Riscos ocultos

No Panamá, houve dois casos de produtos envenenados: dentifrícios importados da China continham dietilenoglicol , o mesmo veneno que o governo do Panamenho inadvertidamente adicionou a medicamentos contra resfriado, matando ao menos cem pessoas, ano passado. O produto, falsamente etiquetado como glicerina, também viera da China.

Duas recentes operações desencadeadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul, o anúncio de recall de brinquedos fabricados na China, um relatório da consultoria Kroll e uma reportagem do site Contas Abertas dão a medida do tamanho, mas não da quantidade, dos riscos que se corre atualmente por causa de medicamentos, brinquedos e próteses falsificados ou simplesmente fabricados sem um controle rígido de qualidade, quando não feitos por empresas de fundo de quintal, sem licença das autoridades de saúde.

Em outubro de 2006 o MP do Rio Grande do Sul revelou o resultado da Operação Hipócrates, uma investigação que durou um ano e descobriu que três empresas gaúchas forneciam próteses para hospitais de todo o País, sem autorização da vigilância sanitária. Foram denunciadas 165 pessoas, entre médicos, administradores de hospitais e empresários.

Um ano depois, a PF levou a cabo a operação Metalose , com uma revelação estarrecedora: uma quadrilha há quatro anos falsificava próteses humanas para substituição de ossos e dentes utilizando materiais sucateados e fora das especificações que vendia, inclusive, pela internet e até exportava. Metalose significa a rejeição da prótese metálica pelo organismo, o que pode resultar na necessidade de amputação de membros.

Segundo Contas Abertas, mais de três mil tipos de seringas e medicamentos utilizados em todo o país podem estar com defeito. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o PNUD (Plano das Nações Unidas para o Desenvolvimento) investigam cinco mil reclamações relacionadas à baixa qualidade de produtos usados em hospitais , entre os quais s eringas, próteses, medicamentos e hemoderivados - usados em transfusões sangüíneas .

Não menos perigosa, a falsificação de medicamentos ocorre em âmbito mundial. A empresa de consultoria de gestão de riscos Kroll International diz, em seu relatório Fraud Report 2007-2008, que a Mark Monitor, empresa que monitora o uso indevido de marcas, identificou mais de 3.100 farmácias vendendo na Internet uma ou mais das três marcas mais populares de medicamentos. Ofertas de remédios enviadas massivamente por e-mail são potencialmente perigosas, e apenas quatro de três mil sites tinham o selo de acreditação Verified Internet Pharmacy Practice Site (VIPPS); ou seja, não eram confiáveis. Mais assustador ainda , a média dos preços nestes sites era de um quinto daquelas encontradas nos que tinham o selo VIPPS.

A questão dos medicamentos e produtos como complementos vitamínicos oferecidos na Web é ainda mais arriscada porque o tráfego destinado a sites legais pode ser desviado e muitas farmácias virtuais falsificam os selos VIPPS. Recentemente, uma mulher canadense morreu depois de tomar comprimidos adquiridos online.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os medicamentos mais falsificados nos países ricos são os redutores de colesterol, os usados no tratamento de câncer e os repositores hormonais. Nos subdesenvolvidos são os antimaláricos, antiretrovirais - para HIV/AIDS - e os para tratamento de tuberculose.

Um cirurgião americano contou recentemente que utilizou uma tela de polipropileno para fechar uma hérnia e descobriu, através de um e-mail da Johnson & Johnson, fabricante da tela, que o produto usado por ele, adquirido de uma distribuidora tradicional, era falso.

Apesar das ações das autoridades, é preciso ter em mente que apenas uma parte das fraudes é descoberta e que muitas quadrilhas atuam durante longo tempo até que sejam desarticuladas. Fora isso, existem as falhas de projeto, caso evidente dos ímãs que soltam de brinquedos.

Luiz Leitão

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http://detudoblogue.blogspot.com

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey