Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

A água virtual

Introdução

O Papa Bento XVI, quando de sua visita ao Brasil em maio de 2007, em seu discurso na Catedral da Sé, disse: "Deve-se trabalhar incansavelmente para a formação dos políticos, dos brasileiros que têm algum poder decisório, grande ou pequeno, e, em geral, de todos os membros da sociedade, de modo que assumam plenamente as próprias responsabilidades e saibam dar um rosto humano e solidário à economia".

Por Nancy Gorgulho Braga (*)

Segundo Achim Steiner, economista brasileiro naturalizado alemão e atual diretor-executivo do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - a mais importante organização internacional ligada à área ambiental),“faz tempo demais que a economia e o meio ambiente parecem jogar em equipes adversárias”.

Pensando nesses pronunciamentos, resolvi dar um rosto humano e solidário à economia visando à questão da água.

Todos nós sabemos que a água é um bem vital, essencial a todos os organismos vivos e é fundamental para a vida na Terra, ora do ponto de vista da sobrevivência humana básica, ora do ponto de vista do sistema produtivo, de valor sócio-ambiental, econômico e político.

Sabemos ainda que de toda a água existente na superfície terrestre, apenas 3% corresponde a água doce que pode ser utilizada pela população mundial, sendo o restante água do mar. Mas destes 3 %, 99% estão fora de alcance: 27% congeladas em geleiras, e 72% em águas subterrâneas profundamente enterradas no subsolo, ficando apenas 1% nos rios, lagos e mananciais de água acessíveis ao consumo.

A quantidade de água existente no mundo hoje é a mesma que havia há 21 séculos, mas a população era menos de 3% da atual, ou seja, hoje a população do mundo está mais de 3.300 vezes maior. Se a água vai continuar tendo a mesma quantidade, é bom lembrar que a população continuará crescendo.

Essas constatações levaram o mundo a despertar pelas preocupações ambientais e os economistas estão inseridos nesse processo. O PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) estima que até 2025 a disponibilidade per capta de água fique em torno de apenas 5 mil m³, colocando assim 3 bilhões de pessoas em situação de grave estresse hídrico. Essa possibilidade de escassez se deve não só ao crescimento populacional, mas também ao mau uso e ao não gerenciamento da água disponível, e é por sua escassez que se atribui um valor econômico à água, ficando esta, sujeita as leis de oferta e demanda.

Até o início dos anos 80 as questões relacionadas ao uso da água (geração de energia, abastecimento doméstico e industrial, coleta de esgoto, etc) e seu manuseio não levaram em conta as conseqüências ambientais. Neste início do século XXI, a ONU instituiu o Decênio Internacional para Ação Água, Fonte de Vida (2005-2015). Se no passado recente a crise da água era um pouco mais silenciosa, hoje, na era da economia virtual, ela está em evidência.

Há um conceito virtual de suma importância que agora é que está sendo usado: trata-se da água virtual (“virtual water”). O conceito foi introduzido em 1993 pelo prof. J. Anthony Allan, do Kings College, de Londres. Mas o que é água virtual? Trata-se da água utilizada na produção de bens industriais, agrícolas ou até mesmo serviços, envolvendo toda a seqüência da cadeia produtiva até chegar-se ao produto final. Em outras palavras, água virtual é a quantidade de água gasta para produzir um bem, produto ou serviço, estando embutida no produto, não apenas no sentido visível, físico, mas também no sentido “virtual” considerando a água necessária aos processos produtivos. Pode-se então dizer que água virtual é a água que consumimos sem ver.

Em sua essência, água virtual diz respeito ao comércio indireto da água que está embutida em certos produtos, especialmente as commodities agrícolas, enquanto matéria prima intrínseca desses produtos. O sentido prático do conceito de “Água Virtual” está em permitir o cálculo da quantidade real de água incorporada a cada produto.

Sabe-se que o comércio agrícola promove uma gigantesca transferência de água de regiões onde ela se encontra de forma abundante e de baixo custo para outras regiões onde ela é escassa e cara e seu uso compete com outras prioridades. É previsível que este comércio crescerá muito num futuro próximo, paralelamente com o esgotamento e contaminação dos recursos hídricos.

Segundo o Jornal Folha do Meio Ambiente, nº 119, edição de junho de 2006, o mercado total anual de água virtual alcança o equivalente em vazão a 45.000.000 m3/seg. isso corresponde a 16 rios do porte do São Francisco em termos de vazão. No 3º Fórum Mundial da Água, realizado em 2003, o Brasil foi citado como o 10º exportador de água virtual.

…A carne de boi é um dos principais consumidores de água ( 17.100 litros por 1 kg de carne). Somente em 2003 o Brasil exportou 1,3 milhão de toneladas de carne bovina, fazendo com que tenham sido exportados também 19,6 km³ de água virtual.

O Brasil, no todo, é um país rico em água. Dispõe de 12% de água doce superficial do mundo, mas tem vivido uma ilusão de abundância a despeito das diferenças da má distribuição pelo seu território.

Com o crescimento do agro-negócio no Brasil, houve grandes expectativas para o desenvolvimento do país, mas o maior problema embutido nesse desenvolvimento é que acabamos nos tornando exportadores da nossa água, o que acaba se tornando interessante para outros países, pois poupam seus recursos hídricos com a importação de grãos e carnes dos países de terceiro mundo.

Embora esse seja o maior modo de exportar a nossa água, outros setores também fazem com que a nossa água saia de nosso território. A nossa energia elétrica é essencialmente hidrelétrica, ou seja, tudo o que demanda energia elétrica envolve uma parcela da nossa água.

Esse aumento de importações e exportações de produtos contendo água virtual foi designado como hidronegócio. Se não compreendermos a importância de implementar as políticas públicas de proteção aos mananciais e ao acesso à água, estaremos subsidiando o poder econômico e político de quem controlar os "estoques" de água. O século 21 será o século da escassez de água e, por isto, o hidronegócio chegou para ficar.

Considerações Finais

No último Fórum Mundial, em Quioto (Japão), foi defendido que os governos devam começar a levar em consideração a quantidade de água virtual existente nas suas importações e exportações, de forma a calcular o seu verdadeiro gasto de água.

A análise da água virtual desperta para o fato de que a agricultura é a maior consumidora de água potável, sendo a irrigação responsável pelo consumo de 70% dos recursos hídricos do nosso país. No futuro, muitos países só vão ter acesso a alimentos para seus cidadãos se importar esses alimentos de países que tenham água.

Verifica-se que, no Brasil, diante da grande quantidade de água disponível, há uma cultura de esbanjamento. Desse modo, os cidadãos deterioram a qualidade da água disponível com desperdícios. Segundo dados da ONU, para cada mil litros de água consumida pelo homem, dez mil são poluídos. O que se constata que a água não é mais um recurso renovável, como se aprendeu antigamente e está se tornando cada vez mais um recurso escasso.

A verdade é que para utilização de forma sustentável, a água não pode ser retirada de suas fontes ou contaminada com esgotos, dejetos industriais e lixo em velocidade maior ao que pode ser reabastecido pelo ciclo hidrológico (evaporação, precipitação, escoamento e infiltração) e de sua capacidade de regeneração. O resultado da má utilização da água é a necessidade de construir poços cada vez mais profundos, o que culmina em maior degradação desse recurso natural. Por isso, a importância da água só tem aumentado e preocupado.

Não basta que tenhamos abundância dos recursos hídricos se não promovermos ações de defesa desses recursos e nem acompanharmos o valor atribuído a eles em termos mundiais, para não corrermos o risco de pagar a conta da escassez de água de outras regiões do planeta.

O problema da escassez de água está longe de ser resolvido, especialmente do ponto de vista do acesso democrático a esse bem, mas caminhamos para uma postura madura e sensata no âmbito das políticas públicas, da conscientização e direcionamento da população a uma utilização racional e do uso privado da água.

Cabe ao cidadão, desse modo, reduzir o impacto causado pelo homem na utilização dos recursos hídricos, na medida em que desperta para sua influência dentro desse processo, através da formação de indivíduos mais conscientes e participantes na comunidade em que residem. Precisamos amar a mãe natureza e ser bons filhos antes que ela nos dê o troco e nos repreenda por nossos atos impensados.


Nancy Gorgulho Braga -  Conselheira do CORECON-SP e Coordenadora da Comissão Desenvolvimento Sustentado.

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