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Tributo a um intelectual brasileiro

25.08.2018
 
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Tributo a um intelectual brasileiro
 

Como estudante de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul nos primeiros anos da década de 1960, era um crítico, na medida em que meus conhecimentos permitiam, da maneira como os professores, quase todos extremamente conservadores, desenvolviam as disciplinas do curso. Basicamente, era quase que um mero registro dos fatos históricos, como já acontecia no grau médio do de ensino, acrescentado aqui ou ali de algum comentário de Gilberto Freyre ou de Capistrano de Abreu.

Embora a minha turma não fosse muito exigente na cobrança de novas fontes de informação, o quadro político que cercava a universidade naqueles anos era de grande efervescência e uma visão mais analítica dos fatos e não sua simples descrição começava ser cobrada por alguns alunos. Quase que como provocação aos professores, começávamos a lembrar os nomes da Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes como fontes a serem consultadas, além daqueles que tradicionalmente faziam parte das listas de referência.

Casualmente ou não, todos eles fazendo uma leitura - no caso da história do Brasil, com uma visão - em uns, mais e em outros, menos - impregnada da leitura de Marx. Entre 1961 - a Legalidade - e o golpe militar de 1964, o Brasil vivia um período de um extraordinário otimismo sobre o futuro do País, que parecia estar prestes a se tornar socialista. Bem, o tempo mostrou que não era disso que se tratava, mas, na época, estávamos convencidos que sim.

Foi nesse clima que conheci alguém que iria reconhecer sempre como o mais importante intelectual brasileiro, Jacob Gorender, numa série de conferências sobre o Humanismo Marxista, no antigo restaurante universitário da Rua da Azenha, ironicamente transformado em Escola da Polícia, depois do golpe de 64. Gorender não era ainda o consagrado escritor de 'Escravismo Colonial', de 1978, nem 'Combates nas Trevas', de 1987, mas já era visto como um dos mais importantes intelectuais marxistas brasileiros.

Gorender nasceu em Salvador, em 1923, filho de judeu ucraniano pobre. Estudou no Ginásio da Bahia e, a partir de 1941, na Faculdade de Direito, curso que abandonou para lutar como voluntário da FEB na Segunda Guerra, na Itália. Ao voltar ao Brasil, se ligou ao Partido Comunista, ocupando importantes postos no seu comitê central, até abandonar o partido em 1967, por divergir da sua linha reformista, para fundar o Partido Comunista Revolucionário.

Como marxista, Gorender se alinhou com as teses de Lenin num grande debate que sempre dividiu os comunistas, ao dizer que a classe operária é possuidora de uma 'ontologia reformista' e não 'revolucionária', ao criticar o determinismo histórico, ao afirmar a importância dos intelectuais para a formação da consciência revolucionária e ao defender a necessidade do Estado na sociedade socialista

Como historiador, Gorender não se limitou a analisar o Brasil apenas sob a ótica do marxismo, como fizeram outros historiadores importantes, mas de certa forma inovou nessa matéria ao criar, além das categorias tradicionais do escravismo, do feudalismo, do capitalismo e do socialismo, uma nova forma de sociedade, que chamou de 'escravismo colonial' e que ele definiu assim: "A mistura de trabalho escravo e capitalismo mercantil (dominante na metrópole) criou uma sociedade peculiar. Os mercadores coloniais constituíam uma burguesia mercantil integrada na ordem escravista e tão interessada na sua conservação quanto os plantadores. Boa parte desses mercadores, aliás, se dedicava ao tráfico de escravos da África para o Brasil colonial e Imperial".

Ao prefaciar a última edição do livro 'Escravismo Colonial', o historiador gaúcho Mário Maestri diz que "ao criar - conceitual e analiticamente - um novo modo de produção, o escravista colonial, Gorender não infringiu heresia ao materialismo histórico, mas, ao contrário, o reforçou enquanto metodologia aplicável para a análise de um sistema econômico que destoa dos que se desenharam na Europa analisada por Marx. O modo de produção escravista colonial era calcado em duas instituições que o determinavam enquanto modo de produção propriamente dito (os modos de produção são formados pelo conjunto das forças produtivas e pelo conjunto das relações de produção, na sua interação, num certo estágio de desenvolvimento. Simultaneamente designam as condições técnicas e sociais que constituem a estrutura de um processo historicamente determinado): a plantagem e a escravidão".

Como diz com precisão, o meu amigo, o professor Maestri, Gorender não se limitou a usar os conceitos do Marx, mas usou a metodologia marxista para analisar um sistema econômico diferente daquele na Europa que Marx analisou. Assim como ele, existe, hoje, no mundo, um grupo pensadores que se preocupa em recuperar a ideia do comunismo como solução para um sistema capitalista em crise estrutural, a partir dos ensinamentos de Marx adaptados à realidade atual. Entre eles, estão nomes com Istvan Meszaros, Pierre Broué, Jean Jacques Mari e, Slavoj Zizek, Jacques Rancierin e Alain Badiou.

Jacob Gorender não foi apenas um teórico. Quando a ditadura fechou todos os caminhos para um confronto democrático de ideias, ele se aliou à luta armada. No seu livro 'Combate nas Trevas', ele faz uma análise extremamente lúcida desse período. "Se quiser compreendê-la na perspectiva da sua história, a esquerda deve assumir a violência que praticou. O que em absoluto fundamenta a conclusão enganosa e vulgar de que houve violência de parte a parte e, uns pelos outros, as culpas se compensam. N enhum dos lados julga pelo mesmo critério as duas violências - a do opressor e a do oprimido. É perda de tempo discutir sobre a responsabilidade de quem atirou primeiro. A violência original é a do opressor, porque inexiste opressão sem violência cotidiana incessante. A ditadura militar deu forma extremada à violência do opressor. A violência do oprimido veio como resposta." 
Jacob Gorender morreu em 2013, em São Paulo, com 90 anos de idade. Em 1999, sua importância como um grande intelectual foi reconhecida com a entrega a ele do prêmio Juca Pato por ter sido considerado o Intelectual do Ano.
Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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