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Subservência colonial

26.04.2011
 

Não é por acaso que já ganhamos a pecha de "americanófilos" ou "país dos macacos", pelo viés da imitação e uso abusivo de vocábulos na língua inglesa. Se existe o pendor de imitar, porque não seguir o dignificante exemplo da França, que de há muito baniu esse rançoso vêzo, orgulhosa do seu acendrado patriotismo?

Uma rápida leitura diária nos jornais da RBS já nos vai causar perplexidade pela reiterada prática desse simiesco servilismo. Com raras exceções,páginas inteiras são aquinhoadas a medíocres redatores atrelados a esse deplorável mister, com atentatória afronta à "última flor do Lácio". Esses arautos do arremêdo têm orgasmos mentais e se babujam em lisonjas ao descrever e bajular a frívola escória dos colunáveis.

Desmancham-se eles em panegíricos laudatórios, a se desdobrar no enaltecimento dos empavonados "socialites". É o funambulesco elogio das vaidades, templário do vazio existencial. Tudo num vocabulário simplório, com terminologia espúria e entremeada de palavrórios anglicistas, que mal conhecem, a denotar falta de personalidade e parco conhecimento do idioma pátrio.

É um tal de "lounge" pra cá, "home" pra lá, "love" não sei o que, "fashion", "night", "happy", "partner", "party", "garden", "link", "fitness", "gay", "vips", "Djs","hall", "music" e mais uma infinidade de excrecências verbais que nada têm a ver com o nosso vernáculo. E, o que é mais grave, sou cientificado agora da existência, no Estado catarinense, de uma faculdade da Unisul denominada "Business School" (pasmem!).

Ainda, para maior estupefação nossa, um dos maiores nosocômios gaúchos ostenta, na recepção aos enfermos, através de ridiculas placas, os seguintes dizeres informativos aos pacientes: "Check In" e logo adiante ""Check out"! Quer dizer, um cristão adoentado, nervos à flor da pele e premido pela urgência da baixa hospitalar, há de sucumbir ou pela doença ou pela vergonha de se defrontar com tamanho disparate...A corroborar essa estreiteza mental, que prolifera e abunda na vacuidade da pérfida e venal imprensa, concito o desavisado leitor para que faça um passeio pelo centro da cidade e de modo atento detenha o olhar, por mera curiosidade, nos anúncios e denominações dos edifícios e casas comerciais existentes.

É uma tristeza, só macaquices! Ao menos avisado, parecerá se encontrar lá pelas bandas das avenidas de New York... Prevalecimento seria traçar aqui um paralelo e fazer ligeira abordagem a respeito dos horrorosos filmes enlatados norte-americanos ou das gravações e ritmos que são diuturnamente detonados aos pobres ouvidos daqueles que ousam sintonizar quaisquer das nossas (?) rádio-emissoras ou TVs: só gritaria e música americana, para vergonha de todos nós. Nossos grandes cantores e instrumentistas relegados ao ostracismo.

Consabida verdade que há escusos interesses em jogo por detrás de tudo isso. A maioria absoluta das gravadoras é constituida de conglomerados e empresas multinacionais. De outra parte, as concessões de canais de rádio e televisões são feitas só aos apaniguados e compadrescos amigos do rei, convertendo-se ditos canais em meros difusores e guardiões dos escusos interesses dos poderosos. Ironicamente, frente a esse despropósito e manifesto atropelo à cidadania, seria talvez o caso do nosso (des)governo, agora, proclamar outra desconexa reforma idiomática para, desta vez, então, decretar o inglês como língua pátria! E dizer que o nosso português é tão belo!

Como antes já enfatizei no meu livro, nossos valores culturais estão de há muito postergados, soterrados pela camarilha composta pelos vendilhões do templo. A nação inteira se ajoelhou, dizia, dobrou a espinha, perdeu a auto-estima, culminando por depreciar o proprio idioma, cujo linguajar deveria fundamentar o primado da soberania nacional. Não obstante, e desgraçadamente, passou a papaguear estrangeirismos que nada têm a ver com as nossas raízes. Vale dizer, em última instância, que os princípios basilares da nação foram trocados por um prato de lentilhas, servido pelas referidas multinacionais, traficantes do poder.

Elas dirigem o espetáculo, marcam o ritmo e nos fazem dançar conforme a popularesca, alienígena e jocosa música que nos impingem, de acordo com os seus sórdidos interesses mercantis. Por derradeiro, revoltado com esse servilismo colonial, lanço um repto em forma de apelo à nossa brasilidade. Entrincheirados e fortalecidos pelo espírito de nacionalidade, não devemos baixar a crista, mas sim combater os apátridas e propugnar pela intransigente defesa das nossas sagradas tradições culturais. Isto aqui ainda é Brasil, graças a Deus! Vamos substituir o vermelho, o azul e o branco listrados do pijama, digo, do uniforme do "Tio Sam" pelo nosso reverberante pendão verde-amarelo, que é muito mais bonito!

 

Jayme Camargo Piva.


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