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Sangue e Champagne

18.02.2008
 
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- Khaled Mash'al, líder do Hamás, estava sendo “liquidado” numa rua em Amã, com uma injeção de veneno. A “liquidação” foi descoberta, os “liquidadores” foram identificados, e um furioso Rei Hussein obrigou Israel a fornecer o antídoto que lhe salvou a vida. Os “liquidadores” israelenses foram trocados pelo Sheik Ahmad Yassin, fundador do Hamás, que estava preso em Israel. Resultado: Mash'al foi promovido; é hoje a principal cabeça política do Hamás.


– O próprio Sheik Yassin, paraplégico, foi “liquidado” num ataque com helicópteros, quando deixava uma mesquita, depois da reza. Antes, sobrevivera a um ataque falhado contra sua casa. Para todo o mundo árabe, tornou-se mártir e, desde então, serve de inspiração para centenas de ações do Hamás.

O DENOMINADOR COMUM entre todas estas e muitas outras ações é que elas não causaram qualquer dano às organizações dos “liquidados” e voltaram sobre Israel, como bumerangues. Todas estas ações provocaram terríveis respostas de vingança.


A decisão de promover uma “liquidação” é semelhante à decisão que levou ao início da II Guerra do Líbano: nenhum dos decisores dá qualquer atenção ao sofrimento da população civil – vítima, sempre, em todas as vinganças.


Por que, então, organizam-se e perpetram-se as “liquidações”?


Resposta de um dos generais aos quais se fez esta pergunta: “Esta pergunta não tem resposta certa”.


Estas palavras são pura afronta, pura arrogância: como alguém pode decidir entrar ou não entrar em guerra, se não sabe se a guerra tem ou não tem algum sentido?


Desconfio que a razão real que leva às “liquidações” é tanto política quanto psicológica. É política, porque as “liquidações” agradam à opinião pública em Israel. Sempre há júbilo, depois de cada “liquidação”. Quando a vingança desaba sobre nós, a opinião pública (e a mídia) não vêem a relação que há entre a “liquidação” e a resposta. Vêem-se as coisas como se fossem separadas. Pouca gente tem tempo e inclinação para refletir, quando todos à volta ardem de fúria imediatamente depois de cada ação criminosa contra Israel.
No caso presente, há também uma motivação política extra: o exército não consegue fazer parar os Qassams, nem tem qualquer desejo de atolar-se na re-ocupação da Faixa de Ghaza, com todos os riscos a que se exporá lá. Uma “liquidação” sensacionalista é alternativa mais simples.


A razão psicológica também é clara: dá prazer. É verdade, sim, que “liquidações” – como o nome diz – fazem mais sentido no submundo, do que nas forças de segurança de um Estado. Mas “liquidar” é tarefa desafiante e complexa, como nos filmes sobre a Máfia, que dá muito prazer aos “liquidadores”. Ehud Barak, por exemplo, é liquidador desde o início de sua carreira militar. Quando a “liquidação” termina bem, os carrascos erguem as taças e brindam com Champagne.


Não se pode misturar sangue, Champagne e loucura: o coquetel embriaga e causa euforia instantânea. Mas é tóxico.


**Uri Avnery,85 anos, é membro fundador do Gush Shalom (Bloco da Paz israelense). Adolescente, Avnery foi combatente no Irgun e mais tarde soldado no exército israelita. Foi três vezes deputado no Knesset (parlamento). Foi o primeiro israelense a estabelecer contato com a liderança da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em 1974. Foi durante quarenta anos editor-chefe da revista noticiosa Ha'olam Haze. É autor de numerosos livros sobre a ocupação israelense da Palestina, incluindo My Friend, the Enemy (Meu amigo, o inimigo) e Two People, Two States (Dois povos, dois Estados).


* URI AVNERY, 17/2/2008, “Blood and Champagne”. Em Gush Shalom [“Grupo da Paz”], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1203196052/ .

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