As bravatas do senador Arthur Virgilio

ALTAMIRO BORGES

Pelo jeito, a “surra” que o senador Arthur Virgílio levou na eleição para o governo do Amazonas em 2006 não serviu de lição. No primeiro mandato do presidente Lula, o líder dos tucanos foi uma das vozes mais estridentes da oposição de direita. Vaidoso e chegado a um holofote, ocupou farto espaço na mídia venal para falar as suas sandices. A forte exposição, porém, não rendeu os votos sonhados – teve apenas 5,51% no pleito estadual. Escaldado, o expoente do PSDB até ensaiou uma mudança de postura, pegando carona no avião presidencial, tecendo loas ao presidente Lula, “que está mais maduro”, e fazendo autocrítica da sua “oposição exagerada”. Mas era pura encenação e agora ele volta a pousar de oposicionista hidrófobo.

Na batalha da CPMF, em dezembro passado, Arthur Virgílio foi um dos mais ácidos na crítica ao tributo que penalizava as grandes empresas e era destinado às áreas sociais. Ao tentar agradar as camadas ricas, inimigas de impostos e adeptas da sonegação, colocou-se abertamente contra os mais pobres, inclusive do seu estado, que dependiam deste tributo para ter acesso à saúde e ao Bolsa Família. Furioso, o senador até ameaçou renunciar ao cargo de líder do PSDB caso os seus pares seguissem a orientação de governadores tucanos mais pragmáticos, que contavam com o repasse da CPMF. A revista Carta Capital estampou na capa a fotomontagem de Arthur Virgílio como papagaio de pirata de FHC, prognosticando que o senador poderá sentir os reflexos desta atitude antipopular com uma nova “surra” no pleito ao Senado em 2010.

Bravatas do IOF e do Caixa-2

Mas o senador não tem cura mesmo! Iniciado o ano, ele reocupa o papel de testa-de-ferro dos ricaços, em especial dos banqueiros, na batalha contra o aumento das alíquotas do IOF (Imposto sobre as Operações Financeiras) e da CSLL (Contribuição Social sobre Lucros Líquidos). A exemplo de FHC, do “esqueçam o que eu escrevi”, Arthur Virgílio abusa da incoerência no seu oposicionismo raivoso. Em 18 de abril de 2002, dois dias após o governo tucano elevar o mesmo IOF, o então governista escreveu artigo na Folha de S.Paulo defendendo o tal aumento. “O atraso na aprovação da proposta de emenda constitucional que prorroga a CPMF abre um buraco inaceitável nas contas públicas... O aumento de alíquotas de IOF virá, temporariamente, para cobrir o vácuo aberto pela frustração parcial da arrecadação da CPMF”, alegou.

As bravatas e as incoerências do senador já são conhecidas. A enciclopédia eletrônica Wikipédia inclusive as tornou famosas no mundo. No verbete dedicado ao folclórico político amazonense, ela cita vários casos escabrosos. Lembra que o tucano, um dos vestais da ética contra os “recursos não contabilizados” do PT, confessou ao Jornal do Brasil, em 19 de novembro de 2000, que também usou tal expediente. “Em 1986, fui obrigado a fazer Caixa-2 na campanha ao governo do Amazonas. As empresas que fizeram a doação não declararam com medo de perseguição política”, disse. A matéria, intitulada “ilegalidade é freqüente”, abordou ainda as denúncias de doações de R$ 10 milhões à campanha pela reeleição de FHC. Mas logo o papagaio de pirata fez a defesa do chefão: “Vamos acabar com essa história de mocinhos pré-fabricados e bandidos pré-concebidos. Neste país, o Caixa-1 é improvável. A maioria das campanhas tem Caixa-2”.

Outros casos escabrosos

A Wikipédia resgata ainda um corajoso artigo de Maurício Dias, intitulado “mil faces de um tucano”. “O senador Arthur Virgílio tem se destacado nos últimos meses como um dos mais implacáveis adversários do governo do PT e, pessoalmente, do presidente Lula, que, por sinal, tem recebido dele insultos verbais e ameaças físicas, desferidas da tribuna do Senado. Virgílio, viripotente, soma à valentia de um carateca praticante um discurso em defesa da ética absoluta no exercício da política. Tem dito com ênfase que não admite o uso de ‘dinheiro não contabilizado” em campanhas eleitorais. Por isso, acusa Lula de promover um ‘escandaloso esquema de corrupção no país’... Não se sabe se a valentia do senador Arthur Virgílio já foi posta à prova por algum outro valentão. Mas o rigor ético que ele enverga não fica de pé um segundo diante de suaas declarações ao Jornal do Brasil. Elas nocauteiam a ética que o senador ostenta agora”.

A enciclopédia também aborda outros temas mais constrangedores. Ela estranha o fato do senador ter sido “o carrasco da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Graças a sua dedicada ação, o vice-governador do Amazonas, Omar Azis (PFL), escapou da Justiça. Os relatórios da CPI mostravam que ele era cliente de uma rede de prostituição envolvendo adolescentes de até 16 anos. Na época, Arthur Virgílio também negou ter presenteado uma menina com jóias e dinheiro”. A Wikipédia cita ainda reportagem do jornal cearense O Povo, que registrou a prisão do deputado estadual Arthur Bisneto, filho do senador, em outubro de 2004 – logo após curtir um quinto lugar na eleição para prefeito de Manaus (3,3% dos votos).

“Dou uma surra no Lula”

Na praça matriz de Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza, ele teria “baixado as calças, mostrando as nádegas”, para duas adolescentes que não souberam informar onde ficava o “Cabaré da Tia Bete”. Na seqüência, o deputado voltou à praça e “urinou em frente a um casal e teria acariciado o cabelo da moça e ameaçado o namorado dela com uma garrafa”. Denunciado por testemunhas, ele foi perseguido e preso, acusado de “atos obscenos”. Na delegacia, ostentando seu nome, desacatou a própria delegada Penélope Malveira, voltando a baixar as calças. Preso em flagrante e algemado, “ele teria reagido com palavrões e dito que com o relógio que estava no seu pulso dava para comprar ‘policiais, viaturas e você’ – referindo-se à delegada”. Bisneto foi solto após ser submetido a exame de teor alcoólico, que atestou embriagues.

A cena grotesca, envolvendo o “filhinho de papai”, é que explicaria a reação colérica de Arthur Virgílio, em novembro de 2005, quando afirmou em plena tribuna do Senado que “se ameaçarem um filho meu, dou uma surra no próprio Lula” – numa atitude que merecia a abertura de processo de cassação por falta de decoro parlamentar. Na ocasião, outros próceres da direita aproveitaram para dar um tom político às bravatas do tucano. “Senador Arthur Virgílio, vossa excelência não dará uma surra sozinho não. Terá um aliado, porque não tenho medo. O presidente da República, ou qualquer um dos seus, que tiver a coragem de se meter na minha frente, tomará uma surra”, esbravejou ACM Neto. Um ano depois, nas eleições de 2006, quem levou uma baita “surra” do povo foi o senador do Amazonas e o clã dos ACM na Bahia.

Quem é “idiota ou corrupto”?

O senador Arthur Virgílio, que teve um passado respeitável na luta pela redemocratização do país, é hoje uma das maiores víboras da direita nativa, estando sempre grudado aos fascistóides do Demo (ex-PFL). Por diversas vezes, ele usou a tribuna do Senado para chamar o presidente Lula de “idiota ou corrupto” e, na sua histeria golpista, pregou abertamente o impeachment contra o governante eleito democraticamente. Durante uma única sessão da CPI dos Correios, utilizou 17 vezes o termo “idiota” ao se referir ao atual mandatário. “Volto a dizer que nós temos um presidente que é um completo idiota ou é um corrupto... O Brasil tem que ter muita atenção porque, no mínimo, estamos a ser governados por um idiota”. Em agosto de 2005, o bravateiro mordeu a língua ao afirmar, de forma categórica, que “o governo Lula acabou”.

No auge da sua fama, durante a crise do governo Lula, o exibicionista procurou pousar de arauto da ética. Mas, como revelou a minuciosa reportagem de Fábio Jammal, na revista Fórum, ele náo teria moral para falar em corrupção. “Denúncias de mau uso do dinheiro público não faltaram quando ele foi foi prefeito de Manaus (1989-93)... Em dezembro de 2004, a Corregedoria-Geral da União lhe cobrou a restituição de R$ 154,7 mil aos cofres públicos por causa da falta de comprovação da aplicação de recursos transferidos pelo extinto Ministério do Interior... Virgílio foi dos que pior reagiu à ação da Comissão de Ética quando, em fevereiro de 2002, recebeu pedido de explicações. Ele era titular da secretária-geral da presidência da República e frequentou naquele carnaval os camarotes de empresas privadas no sambódromo carioca. Ele considerou um acidente a admoestação da comissão e tentou dizer que havia pago R$ 2,5 mil pelo convite. Foi contestado, já que as camisetas da empresa em questão não estavam à venda”.

Inimigo do MST e de Chávez

O senador também é inimigo declarado de todas as causas progressistas, como a reforma agrária. Quando o presidente Lula colocou o boné vermelho do MST na cabeça, o direitista criticou “a sinistra e perigosa escalada do governo, que tolera de maneira licenciosa, e por vezes indecorosa, a agressividade do MST”. Para ele, a atitude democrática do presidente, de respeito aos movimentos sociais, “pode ser interpretada como um apoio a métodos ilegais, autoritários, antidemocráticos e violentos de reivindicação política”. O senador comandou a coleta de assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para “investigar as ações ilícitas, com sucessivas e violentas invasões de terra, praticadas pelo MST”.

Partidário da derrotada proposta neocolonial dos EUA da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o senador agora esperneia para implodir o Mercosul e a integração soberana dos povos da região. O alvo da sua retórica agressiva é o presidente da Venezuela. “Caso dependa do PSDB, a Venezuela de Chávez não terá a sua entrada no Mercosul aprovada”, afirmou recentemente, acrescentando que fará “o possível e o impossível” para impedí-la. Em recente entrevista à revista Veja, o diplomata de formaçao Arthur Virgílio revela todo o seu rancor antidiplomático. “O PSDB náo compactuaria jamais com um regime ditatorial como o de Hugo Chávez. O PSDB náo perderia tempo acreditando nas balelas do senhor Evo Morales”.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey