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Terrorismo e diálogo

01.07.2007
 
Terrorismo e diálogo

Terrorismo e diálogo

Com o estado de caos no Estado de Iraque e os ataques terroristas renovados no Reino Unido, fica evidente que a batalha entre civilizações (que todos tentavam não referir) já começou, ajudado e fomentado pela falta de visão do clique neoconservador em Washington. São horas para diálogo antes que seja tarde demais.

Há quase 60 anos, os Palestinianos foram retirados das suas terras e lares, depois das potências ocidentais mais uma vez traçarem linhas em mapas e formarem fronteiras em terras alheias. Há 30 anos, a comunidade muçulmana em Bradford e Leeds no Reino Unido já despertava as atenções por não estar integrada na sociedade britânica.

Em nenhum dos casos tem havido progresso significativo. Ao contrário, devido à ausência de progresso, as posições se radicalizaram entre aqueles que não têm nada a perder e tudo a ganhar, através do último recurso – o terrorismo. A globalização do terrorismo é um fenómeno chamado Al-Qaeda.

O terrorismo é o resultado de um processo falhado de diálogo, em que as posições descendem no ódio que cria o desejo de matar e ferir o maior número de vítimas. O terrorismo também é um negócio que engendra o tráfico de armas, redes de protecção e um jogo que envolve pelo menos dois jogadores. Para dançar o tango, é preciso um casal. Para ter um “nós”, é preciso um “eles”.

Nunca se pode dar razão aos terroristas, seja de que maneira se manifestem, seja uma criança ocidental desventrada por estilhaços de vidro num shopping ou num aeroporto, seja uma criança iraquiana que perde os membros por causa de uma bomba lançada por um piloto norte-americano. É por esta razão que o acto ilegal de chacina no Iraque estava tão fundamentalmente errado, porque deu causa a aqueles que iriam retribuir em espécie, tão previsivelmente.

Hoje, o Reino Unido encara a mesma ameaça que encarava há décadas, quando terroristas da IRA, fundados pela NORAID, baseado nos EUA e forte em Nova Iorque, assassinaram pessoas indiscriminadamente. Encarado com uma guerra prolongada entre dois mundos, uma batalha entre as civilizações em que entra a mais profunda das bandeiras – a religião – o Reino Unido enfrenta um futuro complicado.

Al Qaeda não vai simplesmente deixar de existir. Irá persistir porque tem todos os requisitos para fomentar uma campanha terrorista: uma causa (justiça para o Islão em geral e os palestinianos em especial) e uma fonte inesgotável de novas recrutas. No Iraque, atentados perpetrados pelos Sunitas e insurgentes Al Qaeda são mortíferos e altamente profissionais. No Reino Unido, são amadores e quase sempre falham. Hoje. Amanhã terão sucesso e o povo britânico lembrar-se-á do dia em que seu Primeiro-ministro os levou numa viagem ao inferno ao lado do regime neoconservador de Washington, controlado pelos lobbys das armas e de energia.

Contudo, isso não é para celebrar, mas sim, cria razões para preocupação e tentar encontrar soluções, já que os governos que embarcaram nesta cruzada assassina perderam qualquer esperança de se extraírem no próximo futuro.

Em primeiro lugar, todas as principais religiões realçam a importância de preservar a vida e a necessidade de respeitar a integridade humana. Por isso qualquer referência à religião no meio deste conflito é errada por ser um absurdo. A verdade é que enquanto não haja uma solução definitiva de paz no Médio Oriente, em que Israel deixa todas as pretensões sobre terras que nunca lhe pertenceram e todos os membros da comunidade internacional reconhecem o seu direito de existir dentro das fronteiras estabelecidas pela ONU, Al Qaeda terá sempre causa para alimentar as chamas do ódio.

O incêndio foi alastrado pela aventura pessimamente planejada de Washington no Iraque e as chamas foram alimentadas pelos actos de tortura, estupro, assassínio, o campo de concentração em Guantanamo e actos de terrorismo de estado no Iraque e Afeganistão.

Por isso chega a hora para diálogo, debate e discussão, a formação de grupos de discussão para estudar as causas subjacentes do fenómeno que colocou duas civilizações em confronto num jogo em que só haverá perdedores. O unilateralismo e a arrogância de Washington pioraram a situação. Só através de uma abordagem multilateral, baseada no estado de direito e envolvendo todos os jogadores num processo de diálogo, pode-se pensar em fazer qualquer progresso.

Falar acerca de ganhar corações e mentes depois das tácticas de choque e pavor no Iraque, quando crianças ficaram tetraplégicas, quando mulheres e bebés foram projectadas através das janelas dos seus lares, quando as caras de rapazes e moças foram rebentadas por bombas de fragmentação, colocadas em zonas residenciais, é insultar a inteligência colectiva da Humanidade.

Falar acerca do reconhecimento e respeito mútuo e um empenho honesto no diálogo, para construir pontes entre os mundos do Islão e não-Islão, faz todo o sentido neste momento delicado na nossa história. Senão, que futuro teremos construído para os nossos filhos e netos?

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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