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O recente avanço do pensamento de direita e seus condicionantes

02.10.2018
 
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O recente avanço do pensamento de direita e seus condicionantes

Vários analistas entendem que estamos a nos defrontar com um avanço global das forças e/ou posturas de extrema direita, tal expansão teria, pois, um caráter amplo abarcando nossos mais destacados continentes.

Iraci del Nero da Costa *

Vários analistas entendem que estamos a nos defrontar com um avanço global das forças e/ou posturas de extrema direita, tal expansão teria, pois, um caráter amplo abarcando nossos mais destacados continentes. Tal verificação parece-nos incontestável, não obstante, entendemos que suas causas são variadas não obedecendo um conjunto único de determinações. Neste texto pretendemos explicitar nossas opiniões sobre essas referidas motivações: da mais abrangente às que podem ser consideradas específicas de distintas áreas planetárias.

O caráter mais genérico e afastado de ocorrências localizadas pode ser atribuído, a nosso juízo, a dois elementos básicos. Por um lado temos a superação do dito socialismo real, sua supressão teria enfraquecido de modo o mais profundo possível o pensamento e as propostas de esquerda, já as poucas ditaduras que continuam a adotá-lo (como Cuba, Venezuela e Coreia do Norte) são mundialmente execradas; por outro lado deparamo-nos com o pragmatismo adotado pelos dirigentes da China, ali abandonou-se a ideia do comunismo e, com base numa governança dirigida pela força ditatorial, adotaram-se, sem rebuços, as práticas econômicas do capitalismo visando-se tanto o desenvolvimento interno como o domínio do comércio e dos investimentos internacionais.

Como avançado, tanto a experiência vivida pela antiga União Soviética como pela China de nossos dias colocam em xeque as ideias de esquerda. No entanto, tais ocorrências não são bastantes para promover o avanço observado pelo pensamento direitista, a fim de compreendê-lo é necessário contemplar os diversos casos particulares, vejamo-los, pois.

 Na Europa, a entrada massiva de imigrantes dos mais diversos rincões estimulou largamente a xenofobia e atuou decisivamente para impulsionar os movimentos de direita avivando até mesmo o neonazismo. A própria instituição da União Europeia levou parcelas substantivas de habitantes de diversas nações a repelir muitas de suas resoluções fato este que tem contribuído  para levantar o ânimo de forças nacionalistas contrárias a ações determinadas por tal organismo supranacional. 

Inteiramente diferente é a situação vivenciada pelos norte-americanos que apoiam as decisões populistas de um presidente direitista e protecionista como o é Donald Trump. Lançou-se candidato e tem adotado medidas que se destinam, basicamente, a promover um Estados Unidos ensimesmado visando a proteger o emprego interno e a economia norte-americana. Voltou-se contra a Europa e definiu como seus inimigos maiores a Coreia do Norte, por seus mísseis, e a China por sua ação econômica dentro e fora dos EUA. A imigração, que roubaria empregos dos estadunidenses, também o preocupa muitíssimo e Trump não só se voltou contra os imigrantes em geral, mas também privilegia os mexicanos em sua luta contra os estrangeiros; a construção de um muro que percorra a fronteira dos EUA com o México é uma demonstração circense de tal posicionamento. Destarte, afora as agruras pretendidas contra os imigrantes, Donald Trump obedece um receituário absolutamente diferente daquele perseguido pelos europeus.

Tomemos como último exemplo o caso brasileiro. Como sabido houve um largo avanço da extrema direita com respeito às eleições que se aproximam. O candidato privilegiado foi Jair Bolsonaro, militar da reserva e deputado federal intimamente comprometido com a maneira de ser neofascista. Tal fenômeno, a nosso ver, deveu-se, essencialmente, à traição efetuada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) aos ideais de esquerda pois, a partir do primeiro governo do presidente Luiz Inácio da Silva, o PT desviou-se radicalmente das postulações assumidas quando de sua fundação. Vale dizer, tão logo chegou ao poder central da Nação o PT abandonou suas pretensões iniciais de esquerda e curvou-se inteiramente à depravação aplicando golpes contra os interesses nacionais, depredando as empresas públicas, aparelhando o governo e entregando-se à corrupção, ao roubo e às alianças espúrias com os representantes maiores da velha oligarquia coronelística e patrimonialista. Tal fato revelou-se altamente perverso pois corrompeu perante o eleitorado brasileiro a postura que se deveria esperar de uma esquerda sadia e realmente defensora dos interesses populares; assim, o pensamento conservador foi imensamente beneficiado criando-se no seio da população um verdadeiro desprezo para com a esquerda e levando uma parcela expressiva dos eleitores a apoiar o candidato que se apresentou como representante da extrema direita.   

 

* Professor Universitário aposentado.

 


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