Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Fragmentos da teoria do capital financeiro na era da biotecnologia

Por Carlos Magno

O conceito de elasticidade da procura e a teoria microeconômica foram apurados formalmente em fins do século XIX por Marshall e outros; daí em diante, desenvolveu-se em função do debate econômico iniciado no século XIX e do desenvolvimento do cálculo até o século XIX. Vide o progresso científico proporcionado pelas descobertas de Lagrange. A abordagem total da economia pela oferta e pela procura, por Leontief, tornou-se possível pelo desenvolvimento da Álgebra Linear. Se algum dia o debate e a ação transformarem o conceito do deslocamento do trabalho em uma teoria há que se associar a transformação com o conhecimento elementar da física.

De outro modo, a lição que a história tem ensinado é a de que a ciência econômica se desenvolve a reboque e ao lado do desenvolvimento das demais ciências (exatas e humanas), inclusive a ciência do direito e a da política, sendo estas vigilantes das questões éticas e morais. A propósito, um dos juizes do Superior Tribunal Federal, solicitou recentemente vistas do processo de legalização ou não das pesquisas sobre células-tronco no Brasil. Outro exemplo, o governador de New York, abriu mão do cargo ao ser flagrado em descumprimento com os deveres do contrato conjugal. Não se vai muito longe, a CPI dos cartões corporativos, inaugurada neste inicio de março de 2008 no Congresso Nacional, nada mais é que uma investigação parlamentar sobre fortes indícios de desvios de conduta de administradores públicos. As questões éticas e morais afetam o indivíduo, o cidadão comum, o político e a sociedade logo, afetam a economia.

Não se pesquisou se em algum período da história o impasse da ciência econômica esteve associado ao impasse nas demais ciências em particular da matemática. O que nos parece está ocorrendo nessa quadra da história. Tentarei descrever o que penso sobre o problema da melhor maneira que me é possível descrevê-lo. A fim de ser breve e objetivo, o texto estará circunscrito à teoria do conjunto. É que a economia prática e teórica depende para o seu entendimento da teoria dos conjuntos em suas mais diversas formas de expressão.

Utilizamos no varejo e no atacado os conceitos de arranjo e de combinações sem nos darmos conta de que há um parentesco entre esses e as lições tomadas nos cursos primários, secundários, graduação, pós-graduação etc. A dificuldade presente se resume à dispersão verificada entre os códigos e símbolos da linguagem da economia e os códigos e símbolos da linguagem da teoria dos conjuntos. Uma não entende o que a outra diz. A economia trilha por um caminho não desenvolvido ou não difundido pela teoria dos conjuntos. Para todos os fins, acredito que os pesquisadores da ciência econômica e demais ramos da ciência, encontram-se “no mato sem cachorro”.

As combinações, arranjos e conceitos derivados estão calçados no número fatorial. De outro lado, o entendimento da economia caminha na trilha das partições dos conjuntos cuja base é uma exponencial. Qualquer conjunto acima de dois elementos, a fim de tornar a exposição do argumento mais próxima da praticidade, gerará mais elementos pelo princípio exponencial que pelo princípio fatorial. Um exemplo simplório. O conjunto família e tradicional, pelo princípio fatorial gera dois elementos. O conjunto família e não tradicional, pelo princípio exponencial gera pelo menos quatro elementos. E assim sucessivamente. O que se aplica aos conjuntos famílias deve se aplicar aos conjuntos capitais: agrícola, industrial, comercial e financeiro.

Da dispersão havida entre os caminhos da economia e o da matemática antes descrita, há que se esperar o aquecimento do debate ético e moral no campo jurídico e político em toda parte, se essa dispersão for universal (informalidade, ilegalidade, amoralidade versus formalidade, legalidade e moralidade). Todavia o arrefecimento ocorrerá com a formulação e a prática de uma Teoria dos Preços, da Moeda e do Emprego baseada na partição dos conjuntos. De outro modo, a teoria do capital financeiro pós-fatorial ou da era biotecnológica. Será isso possível?

Quase tudo se torna muito fácil ao entendimento comum se colocarmos o problema nos termos familiares. Gera uma sensação de que se violadas as regras neste campo os demais campos estarão a salvo. É apenas uma sensação porque este interage com os demais campos e os demais campos interagem, tanto em nível de sociedade quanto em nível de universo. Na família tradicional a configuração (Pai, Mãe) era uma verdade para os avós, os pais, os filhos e os netos. Dado o conjunto familiar não tradicional a configuração familiar muda completamente de figura cabendo inclusive o “nada”: ( Pai, Mãe), ( Pai), ( Mãe), ( Sem Família).

Partindo-se do pressuposto da interação voluntária ou involuntária; consciente ou inconsciente, dos campos sociais, seria o mesmo que se perscrutar o futuro de uma sociedade onde a produção poderia ser efetivada a partir do (Capital, Trabalho), (Capital), (Trabalho), (Especulação pela Especulação), sendo a especulação, representativa da condição (sem trabalho e sem capital). Sem o trabalho, apenas de capital, tenderíamos para a sociedade sem a troca comercial, sem meios de estabelecer os preços das mercadorias desprovidas de valor. Sem o capital, a história retorna à sociedade pré-renascentista. Sem qualquer compromisso com a ciência. O elemento abandonado não se conta.

E a especulação pela especulação, das quatro condições, talvez seja a pior porque acaba por destruir as bases do capital e do trabalho.

O ponto de partida ou os fragmentos para uma teoria do capital financeiro na era biotecnológica se resume a indagar a nós mesmos em que mundo se quer viver: o da previsibilidade relativa ou da incerteza absoluta. Não se pretende “bolar” uma teoria desta bancada de serviço. No máximo, se acaso daqui sair um texto paralelo à cientificidade, o bom senso, já está “de bom tamanho”. É que o preparo filosófico para representatividade do real dispensa o contacto com o mundo prático como se fora uma lente capaz de filmar o concreto na escuridão.

De longe, não se dispõe mesmo deste preparo. O que nos faz recorrer a exemplos. A incerteza absoluta equivale, por exemplo, a não se saber o dia certo em que se recebe o salário. A data em que se apura o juro composto do contrato de aplicação ou mês em que se receberá resultado da venda. Se o sinal de trânsito funciona ou não. Se ao apertar o interruptor a luz irá ou não acender. As mulheres não sabem se têm filhos ou se vão ao trabalho. Se os têm, se os reconhecem oficialmente no cartório civil ou não (No Brasil em 2004, 15% das mães registraram filhos com um ou mais anos de nascidos). Se os registram não sabem onde aconchegá-los durante as suas ausências dos lares.

Segundo o artigo no Jornal de Brasília de 15.3.2008, “Creche: uma questão de política social” por Clemilton Saraiva, “a Ceilândia, cidade satélite do DF, tem uma demanda reprimida de pelo menos 10 mil vagas por creches públicas ou particulares”. De outro lado o político atencioso para com o social faz leis visando dar solução ao problema, a ser financiada por impostos, mas não têm certeza se serão aplicadas. É que na base dessas sobra outro charco de dúvidas relativas ao tamanho da carga tributária nacional. O que os leva mais cedo ou mais tarde à viela contemporânea formada pelos preços, moeda e o emprego. E assim se vão as esperanças da demografia e da produção. Numa crise econômica ou numa guerra as hipóteses de relações humanas, sociais e econômicas extremadas são passíveis de verificação. Não são esses casos-exceção que estão em julgamento.

Desnecessário se dizer que o que se tentou fazer aqui foram conjecturas sobre um provável estado permanente da sociedade. Da economia.

(*) Economista, escritor e colunista do COFECON.

Fonte: www.cofecon.org.br