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O mundo (poético) da viscondessa de Balsemão

19.04.2008
 
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O mundo (poético) da viscondessa de Balsemão

Adelto Gonçalves (*)

I

D.Catarina de Lencastre (1749-1824), quem há de saber quem foi? Só mesmo essa pequena confraria em que os historiadores literários do século XVIII nos tornamos. E, mesmo assim, bem poucos entre nós haveriam de se lembrar que foi a primeira viscondessa de Balsemão, mulher de Luís Pinto de Sousa (1735-1804), governador e capitão-general de Cuiabá e Mato Grosso de 1769 a 1772 e secretário de Estado (vale dizer, primeiro-ministro) no reinado de D.Maria I de 1788 a 1801 e de agosto a dezembro de 1803. E que foi poetisa das mais notáveis ao seu tempo, ainda que não tenha tido a fama que cerca Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, a marquesa de Alorna (1750-1839), uma das principais vozes do Pré-Romantismo.

Isso, porém, não foi obstáculo para que a professora Maria Luísa Malato Borralho, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, viesse a dedicar grande parte de seu tempo a escrever a sua biografia, ainda que nas atuais Histórias da Literatura pouca ou nenhuma referência haja a Catarina de Lencastre. Até porque a professora é autora de uma irretocável biografia do teatrólogo Manuel de Figueiredo (1725-1801), seu trabalho de mestrado, Manuel de Figueiredo: uma perspectiva do neoclassicismo português (1745-1777), publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (IN-CM), de Lisboa, em 1995, e da edição crítica da Obra Literária (poesia) de José Anastácio da Cunha (1744-1787), em co-autoria com a professora Cristina Alexandra de Marinho, que saiu em dois volumes (com inéditos do autor) pela editora Campo das Letras, do Porto ( v.1, 2001; v. 2, 2006).

O resultado de anos de estudo está agora no livro “Por acazo hum viajante…” A vida e a obra de Catarina de Lencastre, 1ª viscondessa de Balsemão (1749-1824), publicado neste começo de 2008 na coleção Temas Portugueses da IN-CM, trabalho orientado pelo professor doutor José Adriano Carvalho, que foi quem teve a idéia de lembrar à investigadora que na Biblioteca Pública Municipal do Porto existiam uns poemas, praticamente, esquecidos de Catarina de Lencastre.

Os poemas não chegavam a uma centena, mas foram a semente de um trabalho que levou a estudiosa a arquivos de Coimbra, Santarém, Funchal, Nantes, Londres e Lisboa e a publicar em 1999 uma primeira impressão. Desse trabalho inicial, resultam agora dois livros autônomos: este, sobre a vida de Catarina de Lencastre, e outro, com a edição crítica de sua obra literária e dramática, a sair na mesma coleção da IN-CM.

II

Muito tempo antes de o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) imaginar e escrever o romance-labirinto Se um viajante numa noite de inverno (1979), Catarina de Lencastre escreveu o verso “Por acazo hum viajante…”, que consta de Apólogo, 4ª Colecção, f.267, manuscrito que pertenceu supostamente a um familiar da poetisa e que foi adquirido pela professora Maria Luísa na Livraria Histórica e Ultramarina de Lisboa, em 1992. Ainda que pouco um título tenha a ver com o outro, parece que a autora se deixou levar pela semelhança que os aproximam para escolhê-lo.

Mas, acima de tudo, é preciso levar em conta que Catarina de Lencastre, por força do trabalho desempenhado pelo marido, foi também uma grande viajante. Talvez apenas não tenha acompanhado Luís de Pinto de Sousa aos cafundós do Brasil, até porque, àquela época, foram raros os governadores que trouxeram família para a América portuguesa. E chegar a Cuiabá por barco, enfrentando corredeiras, cachoeiras, sezões e indígenas hostis, certamente, não seria tarefa que se desse a uma mulher da primeira nobreza.

Um dos raros governadores de que me lembro -- por ver registro em documento da época no Arquivo Histórico Ultramarino -- que trouxe família para o Brasil foi Antônio da Silva Caldeira Pimentel, que governou a capitania de São Paulo de 1727 a 1732, mas não se pode comparar as dificuldades -- que já não seriam poucas -- de subir a íngreme e fechada Serra do Mar do porto de Santos para São Paulo com os obstáculos de uma viagem por rios de Araritaguaba, hoje Porto Feliz, às margens do Tietê, até Cuiabá.

Os passos de viajante de Catarina de Lencastre por Lisboa, Porto, Londres e Funchal foram revisitados por Maria Luísa mais de dois séculos depois (e não apenas através de seus poemas) bem como os seus primeiros passos em Guimarães, onde ela nasceu, décima filha, ou décima primeira, dos senhores de Vila Pouca, família de muita influência e de conhecida veia literária, que seria descendente de João e Vasco de Lobeira, cujos nomes aparecem ligados ao Amadis de Gaula, de Luís de Camões (c.1524-1580) e até de soror Mariana Alcoforado (1640-1723), embora se saiba que nem sempre essas ligações atribuídas podem ser documentalmente comprovadas.

De qualquer modo, diz a pesquisadora, é improvável que a pequena fidalga tenha crescido sem saber o que eram tertúlias, música e poesia. A verdade, porém, é que documentos, praticamente, não há que possam reconstituir a infância de Catarina, até o seu casamento com Luís Pinto de Sousa, que então já estava com 37 anos de idade, 14 a mais que a noiva com quem teria se casado antes de partir para o Brasil. A essa época, o marido já havia cursado Matemáticas em Coimbra, viajado por Itália, Alemanha e França e até participado da Arcádia, embora a informação também seja duvidosa.

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