Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Uma edição fac-similar de ‘Os Lusíadas’

22.04.2008
 
Pages: 12
Uma edição fac-similar de ‘Os Lusíadas’

Adelto Gonçalves (*)

I

Foi Manuel de Faria e Sousa (1590-1649) quem, no século XVII, descobriu que havia duas edições de Os Lusíadas, de 1572, e que uma era imitação da outra. Essa constatação resultou numa polêmica que, passados quatro séculos, ainda está longe de esgotada. Tanto que Leodegário A. de Azevedo Filho (1927), professor emérito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente da Academia Brasileira de Filologia, considerado o maior camoniano da atualidade, acaba de publicar uma edição fac-similar do livro, acompanhada de um alentado estudo filológico sobre a obra de Luís de Camões (c.1524-1580), com prefácio de Arno Wehling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), e prefácio de Nicolás Extremera Tapia, professor catedrático da Universidade de Granada, Espanha.

A publicação é feita com base na edição princeps hoje de propriedade do IHGB, mas que pertenceu a D.Pedro II (1825-1891) e que, um dia, fez parte do acervo da biblioteca do Convento de São Bento da Saúde, em Lisboa. Seu proprietário ou custódio era frei João Batista de São Caetano, mas, depois, o exemplar passou a frei José de São Boaventura Cardoso que, ligado às hostes absolutistas que defendiam o trono para D.Miguel, passou ao Brasil em 1834, quando foram suspensas as ordens religiosas em Portugal.

Passando a viver no Desterro (hoje Florianópolis, Santa Catarina), o frade teve a iniciativa de enviar o exemplar a D.Pedro II, pouco antes de uma visita do monarca ao local em 1845. O volume permaneceu na biblioteca imperial até 1889, pois, quando do exílio, depois de apeado do poder pelo golpe militar que redundou na proclamação da República, o imperador o solicitou da Europa juntamente com um manuscrito de José Feliciano de Castilho e Noronha (1810-1879) que o acompanha e que seria publicado em 1925, dentro das comemorações do centenário do nascimento de D.Pedro II, como se lê na apresentação escrita por Arno Wheling, Depois, o exemplar passou à princesa Isabel (1846-1921), que o conservou até morrer. Quatro anos mais tarde, seu filho, o príncipe D.Pedro de Orleans e Bragança, faria a doação ao IHGB.

II

Diz o professor Leodegário que, segundo tradição vinda do século XVIII, o exemplar teria pertencido ao próprio Luís de Camões. Mas disso, acrescenta, não se tem certeza, embora nas páginas iniciais do livro haja, com letra do século XVI, a seguinte informação: “Luís de Camões seu dono”. Para o camonista responsável pelos oito volumes da Lírica de Camões, publicados desde 1985 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (IN-CM), de Lisboa, bem como por outros tantos livros sobre o vate, não há prova aceitável que justifique essa atribuição de propriedade.

Encarregado pelo IHGB de cuidar da edição fac-similar do livro, o professor Leodegário pôs-se a comparar o exemplar em causa, que pertence à chamada edição Ee, com o da edição fac-similada publicada pela IN-CM em 1982, da chamada Edição E. Ficou perplexo com a imensa quantidade de variantes textuais encontradas nesta edição em confronto com o exemplar do IHGB. Observe-se, desde logo, que na capa do exemplar em causa, claramente, vê-se o desenho de um pelicano com a cabeça voltada para a esquerda do leitor, ao contrário do que se vê na outra.

Leodegário lembra ainda que o tempo destruiu as páginas correspondentes a onze estâncias iniciais do primeiro Canto de Os Lusíadas. Tais estâncias aparecem copiadas à mão, mas a partir de um exemplar da edição E (e não da edição Ee). Além disso, todas as cópias manuscritas apresentam variantes da Edição E, em face da Edição Ee.

III

Em breve visão histórica, o professor lembra que, para Faria e Sousa, a edição original, isto é, a primeira, publicada em 1572, seria a posteriormente chamada Edição E. Assim, a chamada Edição Ee seria a segunda tiragem feita de forma mais cuidadosa em face do manuscrito camoniano, que se perdeu. Opondo-se a tal interpretação, o professor Nicolás Extremera Tapia, observa Leodegário, com base na teoria da ultracorreção ou hipercorreção, passou a defender o ponto de vista de que a verdadeira editio princeps seria a que tem, na portada do volume, a cabeça de um pelicano virada para a esquerda do leitor.

Leodegário lembra ainda a posição do professor Vítor de Aguiar e Silva (1939), da Universidade do Minho, segundo a qual, no século XIX, é que se foi impondo a tese de que a primeira edição impressa em vida de Camões, em 1572, certamente revista por ele, era a Edição Ee, com a cabeça do pelicano virada para a esquerda do leitor, devendo a outra ser uma edição espúria e apócrifa. A tese de que a autêntica editio princeps é a que tem o colo do pelicano, na xilogravura da portada do volume, voltado para a esquerda do leitor e que inautêntica seria a Edição E, teve dois defensores de peso: Tito de Noronha (1834-1896) e Teófilo Braga (1843-1924).

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular