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A guerra que ficou só no cinema

21.07.2017
 
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Em 1964, Stanley Kubrick fez um dos mais importantes filmes do cinema americano, Dr. Strangelove, (How I Learned to Stop Worryng and Love the Bomb/ Como Aprendi a Deixar de me Preocupar e Amar a Bomba), uma irresistível comédia e ao mesmo tempo um poderoso libelo contra a guerra, com Peter Sellers, vivendo três papeis, o Presidente Muffley, o capitão Mandrake e o próprio Dr.Strangelove, (uma lembrança de Werner Von Braun, o criador das bombas V2 dos nazistas), um misterioso cientista alemão, cuja mão biônica insiste em fazer a saudação nazista mesmo contra sua vontade.

A história é contada num tom farsesco, que começa quando o general Jack D. Ripper (alusão a Jack o Estripador), personagem vivido por Sterling Hayden, desconfia que os comunistas estariam envenenando a água que os americanos bebem e ordena um ataque atômica à União Soviética.

Enquanto o capitão Mandrake tenta dissuadir o general do seu intento, o presidente Muffley reúne seus assessores, entre os quais o Dr. Strangelove e o general  BuckTurgidson (George C Scott) machista e anticomunista radical, que é a favor do bombardeio, para decidir o que fazer. Como o general Ripper se recusa a revelar o código que comanda o lançamento da bomba, o presidente liga para seu colega russo, pedindo que o avião americano seja derrubado antes de chegar ao alvo. Acontece que o piloto do avião é um maluco texano disposto a cumprir sua missão até o fim, nem que seja cavalgando a bomba como se ela fosse um cavalo xucro. Nessa altura, o embaixador soviético Sadesky (uma alusão ao Marques de Sade) comunica que seu país construiu a Máquina do Juízo Final, que será acionada e destruirá todo o mundo no momento em que a primeira bomba cair em solo soviético.

O que o mundo todo viu e muito riu dessa farsa ao militarismo americano, talvez não estivesse assim tão longe da realidade.

Em 2015, de acordo com as leis americanas, milhares de documentos, antes tidos como secretos e conservados nos arquivos do Departamento de Segurança Nacional, foram disponibilizados para pesquisas dos interessados, entre eles a chamada "Operação Dropshot", que  previa o lançamento de 300 bombas nucleares e outras 29 mil bombas convencionais sobre 200 alvos e cerca de 100 cidades e vilas na URSS. O objetivo era acabar com 85% do potencial industrial soviético com um só golpe

Em artigo publicado na versão eletrônica do Pravda, Igor Razin, da Gazeta Russa, fornece maiores dados sobre essa macabra operação.

"Em 1949 surgiu o plano Dropshot. A ideia era que os EUA atacassem a União Soviética e lançassem mais de 300 bombas nucleares e 20 mil toneladas de dispositivos convencionais contra 200 alvos situados em 100 áreas urbanas, incluindo Moscou e Leningrado (atual São Petersburgo).

Para tanto, foi produzida uma lista de alvos para ataques nucleares nos territórios da União Soviética e seus aliados. A relação continha nada menos que1.200 cidades desde a Alemanha Oriental, no Ocidente, até a China, no Oriente. Moscou encabeçava a lista, com 179 "alvos designados" (incluindo a própria Praça Vermelha), contra 145 em Leningrado. A potência das armas nucleares empregadas oscilaria entre 1,7 e 9 megatons (a da bomba atômica Little Boy, lançada em Hiroshima em agosto de 1945, era de 0,013 a 0,018 megatons). Caso a URSS não se rendesse após os ataques, Washington continuaria bombardeando regularmente áreas urbanas e industriais até sua destruição total.

Além disso, os idealizadores planejavam iniciar uma campanha terrestre contra os soviéticos para obter uma "vitória completa" junto  com seus aliados europeus.

E os planos dos EUA iam muito além da Rússia e países próximos. Pequim figurava em 13º lugar em número de bombardeiros, com 23 áreas destinadas à destruição.

De acordo com documentos desclassificados em 2015, as ogivas seriam lançadas a partir de aviões baseados no Reino Unido, no Marrocos e na Espanha. Também empregariam bombardeiros intercontinentais B-52, que, no momento do planejamento, estavam começando a ser distribuídos para a força aérea americana.

Em 29 de agosto de 1949, a União Soviética tornou pública que dominava também a tecnologia para a produção de armas atômicas, o que possivelmente influiu na decisão norte-americana de suspender seus planos de ataques, temerosos de que pudessem sofrer uma retaliação.

Felizmente, a guerra atômica aconteceu apenas com o filme do Kubrick. 

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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