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Invenção do desenho: do público e do privado

26.09.2007
 
Pages: 12
Invenção do desenho: do público e do privado

Adelto Gonçalves

I

Foi o nova-iorquino filho de lituanos Karl Beckson (New York, A Reader´s Guide to Literaty Terms, The Noonday Press, 1960, p. 119) um dos primeiros críticos a dizer, com acerto, que as memórias, como gênero literário, têm como objetivo inserir o indivíduo em seu coletivo.

Entre nós, Massaud Moisés (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, Cultrix, 12ª ed., 2004, pp. 279-280) observou que as memórias distinguem-se por constituir um relato na primeira pessoa do singular que visa à reconstrução do passado, com base nas ocorrências e nos sentimentos gravados no cérebro de quem as registra.

Distorcido pela memória, diz Massaud, o passado transfigura-se como se parecesse inventado, uma vez que o intuito reside menos no pacto autobiográfico estrito do que na reconstituição das lembranças que restaram do fluxo e refluxo dos dias. Como Proust Em busca do tempo perdido, diz, o autor, “ao rememorar os dias vividos, sabe que a sua visão é subjetiva, por vezes idiossincrática, mesmo quando trata das outras pessoas com quem lhe foi dado conviver”.

É o que faz Alberto da Costa e Silva (1931) em Invenção do desenho: ficções da memória, ao reconstruir fragmentos de uma vida e uma época, demonstrando a importância do contexto histórico na formação da subjetividade. Trata-se de um relato em que o autor rememora, reinterpreta e mesmo exorciza alguns fantasmas da história recente de Brasil e Portugal, trazendo-nos de volta como gente de carne e osso figuras que já fazem parte da História canonizada destes países no século XX. Ao mesmo tempo, estabelece uma íntima conexão entre subjetividade e História, ao partilhar histórias cotidianas de toda uma geração, ou seja, daqueles que neste século começam a se aproximar das oito décadas de existência. Nada mais justificável, portanto, o subtítulo que deu ao livro: ficções da memória.

A exemplo do que já fizera em Espelho do príncipe (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994), memórias da infância, Costa e Silva dramatiza em Invenção do desenho a inter-relação entre o público e o privado, dando continuidade a suas lembranças pessoais do período que vai de sua adolescência até os 30 anos de idade, ou seja, do afastamento imposto pelos militares ao ditador Getúlio Vargas em 1945 como condição sine qua non para a redemocratização do País até a inesperada renúncia de Jânio Quadros à presidência da República em 1961.

II

Não é à toa que uma dessas lembranças situa-se por volta de 1946, quando o rapaz de 15 anos, que vivia no Rio de Janeiro, filho do poeta Da Costa e Silva (1885-1950), a caminho do consultório de seu irmão Mário, viu descer de um bonde um senhor parecidíssimo com o presidente Dutra. Era mesmo o presidente, que vinha acompanhado por seu secretário, sem a companhia de um só agente de segurança. Viera do Palácio do Catete rumo ao Centro do Rio de Janeiro, atravessando a Avenida Rio Branco em direção a um barbeiro que havia na rua de Santa Luzia, sem que ninguém dele se aproximasse, ainda que com discreto aceno de cabeça respondesse a um e a outro cumprimento.

A recordação breve fica ali a título de não só mostrar que esse era um outro tempo, em que presidentes da República podiam circular pelas ruas como qualquer mortal, mas também para registrar a memória coletiva dos anos pós-guerra em que o Brasil viveu uma larga experiência democrática que viria a ser brutalmente interrompida em 1964 por um golpe militar. E serve ainda para resgatar a memória literária daqueles anos 40, tempo de revistas literárias a que o grupo de amigos que Costa e Silva freqüentava não se mostrou infenso, lançando também a sua publicação.

Data dessa época a amizade de Costa e Silva por Antônio Carlos Villaça (1928-2005), seu colega de ginásio que, àquele tempo, já havia traçado para si um futuro recluso de monge beneditino e de outras ordens religiosas, o que, se lhe pouparia de viver as experiências ditas normais de todo jovem, dar-lhe-ia todo o tempo de que necessitava para entender a santidade e construir uma obra literária que inclui ao menos uma obra-prima, O nariz do morto, o que não é pouco.

III

De sua juventude, recorda-se Costa e Silva do Congresso Internacional de Escritores, realizado em 1954 dentro das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo e de vários de seus participantes, como Miguel Torga, com seu estilo “carrancudo e quase intratável”, um montanhês perdido na urbe, ou o norte-americano William Faulkner, que ficou quase todo o tempo no hotel, entre o bar e o quarto, e só compareceu a uma sessão plenária de poesia, ou do professor M.Rodrigues Lapa, que fascinou a platéia ao falar sobre as origens da poesia lírica medieval portuguesa.

Por essa época, o jovem Alberto da Costa e Silva começou a se preparar com o objetivo de enfrentar os exames para Instituo Rio Branco, pensando na carreira diplomática que haveria de seguir por quase meio século. A partir daí, suas memórias, em meio a algumas lembranças estritamente pessoais, como o seu casamento com Vera de Campos Queiroz e o nascimento de seus filhos, concentram-se nos primeiros tempos desse novo ofício atuando na divisão comercial do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores. Logo então, encantou-se com a história da África, a partir da leitura de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, até tornar-se o africanólogo respeitado dos dias de hoje, sempre convidado a participar de toda coletânea de ensaios que se prepara sobre as relações entre Brasil e África.

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