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Lêdo Ivo, poeta e ensaísta

26.05.2010
 
Pages: 123
Lêdo Ivo, poeta e ensaísta

Adelto Gonçalves (*)

I

Grandes poetas, geralmente, resultam em grandes ensaístas. Talvez pela necessidade que têm de sistematizar em ideias aquilo que, muitas vezes, é atribuído apenas à inspiração, embora se saiba que os chamados poetastros só conseguem escrever versos de pés quebrados. Afinal, não dá para imaginar um poeta inspirado que não conheça a fundo o seu ofício, isto é, que não seja um grande teórico, o que significa horas de leitura e conhecimento.

Só de uma enfiada pode-se lembrar aqui de alguns poetas que cumpriram com rigor esse duplo papel: T.S.Eliot (1888-1965), Charles Baudelaire (1821-1867) e Octavio Paz (1914-1998), entre os de outras línguas; Fernando Pessoa (1888-1935) e José Régio (1901-1969), entre os portugueses; e Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Paulo Leminski (1944-1989), entre os brasileiros.

Entre os brasileiros vivos, há pelos menos três que são tributários dessa estirpe e cumprem esse papel anfíbio: Alberto da Costa e Silva, Ivan Junqueira e Lêdo Ivo, todos membros da Academia Brasileira de Letras. Haveria outros, ainda que não acadêmicos que não fogem dessa linhagem, como Mário Chamie, Cláudio Willer, Moacir Amâncio e Álvaro Alves de Faria – só para ficar com paulistas –, mas é de Lêdo Ivo que se quer aqui falar a propósito de seu O Ajudante de Mentiroso, reunião de 24 textos ensaísticos curtos produzidos em épocas distintas e a respeito de temas diversos, incluindo participações em solenidades acadêmicas e fóruns universitários.

Em Lêvo Ivo, como em Junqueira, é nítida a influência do ensaísmo anglo-saxônico, especialmente de Eliot, para quem o ofício não exigia uma postura rígida nem solene, mas um estilo coloquial, exatamente aquilo que o ensaísta alagoano constata em José Lins do Rego (1901-1957) que, se não foi poeta, mas romancista, ao reunir impressões de um passeio a Europa na década de 1950, escrevia “à maneira de um Montaigne (1533-1592) ou um Stendhal (1783-1842) – como se a viagem fosse uma conversação”.

Como muito bem observou Eugénio Lisboa em recensão deste livro publicada no Jornal de Letras, de Lisboa, de 23/3/2010, a referência ao francês Montaigne não é fortuita nem invalida a observação inicial que consta do parágrafo acima. Pelo contrário. “Esta alusão ao mestre francês não deixa de ter significado incisivo, porquanto foi ele o pai do ensaio de Bacon (1561-1626) e de todo o grande ensaísmo anglo-saxônico, caracterizado por uma conversa altamente civilizada, mas informal”, diz Lisboa.

É o que, em outras palavras, afirma Lêdo Ivo ao observar, em relação a José Lins do Rego, que “a grande lição do ensaio ocidental é o da literatura em língua inglesa, com os seus ensaístas informais, que escrevem sobre ruas tortas, cemitérios, cidades, viagens, cenas cotidianas, sonhos. E esse tipo de ensaio praticado pelos ingleses, se por um lado se distancia inapelavelmente do eruditismo predatório que grassa entre nós, por outro se aproxima da nossa crônica de jornal”.

Para Lêdo Ivo, um bom ensaísta é um cronista culto, que sabe escrever. “E uma apostila não é um ensaio”, acrescenta, de modo peremptório. De fato, ao contrário do que imaginam certos ensaístas saídos de cursos de doutorado de nossas principais instituições, escrever bem não é escolher palavras desusadas nem construir parágrafos herméticos e quilométricos que levam o leitor a interromper a leitura para voltar ao princípio da frase que já esqueceu por tédio ou fastio e reencontrar o fio do pensamento.

II

Se a observação serve para definir o ensaísmo de José Lins do Rego, cai à medida também para explicar o que Lêdo Ivo entende por ensaio. Pois é com essa “prosa lépida e nervosa” que identifica no romancista paraibano que ele, no ensaio “Os modernismos do século XX”, investe contra certa postura de professores da Universidade de São Paulo (USP) de outros tempos que, por regionalismo ou sabe-se lá por que, transformaram a Semana de Arte Moderna de 1922 no acontecimento mais importante da vida cultural brasileira no século passado. E que professores mais moços, talvez por desídia ou excessiva reverência a nomes consagrados, preferem não revisar.

Segundo Lêdo Ivo, há mais de meio século, a USP, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, e outros órgãos pedagógicos, culturais, editoriais e jornalísticos procedem a uma verdadeira lavagem cultural em dezenas ou centenas de milhares de jovens estudantes. “Professores e pesquisadores, guiados e monitorados por mestres influentes erigidos à cômoda condição de monstros sagrados (ou monstros leigos, inaposentáveis), recebem e propalam sempre a mesma lição: a da dimensão providencial da Semana de Arte Moderna de 1922 e do papel seminal que teria exercido o Modernismo paulista na elaboração da vida cultural do Brasil no século XX”, diz, ressaltando que “inumeráveis teses de mestrado – e que são, na realidade, dóceis ou bisonhos atestados de amestramento – repetem exaustivamente o tema, já convertido numa cláusula pétrea da literatura nacional”.

III

É com razão que Lêdo Ivo se levanta contra essa “verdade” consagrada em compêndios universitários idealizada por quem imagina que os acontecimentos seguem uma seqüência natural, pois, de fato, nada há que sustente que o romance do Nordeste da década de 1930 tem de estar obrigatoriamente atrelado ao Modernismo paulista ou que Geração de 45 seja tributária do movimento de 1922.

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