Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Instabilidade atual e ameaça de oscilações especulativas apontam a necessidade de maior controle financeiro global

Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2008 alerta que perspectivas sombrias para os países ricos podem se espalhar e interromper o recente 'boom' dos países em desenvolvimento caso os preços das 'commodities' declinem

(UNCTAD/PRESS/PR/2008/023, original em inglês)


Genebra/Brasília – Incerteza e instabilidade nos mercados internacionais financeiros, monetários e de commodities, unidos às dúvidas sobre a direção da política monetária nos principais países em desenvolvimento, estão contribuindo para um futuro sombrio para a economia mundial e representam riscos consideráveis para os países do terceiro mundo, segundo o Relatório Anual de Comércio e Desenvolvimento(1) da UNCTAD.


O Relatório, conhecido como TDR 2008, tem como foco a situação dos países em desenvolvimento, que permanecem altamente vulneráveis às flutuações dos preços das mercadorias. Também ressalta o papel da especulação nas grandes alterações dos preços das commodities. O Relatório defende que tais especulações – que perseguem lucros em curto prazo em detrimento da estabilidade em longo prazo – e a crise em potencial, que viria com ajustes abruptos das taxas de câmbio e mudanças nas balanças comerciais nacionais, apontam para a necessidade de mecanismos racionais e tranqüilizadores para controlar os fluxos financeiros internacionais e os equilíbrios monetários.


Os economistas que redigiram o relatório dizem que a atual crise financeira global e a possibilidade de políticas monetárias rígidas em alguns países é um presságio de grandes dificuldades para a economia mundial no restante de 2008 e em 2009. A explosão de certas bolhas especulativas e a volatilidade dos preços das commodities representam desafios enormes para os responsáveis pela adoção de políticas, em particular das políticas monetárias. Uma depressão global tem que ser evitada ao mesmo tempo em que a inflação derivada do aumento dos preços dos alimentos e da energia ainda está muito alta. A situação pode se tornar ainda mais difícil se as moedas dos países com grandes contas correntes deficitárias forem pressionadas para a desvalorização.


O relatorio, com subtítulo "Preços de Commodities, Fluxos de Capital e o Financiamento de Investimentos", foi lançado hoje.


A UNCTAD prevê que a produção mundial cresça cerca de 3% em 2008: quase um ponto percentual a menos que em 2007. Em países desenvolvidos, o crescimento do Produto Interno Bruto provavelmente será de cerca de 1,5%. O resultado imediato é melhor para os países em desenvolvimento, onde o crescimento pode exceder 6%, como resultado de dinâmicas de demanda interna relativamente estáveis em grandes economias em desenvolvimento. Mas a recessão nos países desenvolvidos e as políticas monetárias excessivamente restritivas em países em desenvolvimento, com altas inflações nos preços de alimentos e energia podem levar a uma maior desaceleração do crescimento nestes.


Para um grande número de países em desenvolvimento o prognóstico depende primordialmente de tendências futuras dos preços dos bens primários que exportam. Diversos fatores estruturais justificam a expectativa de que os preços se mantenham em um nível mais alto do que nos últimos 20 anos. No entanto, fatores cíclicos, retirada de fundos especulativos e atrasos nas respostas da oferta bem podem trazer um significativo declínio. "Assim como a especulação intensificou o movimento ascendente dos preços, também pode intensificar um movimento de queda dos preços", diz o Secretário-Geral da UNCTAD, Supachai Panitchpakdi, na apresentação do relatório.


Os economistas da UNCTAD são severos em suas avaliações do sistema de controle financeiro mundial: "A recente crise mostrou mais uma vez que a disciplina do mercado é ineficaz quando se trata de prevenir episódios recorrentes de 'exuberância irracional', porque "a atual base internacional para políticas monetárias e de câmbio oferece oportunidades para atividades especulativas que são altamente lucrativas por um período limitado de tempo, mas, em última instância, desestabiliza o sistema inteiro." Eles pedem, no relatório, que haja uma regulamentação mais prudente e firme para reduzir a volatilidade e os efeitos negativos sobre a renda e intervenções onerosas para os cofres públicos.


Entretanto, recentes passos tomados pelos principais bancos para prover liquidez às instituições financeiras afetadas pela atual crise são considerados apropriados, devido aos riscos sistêmicos para o sistema global financeiro sem essas ações. A UNCTAD teme que, apesar de alguns ajustes nas desigualdades das contas correntes ao redor do mundo, desencadeados pela queda do dólar, divergências em políticas monetárias incentivem renovadas especulações desestabilizadoras em mercados cambiais. O relatório pede uma intervenção coordenada entre todas as partes envolvidas neste caso. Também aponta que uma correção não recessiva das desigualdades globais requereria um estímulo mais forte aos gastos domésticos e às importações nas principais economias de saldo positivo, especialmente na Alemanha e no Japão, assim como uma apreciação moderada da moeda chinesa. Os economistas da UNCTAD vêem "uma grande probabilidade de um declínio prolongado e agudo da economia mundial" e lamentam que os responsáveis por criar as políticas econômicas sejam incapazes de lidar com esse desafio.


Por outro lado, acreditam que o risco de inflação galopante, como resultado dos maiores preços das commodities primárias, tem sido consideravelmente superestimado. A probabilidade de uma espiral dos salários ocorrer é muito menor hoje do que nos anos 70, quando o preço do petróleo aumentou. Isso é devido aos custos da unidade do trabalho, que são um fator determinante da inflação e que cresceram muito pouco na maioria dos países. "Medidas para tornar a política monetária mais restrita exacerbariam a recessão global", alerta o relatório.


O TDR 2008 sugere que a volatilidade recente dos preços das commodities não pode ser explicada sem levar em consideração o papel da especulação e estimula os governos a tomarem novas medidas, com o objetivo de atingir maior estabilidade dos preços das commodities. O relatório também recomenda instrumentos de resposta rápida para mitigar o impacto de grandes flutuações dos preços das commodities: "Medidas de regulamentação severas, que ajudem a conter a especulação nos mercados de commodities, seriam um passo importante, já que esta especulação tipicamente exacerba as tendências dos preços originadas de mudanças nos fundamentos."


Economistas da UNCTAD, lembrando um tema recorrente, aconselham que uma maior diversificação e desenvolvimento industrial são a melhor estratégia de longo prazo para reduzir a vulnerabilidade às oscilações dos preços das commodities. Esta transição requer maiores investimentos em novas capacidades produtivas – a habilidade de manufaturar bens mais variados e sofisticados – e em infra-estrutura. É mais fácil financiar estes investimentos em fases de "boom", como a atual, observa o relatório. Mas, em vários países, grande parte dos lucros consideráveis advindos dos preços cada vez mais altos dos combustíveis fósseis e produtos de mineração é escoada para empresas estrangeiras. Isso significa que esses lucros ou se perdem como capital potencial para os países onde eles são originados ou, como freqüentemente acontece, são reinvestidos pelas empresas estrangeiras nas mesmas atividades de extração, perpetuando a dependência das commodities, ao invés de reduzi-la, afirma o relatório.

Fonte: www.consciencia.net