Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Tragédia em Congonhas: Umas verdades

Rede Globo desrespeita dor de pais, mães, irmãos e esposas - Na terça-feira, ela já sabia de tudo, sem pareceres técnicos e nem investigações. Para ela, culpa da tragédia foi da reforma da pista e de Lula

Na página 6 desta edição, o leitor terá a cobertura dos fatos relacionados ao desastre com o Airbus da TAM, ao tentar aterrissar no aeroporto de Congonhas.

Aqui, cabe apontar o seguinte: já se sabe porque a Globo transbordou de raiva e ódio quando o governo Chávez, de acordo com as leis da Venezuela, não renovou a concessão pública que estava sendo usada – e abusada – pela RCTV. Acontece que não há muita diferença entre as duas. Talvez não haja diferença alguma, exceto, segundo alguns gaiatos, a língua: a da RCTV parece mais próxima do português.

MANIPULAÇÃO

Mas a pornografia é a mesma. Diante de um desastre, de uma tragédia como a do Airbus da TAM, diante de um acontecimento que deixou as pessoas perplexas, sem entender como ele foi possível, a única coisa que a Globo teve para dizer – e prontamente, como num reflexo - foi que a culpa é do governo. Mais especificamente, que a culpa é do presidente Lula. Certamente, não foi desse jeito franco, aberto e leal que eles disseram isso. Mas não houve ninguém que manifestasse dúvida sobre o conteúdo dos panfletos televisivos que a Globo quis passar como reportagem. Como o leitor sabe, todo mundo os entendeu exatamente do jeito que acabamos de expressar.

Nenhum respeito pela dor humana, pelos pais, mães, esposas, irmãos, demais parentes e amigos que sofriam uma perda que parecia inacreditável. Nenhum respeito pelos que morreram. Nenhum respeito pela verdade. Somente interesses mesquinhos, chicanas e, em geral, mentiras.

Há meses, qualquer coisa que acontece no ar é atribuída a uma “crise aérea”, crise esta que é na maior parte uma fabricação da mídia golpista, em especial da Globo. Desde o acidente com o Boeing da Gol que foi abalroado pelo Legacy, pilotado por dois irresponsáveis norte-americanos, que é assim. Resta saber por que antes o sistema aéreo brasileiro estava funcionando a contento e, de repente, não parece mais funcionar? O que mudou foi apenas o açulamento de controladores, companhias aéreas e usuários pela mídia, jogando uns contra outros, em especial contra a FAB.

Certamente, esse açulamento não se fez porque estavam querendo um melhor sistema. Fizeram-no exatamente para que o sistema entrasse em caos – e esse caos fosse atribuído ao governo e, particularmente, ao presidente. Assim, se um bem-te-vi atropelou um teco-teco (ou vice-versa), a culpa é de Lula, ainda que ele não seja dono do bem-te-vi nem do teco-teco.

Certamente, a Globo não foi a única a fazer isso. Mas, no caso do desastre da última terça-feira, foi a mais escandalosa e mais sem vergonha. Como sempre, teve logo a companhia de todos os débeis mentais que pululam no oportunismo político, no carreirismo midiático e, provavelmente, na zona do meretrício. Na Câmara, um deles, de perfil marcadamente asinino, gritava “assassinos”, porque teriam liberado “uma pista sem condições”, e pedia “cadeia”, supõe-se que para todo o governo, incluídas as três Forças Armadas. Resta saber quem ia executar tal ordem.

Outro, mais realista, pedia a renúncia do governo – ou seja, na falta de força para derrubar o governo, solicitava que o governo se auto-derrubasse. E apareceu até um inseto, dizendo-se “consultor político do PSDB”, para proclamar que a “imagem” do presidente estava “manchada” pela tragédia.

Na própria noite da tragédia, na terça-feira, a Globo já sabia de tudo. Não precisou de investigações, de pareceres técnicos, nem de ouvir o que estava gravado na caixa preta. Também não esperou para ver os vídeos do aeroporto de Congonhas que registraram a aterrissagem do Airbus. Para quê? A Globo já sabia de tudo. A culpa era da pista, da reforma feita pelo governo e do presidente. Com toda certeza. Sabia disso sem precisar de nenhuma informação, o que levou alguns a desconfiarem que o desastre havia sido obra da perigosa terrorista Miriam Leitão.

Dedicada nos últimos tempos a observar a deliqüescente vida sexual do bagre dourada e outras imoralidades (“459 espécies de peixes”, disse ela, fascinada, em sua coluna, sobre a libidinagem que come solta no Rio Madeira), a conhecida especialista em tudo (tudo que os patrões querem que ela fale) emitiu seu parecer antes das 8 horas da manhã de quarta, quando as cinzas do desastre ainda não haviam, literalmente, esfriado. Talvez por ter passado tanto tempo vendo a pouca vergonha nos bordéis aquáticos da Amazônia, foi um parecer despudorado. O amigo leitor consegue adivinhar quem ela tinha certeza que era o culpado pela tragédia? Pois é.

VÍDEO

Esse mundo de nulidades e lacaios, de alexandres-garcias, miriams-leitões (leitões?) e cabeças-de-bagre, é a Globo. E embaixo tem alguns não piores, porém mais descarados na sofreguidão por escalar a posição dos que estão em cima: aqueles e aquelas repórteres querendo extrair a fórceps, ou, melhor, a martelo, declarações contra o governo das famílias em lágrimas, ou de profissionais assoberbados de trabalho e preocupação, ou de especialistas que querem descobrir a verdade e não ser usados numa politicagem golpista.

Na noite da quarta-feira, a própria Globo foi obrigada a mostrar o vídeo gravado pelo aeroporto de Congonhas – a essa hora ele já tinha se espalhado pela Internet – onde é evidente que o desastre nada teve a ver com a pista, ou com a falta de “grooving” (isto é, com a ausência de ranhuras na pista), ou com qualquer problema advindo da reforma que o governo realizou no aeroporto de Congonhas. O vídeo desmentia todo o conteúdo despejado pela Globo no Jornal Nacional poucos minutos antes.

Como disse o presidente da Associação de Pilotos (APPA), com a velocidade com que o Airbus entrou na pista, não havia, exceto Deus, o que pudesse segurá-lo. Porque ele não reduziu a velocidade é, precisamente, o que tem de ser esclarecido.

CARLOS LOPES

TAM: “não existe relação entre o acidente e as condições da pista”

As afirmações do presidente e do vice da companhia acerca do acidente em Congonhas foram compartilhadas pela Infraero, especialistas e comprovadas por vídeo liberado pela Aeronáutica

O presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, em entrevista coletiva na quarta-feira, afirmou não haver “correlação da pista com o acidente” com o airbus A-320. Ele declarou que as especulações neste sentido, na sua opinião, são “prematuras” e pediu que as investigações a respeito das causas e responsabilidades sobre a tragédia sejam aguardadas.

Bologna, quando questionado sobre a segurança do aeroporto mais movimentado do país, declarou: “sim, Congonhas é um aeroporto seguro”, e destacou a diminuição da freqüência das operações no local, que já foi quase duas vezes maior que a atual. Ele também disse que o pouso foi feito em concordância com as condições apresentadas e repetido 2160 vezes pela empresa desde a inauguração da nova pista, recentemente reformada e entregue há um mês.

Ele disse ainda que o fato de “a pista reformada ter sido entregue sem o grooving (ranhuras) não é necessariamente relevante”, já que os cálculos das operações são feitos levando em conta esse fator. “Quando um aeroporto que não tem grooving está aberto, pressupõe-se que a lâmina de água esteja menor que três milímetros”, disse.

CONGONHAS

O vice-presidente de operações da TAM, Alberto Fajerman, também presente à coletiva, declarou que “não houve relatos de problemas na pista após a reforma” e que o grooving “faz diferença, mas para aumentar o peso permitido da aeronave que está pousando”. A aeronave estava com peso inferior ao peso máximo permitido para pousos em Congonhas, em condições de chuva: No momento da tentativa de pouso a aeronave pesava 62,5 toneladas, enquanto as especi-ficações do fabricante previam que o avião pudesse ter peso de até 64,7 toneladas. “[A aeronave] estava absolutamente dentro dos requisitos de desempenho de vôo”, afirmou.

O presidente da TAM lamentou as vítimas causadas pelo acidente e informou que “tudo está coberto e será devidamente indenizado de uma maneira justa o mais breve possível”.

O acidente envolvendo a explosão do avião da TAM que derrubou o muro do aeroporto de Congonhas, atravessou a pista da Washington Luis, zona sul de São Paulo, bateu em um posto de gasolina e em seguida atingiu o depósito de cargas da empresa, foi uma tragédia que comoveu a todos os brasileiros.

No acidente do vôo JJ3054, aproximadamente 200 pessoas perderam suas vidas – 186 passageiros estavam no avião. Três mortos estavam no posto de gasolina e nove no prédio da TAM Express atingido. Dezoito pessoas que trabalhavam no depósito ainda estavam desaparecidas na tarde da quarta-feira, de acordo com o capitão Nilton Miranda, do Corpo de Bombeiros. “Nosso trabalho só termina quando localizarmos todas as vítimas e deixarmos o local em segurança”, disse.

A Infraero (Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária) afirmou logo após o acidente que todas as providências para esclarecimento do acidente do avião da TAM estão sendo tomadas pelos órgãos competentes e também ressaltou que “são prematuras quaisquer hipóteses sobre o sinistro, sendo prudente aguardar-se as devidas investigações sobre o caso”.

Porém, poucos momentos após a triste tragédia, setores da mídia apressaram-se em “resolver” o caso afirmando que o governo federal e o “caos aéreo” seriam os responsáveis pelas vítimas. Segundo esses setores, uma suposta derrapagem do avião – que teria sido causada pela falta de ranhuras na pista principal do aeroporto de Congo-nhas, recente reformada – não permitira o sucesso do pouso do airbus A-320 e por isso ocorreu a tragédia, apontando para “responsabilidade do governo federal”.

Um vídeo divulgado pela Aeronáutica na noite da quarta-feira desmente as insinuações de derrapagem. A imagem mostra o A-320 enquadrado por uma câmera do aeroporto atravessando a pista em apenas três segundos quando um avião, que o antecede, em pouso normal, o faz em 11 segundos. O vídeo também mostra contato da aeronave com o chão, sem derrapagem, mas com uma velocidade várias vezes superior à de uma aterrissagem regular, com uma possível tentativa de arremeter.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) abriu inquérito para investigar o acidente. O chefe do Cenipa, brigadeiro-do-ar Jorge Kersul Filho, destacou que a formação da lâmina d’água na pista que tenha feito o Airbus derrapar na pista está praticamente descartada: “foi reportado que não havia lâmina d’água que pudesse gerar aquaplanagem”.

INFRAERO

O superintendente de Engenharia da Infraero, Armando Schneider Filho, negou, durante entrevista coletiva, que o acidente com o avião da TAM tenha sido causado por uma derrapagem da aeronave. “Se a pista estivesse em condições de inoperância, ou seja, com acúmulo de água, não seríamos irresponsáveis de manter as operações”.

“Não existe condição de derrapagem nesta pista, posso afirmar aos senhores. Ontem à tarde, quando a torre de controle pediu que nosso funcionário fosse às pistas, nem lâmina d’água tinha, não tinha o que medir. E foi essa a resposta dele para a torre: ‘eu não posso medir a lâmina d’água para uma provável interdição da pista porque não existia a lâmina d’agua’. O problema do escoamento d’água foi resolvido com a reforma recente que a Infraero acabou de entregar”, acrescentou.

Schneider explicou durante a coletiva que o grooving não aumenta o atrito na pista, mas que se trata de uma melhoria. Além disso, explicou que não havia condições de se fazer esse grooving agora porque, caso contrário, se perderia todo o serviço de reforma realizada nas pistas do Aeroporto de Congo-nhas recentemente.

“Quero deixar claro a vocês de uma vez por todas: grooving é um plus, uma melhoria, ele não aumenta atrito. No caso de uma chuva torrencial, onde tem um grande acúmulo de água, o grooving é extremamente eficiente”, afirmou acrescentando que as condições operacionais da pista em Congonhas estão dentro dos padrões internacionais e, inclusive, acima dos padrões especificados para esta pista.

Os bombeiros trabalharam toda a madrugada e continuaram pelo dia de quarta-feira. O comandante do Corpo de Bombeiros de São Paulo, Manoel Araújo, afirmou no inicio desta manhã que os sobreviventes do desastre com o Airbus 320 da TAM já foram resgatados. “Sobreviventes foram retirados assim que as primeiras guarnições chegaram ao local”, informou.

RODRIGO CRUZ

Original em

www.horadopovo.com.br