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Darcy Damasceno, poeta, crítico e tradutor

19.01.2008
 
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Darcy Damasceno, poeta, crítico e tradutor

Adelto Gonçalves (*)

I

Darcy Damasceno (1922-1988) trabalhou por mais de 30 anos, de 1951 a 1982, na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A par de seu trabalho como funcionário público federal, desenvolveu carreira como poeta que só não alcançou público maior em razão da própria modéstia de Damasceno que, sem ânimo para andar atrás de editores mais preocupados com valores nada literários, limitou-se a publicar seus poemas em edições de tiragens reduzidas e fora do circuito comercial.

Além de tradutor de incontáveis méritos, foi estudioso da literatura brasileira, destacando-se como exegeta da obra de Cecília Meireles (1901-1964), sobre a qual escreveu excelentes ensaios, que ainda hoje servem para fundamentar muitas dissertações e teses universitárias.

Para recuperar parte do trabalho de Damasceno como crítico e pesquisador, sua viúva Iracilda e Antonio Carlos Secchin, doutor em Letras, professor titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o mais jovem membro da Academia Brasileira de Letras, acabam de reunir em De Gregório a Cecília (Rio de Janeiro, Edições Galo Branco, 2007) 25 ensaios e artigos que estavam, muitos deles, esquecidos no fundo de uma gaveta -- sem nunca terem conhecido letra de imprensa -- ou dormiam o sono solto dos arquivos, publicados que haviam sido em jornais ou publicações hoje de difícil acesso.

São textos que deixam à mostra a preocupação que Damasceno tinha de valorizar a literatura brasileira, especialmente dos séculos XVII, XVIII e XIX, embora mostrasse a mesma desenvoltura quando se aprofundava na obra de autores estrangeiros, como o toledano Garcilaso de la Veja (1501/1503?-1536) e o alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843), ou ainda quando abordava um poeta contemporâneo como Fernando Pessoa (1888-1935), como mostra o ensaio “Sobre as Odes de Ricardo Reis”, que deixou inédito e os organizadores recolheram em De Gregório a Cecília.

II

Como diz o professor Secchin na apresentação que escreveu para este livro, Damasceno como poeta pode ser situado como um dos nomes centrais da Geração de 45, a partir de títulos como Poemas (Rio de Janeiro, Pongetti,1946); Fábula serena (Rio de Janeiro, Orfeu, 1949), Jogral caçurro e outros poemas (Rio de Janeiro, Livros de Portugal,1958), Trigésima (Rio de Janeiro, Orfeu, 1967), Poesia (Rio de Janeiro, Orfeu, 1967) e Poesia, modificada pelo autor e acrescida dos poemas inéditos de Noites claras (Rio de Janeiro, Gráfica JB, 1988), edição póstuma, além de expressiva participação nas mais representativas antologias do movimento.

Como tradutor, destacam-se O cemitério marinho, de Paul Valéry, publicado em 1941 (Rio de Janeiro, Orfeu) e em 1960 (Salvador, Dinamene), Poesia espanhola: ensaio de métodos e limites estilísticos, de Damaso Alonso, saído em 1960 (Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro), e Poesia, de Saint-John, de 1969 (Rio de Janeiro, Delta Editora), entre outros.

No ensaísmo, seu nome ficou desde sempre associado à obra de Cecília Meireles, de quem escreveu "Poesia do sensível e do imaginário", texto de abertura da primeira edição de Poemas reunidos, de 1958. Como lembra Secchin, destacou-se ainda pelo exame criterioso da obra do poeta que constitui o maior desafio ecdótico das nossas letras: Gregório de Matos. É de sua responsabilidade também o texto sobre O Neoparnasianismo em A literatura no Brasil, vol. 3, tomo 1 (Rio de Janeiro, Livraria São José, 1959).

A partir de 1973, começou a editar em nove volumes as Poesias Completas de Cecília Meireles, pela editora Civilização Brasileira, em louvável esforço de pesquisa. Os cinco primeiros volumes seguiram uma seqüência cronológica que se inicia em 1939, com Viagem, e finda em 1964, com a Crônica trovada da cidade de Sam Sebastiam do Rio de Janeiro. O número 6, de 1973, porém, retrocede aos anos 20, misturando material nunca publicado (Morena, pena de amor), dois livros lançados, respectivamente, em 1923, Nunca mais, e 1925, Baladas para El-Rei, pela primeira vez reeditados.

Nos demais volumes, há uma série de poemas que ainda não haviam sido incluídos em livro e um livro em esboço, além de poemas que não haviam sido dados como prontos pela poetisa. Em 1994, ao trabalhar a quarta edição da obra de Cecília Meireles pela editora Aguilar, Walmir Ayala (1933-1991) incorporou todo o material recolhido por Damasceno.

III

Em De Gregório a Cecília, há vários estudos que não chegaram à versão definitiva, mas que mostram “o lastro do ensaísta, a acuidade do crítico, a paciência e a minúcia do pesquisador que (Damasceno) sempre foi”, como observa Iracilda na apresentação. Um desses ensaios é “A estréia de Cecília Meireles” em que o crítico recupera sonetos do final da adolescência da poetisa (1917-1919) que “não permitiam que se esperasse dela nenhum rasgo mais diferenciado em relação a tantos outros manejadores de esdrúxulos”.

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