Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Geopolítica e geoestratégia

Por Humberto Dalsasso (*)

Ao discutir geopolítica e geoestratégia, o economista Humberto Dalsasso discute a exploração dos recursos minerais brasileiros. "Ter lucro não é pecado", afirma. "Queremos, todavia, ressaltar a necessidade de que isso seja feito com responsabilidade e respeito à natureza e, consequentemente, às gerações futuras".

A análise superficial da economia brasileira leva-nos a nos contentarmos com seu desempenho dos últimos anos, mais precisamente a partir de 1994. O fantasma da inflação foi domesticado e o PIB mostrou algum crescimento. Este, no entanto, a partir de 1997 a 2002 e, acentuadamente em 1999, pela desvalorização cambial, em dólar, entrou em declínio. A partir de 2003 apresentou crescimento moderado, apesar da valorização do Real e da mudança na metodologia de cálculo que elevou os números do PIB em, aproximadamente, 11%.

Todavia, quando analisamos mais profunda e qualitativamente, com isenção político-partidária, vemos outra realidade, apesar de o resultado genérico do último qüinqüênio ter sido melhor do que a expectativa da sociedade diante do quadro político. Ainda que analisar, ponderar ou criticar seja mais fácil do que governar, isto, feito com imparcialidade, é necessário e conveniente para o feed-back, a auto-análise e o eventual reposicionamento dos governantes. É neste sentido que fazemos.

O último qüinqüênio foi generoso com a economia brasileira, não nos expondo a nenhuma catástrofe – enchentes, secas, temporais – de significativo impacto. A demanda global favoreceu a exportação de commodities e o desequilíbrio entre oferta e demanda elevou os preços. O aumento do crédito expandiu a demanda interna, todavia, se a expansão entrar no espaço da irresponsabilidade, a inadimplência e suas conseqüências poderão ter alto custo. É bom que se reconheça que o brasileiro tem alta propensão a consumir e, com frequência, não planeja suas finanças pessoais. Isto aliado à oferta tentadora de crédito aumenta os riscos. Sirvam-nos de baliza os exemplos já mostrados na história econômica, de que é protótipo a recente crise sub-prime americana

Outros fatores – carga tributária, taxa de juros e de câmbio, encargos sociais - estão debilitando a indústria brasileira a ponto de muitas delas precisarem instalar-se em outros países, predominantemente na China, não puramente por uma questão de logística, mas por dificuldades competitivas. Isto tende a enfraquecer, neutralizar ou anular o momento favorável da economia brasileira. Com isso, não só os empregos estão sendo deixados de ser criados no Brasil como muitas dessas fábricas aqui poderão virar simples unidades de montagem. Outro risco dessa imperiosa decisão é a absorção externa do know-how de nobres produtos brasileiros com a posterior “expulsão econômica” dessas empresas daqueles países. Hoje, no entanto, foi a alternativa de sobrevivência encontrada. O fenômeno da globalização também não pode ser desprezado.

Outro fator que contribuiu para ocultar essa pressão e dar a idéia de que a economia brasileira está crescendo consistentemente foi o significativo aumento dos preços das commodities minerais – minérios e petróleo – que, antes deste qüinqüênio, eram irrisórios, quase doados aos importadores estrangeiros, a ponto de, nas décadas anteriores, o Japão fazer aterro com minério de ferro brasileiro.

O crescimento econômico e demográfico global, com suas crescentes necessidades, vem expandindo geometricamente a procura por minerais. O Brasil, beneficiado pela generosa natureza, tem sido mirado, paquerado, desejado e até seduzido por essas nações demandantes, predominantemente a China, que quase já exauriu suas reservas naturais e reduzindo seu solo cultivável.

Que esta paquera exista é bom e natural. Relacionar-se com o mundo é recomendável. O que preocupa, no entanto, é o eventual aumento da ganância privada de colocar o lucro como fim último e superior e o entusiasmo ingênuo e irresponsável do governo em desconhecer que os recursos naturais, exauríveis que são, constituem recursos do patrimônio soberano e, como tal, pertencem à Nação, que tem a responsabilidade de zelar pelo bem-estar das gerações atuais e futuras. Aí, então, é grande a responsabilidade, não só dos dirigentes empresariais mas, principalmente, dos governantes. Ter lucro responsável é bom e não é pecado.

Concluir o mandato com o reconhecimento de “estadista” era não só a aspiração de todo governante sensato, mas também a satisfação da sociedade. Isto, no entanto, tem sido raro no Brasil nas últimas décadas embora se mostre cada vez mais necessário, tanto pela competitividade global evolutiva como pela crescente necessidade dos recursos naturais não renováveis.

Quando vemos o entusiasmo – não só das empresas mas também dos governantes – pela crescente demanda externa por esses recursos lá faltantes (minérios, petróleo, água, etc.) somos levados a refletir se essa ganância por lucros imediatos, que nas empresas constitui eficiência, no longo prazo não se traduzirá por irresponsável “explotacão”, merecendo a justa condenação pelas gerações futuras.

O conceito de que “recursos não são riquezas”, que nos foi incutido no século passado por interesses externos, defendido por Murray D. Brice, não deve ser rejeitado, mas também não deve ser ingênua e integralmente aceito. Cabe análise sensata. Assim como seria estultice condenar toda e qualquer exploração desses recursos, não é inteligência exauri-los irrefletidamente, com os olhos apenas na moeda. Temos o exemplo de muitas regiões no Brasil e de muitos países, inclusive a China, que exauriu suas reservas, hoje tem apenas 11% de seu solo cultivável e, por necessidades gigantescas atualmente, tem seu foco de interesse no território brasileiro. Visite as regiões mineiradas em Santa Catarina (Lauro Muller, Siderópolis, Rio Queimado, Palermo, Rio Bonito, Guatá, Itanema e outros), Minas Gerais (Ouro Preto, Belo Horizonte e outros), Bahia (Lobato) e Rio Grande do Sul e veja que, além da paisagem fantasma - solo, rios e florestas detonados - a saúde dos mineiros foi afetada e a iniciativa empreendedora dos colonizadores bloqueada. Caracterizou-se como efetiva “Economia de Enclave”.

Para evitar má interpretação, deixemos claro que não somos contra a extração natural, ponderada e responsável desses recursos, assim como não somos contrários a negociar com a China ou qualquer outro país. Ter lucro não é pecado. Queremos, todavia, ressaltar a necessidade de que isso seja feito com responsabilidade e respeito à natureza e, consequentemente, às gerações futuras. O Brasil poderá aproveitar adequadamente essas vantagens e agregar valor à nossa economia, exportando produtos mais elaborados e, sempre que possível, diferenciados. Isto fortalece o setor produtivo brasileiro. Empresas e governos deverão estar integrados, preservando o interesse nacional. Isto implica priorizar a prática da geopolítica e a geostratégia.

Entendemos que Geopolítica é o fundamento científico da arte de ação política nas relações entre o espaço geográfico e a política, tendo como pressupostos o desenvolvimento dos povos e dos Estados, respeitando a natureza e o direito das gerações futuras. É, então, o estudo dos processos políticos que ocorrem em dependência do solo do Estado (União). Segundo Haushofer, “Geopolítica é a ciência das formas da vida política nos espaços vitais naturais, considerados através do processo histórico, em sua vinculação com o meio ambiente”. Difere, portanto, da Geografia Política, que é “a doutrina de compartimentação do poder estatal no espaço da superfície terrestre e de sua determinação pela forma e estrutura, clima e vegetação do solo”.

Por Geoestratégia entendemos “A fundamentação geográfica das diretrizes estratégicas nacionais, abrangendo os aspectos Políticos, Psicossociais, Econômicos e de Segurança, tendo como horizonte não só a geração atual como a gerações futuras”. É o que o Estado deve fazer com o patrimônio soberano para que a geração atual e as gerações futuras sintam-se consistentes, realizadas, felizes e, consequentemente, orgulhosas de sua Nação.

Feitas essas ponderações, reafirmamos nossas convicções de que os recursos naturais podem ser convertidos em riquezas, porém, moderadamente, com maior valor agregado e com elevada responsabilidade social, diante dos riscos de deterioração e de exaustão, que penalizariam severamente as gerações futuras. Isto fortalecerá o setor produtivo nacional e contribuirá para o desenvolvimento sustentável do País.

(*) Consultor Empresarial de Alta Gestão.

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