de trabalhadores perderão seus empregos nos próximos meses e anos, sobretudo os de carteira assinada, na indústria e no setor de serviços, tendo que sobreviver na informalidade, no trabalho semi-escravo ou escravo, nas condições inumanas que se aprofundarão.


Isso provocará uma brutal queda da renda, fazendo com que toda a classe trabalhadora tenha sua renda média diminuída, seja pelos salários mais baixos, seja pelo desemprego que afetará as famílias, seja pela falta de crescimento da economia em geral. E o pior é que isso também fará com que o governo tenha menos recursos públicos para aplicar em educação, saúde e transporte, pois arrecadará menos impostos; e se o governo continuar priorizando os empréstimos para empresas e bancos não quebrarem, certamente os recursos para investimentos sociais vão diminuir ainda mais.


Outro aspecto bastante nocivo também será o aumento dos preços dos alimentos, que vão subir mais rápido com a crise, por vários fatores. O comércio é controlado por grandes empresas transnacionais, que o controlam de forma monopólica e, por isso, vão controlar os preços para aumentar suas taxas de lucro. Muitos insumos usados pelo agronegócio são importados e dependentes do petróleo e, por isso, vão aumentar de preço. O preço do etanol segue a mesma tendência do petróleo e, portanto, seguirá subindo. Com isso sobe a taxa de lucro médio da agricultura da cana e puxa para cima todos os produtos agrícolas.


Para piorar a situação, os preços recebidos pelos pequenos agricultores por seus produtos vão cair, fazendo com que milhares de pequenos agricultores, que ainda conseguem produzir leite, aves, porcos, frutas, de forma integrada com as agroindústrias, sejam ainda mais explorados. Isso ocorrerá porque essas indústrias são grandes empresas que tiveram prejuízos com a crise. E elas vão repassar o prejuízo para os agricultores através dos preços pagos aos seus produtos. Ou seja, os agricultores receberão menos pelo seu trabalho embutido nos produtos vendidos para as empresas. E as empresas não baixarão os preços repassados a supermercados: ao contrário, aumentarão os preços desses mesmos produtos que vão subir para o consumidor; assim eles vão recompor suas taxas de lucro, explorando nos dois lados.


Um dos aspectos mais dantescos da crise será o crescente desrespeito aos direitos trabalhistas. Basta ver a sinalização feita pelo presidente da maior empresa do Brasil, a Vale do Rio Doce, o Sr. Roger Agnelli, que foi muito claro, dizendo ao governo e à imprensa, que a única maneira de sair da crise seria suspender todos os direitos sociais e trabalhistas até que as empresas pudessem recuperar os lucros e os investimentos. Ele teve muita coragem. E começou a aplicar na prática, demitindo milhares de trabalhadores daquela empresa.


A Vale do Rio Doce teve um lucro de 21 bilhões de reais em 2008 e, mesmo assim, eles já demitiram 4.200 trabalhadores, até março de 2009, demonstrando a verdadeira “vontade política e as prioridades dos capitalistas”: jogar nos ombros dos trabalhadores o preço da crise que eles gestaram nos últimos anos. Ou seja, o lucro deve ser apropriado de forma particular, mas os prejuízos devem sempre ser socializados! Prova disso é que já estão no Congresso vários projetos de parlamentares a serviço das empresas que procuram reduzir os direitos dos trabalhadores; “reduzir o custo Brasil”, como eles costumam dizer...


Cada vez mais haverá um aumento da jornada de trabalho e da intensidade do trabalho, pois hoje inúmeras empresas já não fecham suas portas nem aos domingos e feriados. Nessas empresas, vão ser aplicadas cada vez mais normas de trabalho para aumentar a jornada dos trabalhadores e a intensidade do trabalho e isso já vem ocorrendo de norte a sul do Brasil, mesmo em Estados atrasados como o Tocantins; basta ver as redes de supermercados e as empresas do agronegócio “que já não dormem”, funcionando 24 horas ininterruptas.


Junto a isso os capitalistas estão presssionando o governo para reduzir os impostos diretos sobre a renda (IOF, imposto de renda, imposto de transferência de renda para o exterior) e, assim o peso maior da arrecadação ficará nos chamados impostos indiretos, que a população paga dentro do preço do produto, que são o IPI e o ICMS.


Outro elemento muito negativo da conjuntura de crise econômica será o aumento das tarifas de serviços que antes eram públicos e agora são privados, como energia, transporte, água, etc. Isso porque muitos serviços públicos para a população agora estão nas mãos de empresas privadas e estrangeiras e certamente essas empresas vão pressionar para aumentar as tarifas de energia elétrica, água, telefone, transporte público, para recompor sua taxa de lucro. E mais uma vez a classe trabalhadora terá que arcar com esse prejuízo. Quando eram serviços públicos, controlados pelo Estado, era mais fácil a população pressionar os governos a não aumentar. Agora ficou mais difícil e o poder da sociedade em impedir abusos hoje é muito menor.


Por último, outro elemento que inevitavelmente irá ocorrer nos próximos meses e anos será o aumento da inadimplência de pagamentos, pois os trabalhadores terão dificuldades para pagar suas dívidas, pois a maior parte da classe trabalhadora, com carteira assinada, costuma comprar seus bens de consumo duráveis, como eletrodomésticos, carro, casa, a crédito. E como o crédito diminuiu e a renda também, e a taxa de juros não baixou, certamente teremos como conseqüência um aumento da inadimplência. As famílias não conseguirão pagar em dia seus compromissos. E com isso terão enormes dissabores com a perda de crédito, a colocação nas listas discriminatórias do SPC, Serasa, etc..Só para se ter uma idéia, em fevereiro de 2009, o índice de inadimplência da venda de carros foi de 33% de todas as vendas anteriores. Ou seja, 33% dos compradores atrasaram o pagamento das prestações.


Todos esses elementos apontam que estamos diante de uma situação extremamente grave e poderemos nos próximos meses e anos estar diante de verdadeiras situações de barbárie humana tal a degradação das condições de vida que podem advir como nos adverte o grande filosofo húngaro Istvan Mésaros. Muitos analistas dizem que esse pode inclusive ser o início de uma nova era do sistema capitalista, na qual se buscará uma face mais humana e menos injusta. Contudo, no atual cenário econômico e político internacional e nacional nada aponta para isso. Ao contrário, os dados econômicos e a situação geral indicam um aprofundamento da barbárie social, da exploração e uma desumanição ainda maior do planeta.


É preciso que não esperemos do governo Lula e dos capitalistas nenhuma solução milagrosa. É preciso não acreditar que a crise vai se resolver num curto prazo e acima de tudo é preciso perceber pela história que, em épocas de crise, eles querem é salvar o capital e a taxa de lucro. Por isso mesmo, devemos redobrar a força que nos resta para construirmos um PSOL capaz de estabelecer lutas sociais e inserir-se entre a classe operária e os trabalhadores em geral como um verdadeiro partido de classe. Mais do que alertar os trabalhadores sobre a gravidade da crise econômica temos que fazer com que nos seus sindicatos, associações, movimentos, pastorais, associações de bairro e categorias, haja um amplo debate sobre a crise.


Sem compreender a dimensão do problema, a natureza da crise e seus possíveis desdobramentos, as consequências para a classe trabalhadora serão dramáticas e terão desdobramentos efetivamente marcados pela barbárie.

Paulo Henrique Costa Mattos é professor de Sociologia da UNIRG e presidente do PSol-TO

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