Pravda.ru

Sociedade » Cultura

No centenário da morte de Machado de Assis

20.10.2008
 
Pages: 123

Usando o pseudônimo Gil, Machado de Assis escreveu nove destas crônicas em outubro, novembro e dezembro de 1861. Depois, passou a assinar os textos com suas iniciais (M.A.). Na maioria delas, a preocupação é com os fatos políticos do momento, que o cronista acompanha com malícia e isenção. “(...) a crítica é afiada e não poupa endereçamentos desagradáveis aos ministros e ao governo: fatalistas, indolentes, medíocres, vulgares. Um olho atento à realidade dos fatos, o outro a comentá-los com personalidade crítica, a conversa com o leitor faz-se aqui, além de afiada, perigosa”, observam na introdução Lúcia Granja, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, e Jefferson Cano, doutor em História também pela Unicamp.

III

Depois de ter dividido a crítica durante muito tempo quanto a sua classificação textual (ensaio satírico ou peça de teatro?), Queda que as mulheres têm para os tolos, do belga Victor Hénaux, em tradução de Machado de Assis, ganha uma edição extremamente bem cuidada e anotada, que serve para afastar de vez as dúvidas e informações equivocadas a seu respeito que, ainda, são encontradas em pesquisa na Internet. A última vez que saiu à luz foi no livro Crônicas, XXII (Rio de Janeiro, Editora Jackson, 1953, p.-163-181).

Como bem explicam na introdução crítico-filológica as professoras Ana Cláudia Suriani da Silva, doutora em Letras Modernas pela Universidade de Oxford, e Eliane Fernanda Cunha Ferreira (1958-2007), doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, este texto teve uma história bem controversa, desde que publicado pela primeira vez na revista carioca A Marmota, em edições de 19, 23, 26 e 30 de abril e 3 de maio de 1861, sem indicação de autor nem de que se tratava de uma tradução.

Foi o pesquisador francês Jean Michel Massa, autor de A juventude de Machado de Assis - 1839-1870 (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971), tradução de Marco Aurélio de Moura Matos de sua tese de doutorado La jeunesse de Machado de Assis (1839-1870): essai de bibliographie intellectuelle (Université de Poitiers, 1969, quem, ultimamente, sugeriu que Machado não era autor de Queda que as mulheres têm para os tolos, embora o livro publicado em 1861 pela Tipografia de F.Paula Brito, do Rio de Janeiro, deixasse claro na capa que se tratava de uma “traducção do snr. Machado de Assis”, sem se dignar a apontar o nome do autor. Era uma tradução de De l´amour des femmes pour les sots, de Victor Hénaux.

Em tese complementar, Machado de Assis traducteur, 2 vols., Université de Poitiers, 1970, o crítico francês foi além e comparou a tradução do escritor brasileiro com a quarta edição de Hénaux. Como o livro de Massa só agora foi publicado no Brasil – Machado de Assis, tradutor (Belo Horizonte, Editora Crisálida, 2008) em tradução de Oséias Silas Ferraz --, a crítica machadiana continuou ignorando olimpicamente a informação. Foi o que fizeram, por exemplo, estudiosos importantes da obra machadiana como Galante de Sousa, Lúcia Miguel Pereira e Afrânio Peixoto. E o erro se disseminou impunemente por artigos de jornais e revistas e em trabalhos acadêmicos e livros.

IV

Por desconhecimento, o texto foi considerado também peça de teatro, embora seja claramente um ensaio, como percebe quem lê apenas suas primeiras linhas. Não foi, porém, Massa quem primeiro insurgiu-se contra o equívoco. Já Amadeu Amaral em 1938, na revista Dom Casmurro, do Rio de Janeiro, já havia alertado para o fato de que o texto não era inédito nem de Machado de Assis, mas tradução. Mas, à época, poucos levaram consideração a advertência.

A ponto de Anita Novinsky em O olhar judaico em Machado de Assis (Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1990), José Raimundo Maia Neto em The Brazilian Phyrronian (West Lafayette/IN: Purdue University Press, 1994, e Ângela Canuto em Machado de Assis: memórias de um frasista (São Paulo: Lemos Editorial, 2002) considerarem Queda um texto original de Machado de Assis e o primeiro livro de sua carreira literária, como bem observaram as professoras Ana Cláudia e Eliane Fernanda na pesquisa que empreenderam.

Sem contar que Daniel Piza, no recente Machado de Assis: um gênio brasileiro (São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2005), ainda assumiu uma postura hesitante, ao escrever que Queda é “provavelmente uma adaptação da obra do autor francês Victor Hénaux”. Na segunda edição do livro, de 2006, Piza corrigiu a informação, dando o texto como “uma adaptação (sem crédito) da obra do autor francês Victor Henaux”, mas continuou a chamar Henaux (sem acento) de francês, embora uma rápida pesquisa no Google tivesse sido suficiente para mostrar-lhe que o autor era belga.

Ana Cláudia e Eliane Fernanda trataram ainda de descobrir quem foi Hénaux, “um belga, jurista de profissão, que provavelmente atuava em Liège, dado serem todas as suas outras publicações relativas a essa cidade”. E levantaram que De l´amour teve repercussão na época de sua publicação na Bélgica, “uma vez que existem pelo menos quatro edições da obra, duas tendo sido publicadas num intervalo de apenas um ano”.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular