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Morte por apedrejamento, a proibição da Burqah e Imperialismo Moral

15.07.2010
 
Morte por apedrejamento, a proibição da Burqah e Imperialismo Moral

Estes são tempos difíceis porque as pessoas escolhem torná-los difíceis. Poderiam ser simplesmente, os tempos do senso comum, se a mídia escolhesse falar e explicar ao invés de disseminar a hipérbole. Só porque uma mulher usa uma burqah não significa que ela vai explodir-se em um trem metropolitano. A morte por apedrejamento será uma prática selvagem e bárbara ou deverá ser relegada para o reino dos costumes e das tradições locais? São questões a abordar objetivamente, não são temas para originar um discurso do tipo “Meu Deus é melhor que o seu”.


Estamos enfrentando tempos difíceis. Temos um movimento insurgente islâmico chamado Al-Qaeda, temos guerras no Afeganistão e no Iraque, temos uma situação de confronto crescente com a República Islâmica do Irã, temos um confronto de valores no coração da Europa, onde em dois países a burqah (cobertura do corpo inteiro da mulher islâmica), foi banida.


Se nós queremos vender cópias de jornais e revistas (e ganhar uma fortuna através da colocação de publicidade), podemos exacerbar os problemas potenciais e criar nos leitores um frenesi. Alguns chamam isso informação, outros desinformação. Podemos afirmar que a Al Qaeda é uma perigosa organização internacional capaz de realizar ataques horrendos, como o de 9/11, entre outros. Podemos também afirmar que os ataques de 9/11 foram o resultado de uma total falta de cooperação entre as agências de inteligência nos E.U.A., para dizer o mínimo, e que a Al Qaeda hoje consiste-se basicamente em pouco mais do que uma mão-cheia de diminuídos mentais, que, tendo sofrido uma lavagem cerebral total, pretendem incendiar as calças em locais públicos.


Ou podemos escolher uma descrição entre os dois extremos, ou seja, uma organização com recursos poderosos que visa fanáticos, transformando-os em assassinos em nome de uma causa quixotesca inexistente, a que nunca o Islão ou o Corão, alguma vez referiram.
Se nós queremos vender cópia, podemos afirmar que toda mulher que usa o burqah é uma potencial assassina, podemos afirmar que "eles" são maus e que "eles" querem impor a sua forma de vida sobre outras culturas, em cujo geo- espaço político agora residem. Sendo assim, voltamos a ter um cenário de "nós" e "eles".


Isso é muito conveniente no mundo de futebol, para aqueles que desejam vender vuvuzelas ou camisas. No jornalismo, este tipo de abordagem simplista serve os interesses daqueles que desejam fazer um dinheirinho rápido ou obedecer aqueles organismos cinzentos atrás da imprensa controlada. Na política internacional, é útil para uma miríade de organismos, governamentais ou não, que ganham a vida através da perpetuação do conflito e o medo.


Mas não faz sentido afirmar que toda mulher que usa uma burqah é um travestido terrorista com um pacote de açúcar e herbicida nas costas e barba na cara berrando Allahu Akhbar antes de se rebentar. Então, quem tem o direito de legislar sobre a forma como as pessoas se vestem, e quem tem o direito de interferir com a sua liberdade de se exprimir visualmente como querem? E suponhamos que um homem ocidental quiser vestir-se de burqah ... porque ele queria? Ou um vestido de casamento? É ilegal? E as mulheres podem usar o véu? E o burnusin, usado por homens e mulheres no Magrebe?


E a cruz? Posso vestir-se como um sacerdote e usar uma cruz em público? E uma mulher pode vestir o hijab? Se sim, por quê ela não pode usar o chador ou burqah? Podem as noivas casar de véu?


E quanto à morte por lapidação? O mundo saiu em favor da mulher iraniana Sakineh, condenada à morte por apedrejamento na República Islâmica do Irão, porque ela havia cometido adultério. E ela foi salva. Mas onde está o "mundo", no caso das 92 milhões de raparigas em África que têm de viver com os efeitos da mutilação genital feminina?


Onde está o "mundo" nos casos de tortura a bordo de aeronaves e navios e no campo de concentração de Guantánamo? Os agentes que representam os EUA podem mutilar e sodomizar e cortar prisioneiros sem julgamento e uma mulher não pode usar o seu traje tradicional? Israel pode arrasar casas palestinas e pode ter mísseis nucleares, mas ... e por aí fora.


Eu não como gafanhotos, cobras ou aranhas. Mas aqueles que o fizerem, classifico-os de selvagens? Eu não concordo com a pena de morte sob qualquer forma, se é por apedrejamento ou por injecção letal ou por enforcamento. Uma forma é mais civilizada do que as outras?


Portanto, apesar da infinidade de tratados e declarações de direitos humanos, por que não assinamos, em conjunto, uma Declaração Universal dos Direitos Humanos fundamentais, que inclui o direito fundamental a uma educação igualitária, a igualdade de oportunidades à nascença, e à inviolabilidade da pessoa? Isso inclui uma proibição de qualquer prática onde o poder é exercido sobre a integridade da pessoa humana por parte de outros.


A questão é com que direito os Europeus e norte-americanos fazem cruzadas morais impondo a sua vontade sobre meio mundo, massacrando povos inteiros, traçando linhas em mapas e depois impondo a sua vontade e cultura e costumes sobre outros? Eles respeitaram os costumes, tradições e normas locais no tempo do Imperialismo e escravatura? Não, porque a sua total ignorância os levou para arrogância.

E se uma mulher quiser usar uma burqah porque quer, porque se sente orgulhosa, porque não pretende mostrar-se aos outros homens porque respeita e ama seu marido?

É que, quando reina a arrogância, está tudo perdido.


Timothy BANCROFT-HINCHEY
PRAVDA.Ru




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