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Camilo: uma vida sem segredo

29.12.2008
 
Pages: 12

Mas não se pense que Quiques fosse desconhecido de Camilo. Teriam sido amigos do peito e de farras, a tal ponto que o escritor dedicou a ele o romance Vingança, publicado em abril de 1858. Em favor de Ana Plácido, acrescente-se o ódio que ela sempre sentira pelo primeiro marido, o que está claro numa correspondência que deixou: “Sete anos resisti ao cancro devorador da sociedade, sete anos me conservei presa dum desejo mesmo de transgredir a lei de Deus, que me dava para marido o último dos homens que eu aceitaria de bom grado (...)”.

Com base nessa confissão por escrito, obviamente, os biógrafos concluíram que Ana Plácido rendeu-se à transgressão em 1857, ano da concepção de Manuel Plácido. E, por extensão, chegaram à conclusão que o pai seria Camilo. Acontece, porém, diz o biógrafo, que Camilo nunca afirmou que Manuel Plácido era seu filho. E acrescenta: “Nunca pude aceitar que o caráter de Camilo lhe permitisse recusar a paternidade de um filho”.

Autor de vários e fundamentados estudos sobre Camilo, Tavares Teles diz que as idéias que defende “foram familiares a gerações de leitores e são inéditas apenas pela comezinha razão de estes não escreverem, permanecendo os frutos das suas intuições ignorados e conservando a virtualidade de serem novamente intuídos por outros leitores, que continuaram a ler textos que mantiveram, década após década, os seus mistérios, que afinal não o seriam, pois apenas por facilidade de redação assim se poderiam qualificar”.

Outro episódio que Tavares Teles procura esclarecer é a respeito do baile em que Camilo conheceu Ana Plácido, garantindo que isso se deu a 13/2/1849, num dia de Carnaval, em casa particular pertencente a uma amiga da mãe dela. Tinha ele 24 anos e ela 17. Não se falaram, mas Camilo registrou a passagem numa crônica de jornal. Só quase uma década mais tarde é que Ana Plácido viria a se tornar o grande amor de sua vida.

III

Formada por cinco ensaios biográficos, esta obra procura contribuir para o esclarecimento de outros episódios da vida do romancista que, por diversas razões, mantiveram-se no limbo ou foram mal interpretados. Entre essas razões, estiveram pressões de ordem social, inclusive pela alta burguesia do Porto da época. Por isso, as revelações contidas neste livro tratam de mostrar até onde foi possível esconder uma verdade, ou “várias” verdades, que envolveram figuras de projeção nacional e o meio culto da época.

Na introdução que escreveu para este livro, Tavares Teles reconhece que, em razão do número de obras que descrevem e comentam a vida de Camilo e que foram publicadas nos últimos 115 anos, seria difícil que, neste começo de século XXI, ainda houvesse oportunidade para alguma descoberta factual, por insignificante que fosse. Mas não é assim que se dão as coisas porque, afinal, não é o número excessivo de textos impressos que consagra uma verdade, embora o nazista Joseph Goebells (1897-1945) soubesse muito bem por que dizia que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

E são igualmente muitos os biógrafos, historiadores e jornalistas que continuam a ganhar dinheiro com a produção de livros rasteiros e apressados em que se limitam a repetir o que lêem em obras impressas, sem se dar ao trabalho de enfrentar o pó dos arquivos em busca de fontes originais. Ou seja, se um autor cometeu um equívoco no século XIX, por esse método continuaremos a ler (e aceitar) o mesmo erro no século XXI. Sem contar que, em todos os tempos, nunca faltaram os investigadores por palpite, dos quais o santo padroeiro sempre foi Teófilo Braga (1843-1924), como muito bem aponta Tavares Teles.

Basta ver que foi necessário que este articulista, também biógrafo, saísse do Brasil disposto a vasculhar os papéis do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e do Arquivo Distrital de Setúbal para “descobrir” que a verdadeira casa onde nasceu o poeta Manuel Maria de Barbosa Du Bocage (1765-1805) em Setúbal não fica à Rua de Edmond Bartissol, antiga Rua de São Domingos, como sempre se pensou, porém mais abaixo, no Largo de Santa Maria com a Rua António Joaquim Granjo, a antiga Rua das Canas Verdes. Portanto, quem se dedicar com afinco a revirar papéis em arquivos, fatalmente, encontrará reparos a fazer nas biografias anteriores.

Até porque as histórias de vida de nossos poetas (e grandes personagens da História) sempre andaram mal contadas. O diabo é que o chamado público-leitor, por má formação educacional, está sempre disposto a comprar o livro de fácil digestão, com poucas páginas, sem muitas notas de rodapé, repleto de historietas engraçadas, mas sem comprovação documental, quando deveria começar pelo final para saber exatamente quais arquivos o autor freqüentou. E assim continua a comer gato por lebre, como provam as listas dos livros mais vendidos em 2008.

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CAMILO E ANA PLÁCIDO: EPISÓDIOS IGNORADOS DA CÉLEBRE PAIXÃO ROMÂNTICA |, de Manuel Tavares Teles. Porto: Edições Caixotim, 280 págs., 2008, 18 euros.

E- mail: edicoescaixotim@mail.telepac.pt Site: www.caixotim.pt

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa: Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa: Editorial Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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