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As mentiras temerárias dos fomentadores de guerra

17.03.2015
 
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As mentiras temerárias dos fomentadores de guerra

Por que a ascensão do fascismo é de novo a questão

 

John Pilger

 

http://johnpilger.com/articles/why-the-rise-of-fascism-is-again-the-issue  

 

O 70º aniversário da libertação de Auschwitz é uma rememoração recente do grande crime do fascismo, cuja iconografia nazista está incrustada em nossa consciência. O fascismo é preservado como história, como nos filmes tremeluzentes de camisas negras marchando a passo de ganso, sua culpabilidade terrível e clara. Contudo, nas mesmas sociedades liberais, cujas elites fomentadoras de guerras nos impelem a nunca esquecer, o perigo em aceleração crescente de um tipo moderno de fascismo é escamoteado, pois trata-se do fascismo delas próprias.

 

"Iniciar uma guerra de agressão", disseram os juízes do Tribunal de Nuremberg em 1946, "não é apenas um crime internacional, é o crime internacional supremo, só diferindo de outros crimes de guerra na medida em que contém em si mesmo o mal acumulado do todo."

 

Não tivessem os nazistas invadido a Europa, Auschwitz e o Holocausto não teriam acontecido. Não tivessem os Estados Unidos e seus satélites iniciado sua guerra de agressão contra o Iraque em 2003, quase um milhão de pessoas estariam vivas hoje; e o Estado Islâmico, ou ISIS, não nos teria sob o poder psicológico de sua selvageria. Eles são a descendência do fascismo moderno, alimentados, depois do desmame, pelas bombas, banhos de sangue e mentiras do teatro surreal que conhecemos comonoticiário.

 

Como no fascismo dos anos 1930 e 1940, grandes mentiras são distribuídas com a precisão de um metrônomo: graças a uma mídia repetitiva e à sua virulenta censura por omissão. Consideremos a catástrofe na Líbia.

 

Em 2011, a OTAN lançou 9 mil "surtidas de ataque" contra a Líbia, das quais mais de um terço visando alvos civis. Ogivas de urânio foram empregadas; as cidades de Misurata e Sirte foram objeto de bombardeios de saturação. A Cruz Vermelha identificou covas coletivas, a UNICEF relatou que "a maioria [das crianças assassinadas] tinham menos de dez anos de idade".

 

A sodomização pública do presidente líbio Muamar Kadafi com uma baioneta "rebelde" foi saudada pela secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, com as palavras: "Nós viemos, nós vimos, ele morreu." Seu assassinato, assim como a destruição de seu país, foi justificado com uma grande mentira que já nos é familiar; ele estava planejando "genocídio" contra seu próprio povo. "Nós sabíamos... e se esperássemos mais um dia", disse o presidente Obama, "Bengasi, uma cidade do tamanho de Charlote, poderia sofrer um massacre que teria repercutido em toda a região e manchado a consciência do mundo."

 

Isto foi uma fabricação de milícias islamitas que, então, estavam sendo derrotadas por forças do governo líbio. Elas disseram à Reuters que haveria "um verdadeiro banho de sangue, um massacre como o que vimos em Ruanda." Publicada em 14 de março de 2011, a mentira foi a primeira centelha para o inferno promovido pela OTAN, descrito por David Cameron como uma "intervenção humanitária".

 

Secretamente abastecida e treinada pelo SAS britânico, muitos dos "rebeldes" se tornariam membros do ISIS, cujo último vídeo exibe o espetáculo da decapitação de vinte e um trabalhadores cristãos cópticos capturados em Sirte, a cidade destruída, em nome deles, pelos bombardeiros das OTAN.

 

Para Obama, Cameron e Hollande, o verdadeiro crime de Kadafi foi a independência financeira da Líbia e sua intenção declarada de parar de negociar as maiores reservas de petróleo da África em dólares estadunidenses. O petrodólar é um pilar do poder imperial norte-americano. Kadafi planejou audaciosamente subscrever uma moeda comum africana lastreada no ouro, fundar um banco pan-africano e promover a união econômica entre os países pobres possuidores de recursos valorizados. Acontecesse ou não, a própria ideia era intolerável para os Estados Unidos, que já estavam se preparando para "entrar" na África e subornar governos africanos com "parcerias" militares.

 

Na sequência do ataque da OTAN sob cobertura de uma resolução do Conselho de Segurança, Obama, escreveu Garikai Chengu, "confiscou 30 bilhões de dólares do Banco Central da Líbia, os quais Kadafi havia reservado para o instituição de um Banco Central Africano e do dinar africano lastreado no ouro."

 

A "guerra humanitária" contra a Líbia se inspirou num modelo íntimo dos corações ocidentais liberais, especialmente na mídia. Em 1999, Bill Clinton e Tony Blair mandaram a OTAN bombardear a Sérvia, pois, mentiram eles, os sérvios estavam cometendo "genocídio" contra albaneses étnicos na província secessionista de Kosovo. David Scheffer, embaixador itinerante dos Estados Unidos para crimes de guerra [sic], sustentou que pelo menos "225 mil homens albaneses étnicos com idade de 14 a 59 anos" poderiam ter sido assassinados. Bill Clinton e Blair evocaram o Holocausto e o "espírito da Segunda Guerra Mundial". O aliado heroico do Ocidente era o Exército de Libertação do Kosovo (ELK), cuja ficha criminal foi posta de lado. O secretário de Negócios Estrangeiros britânico, Robin Cook, disse aos representantes do ELK que eles podiam ligar a qualquer hora para o seu celular.

 

Com a OTAN despejando bombas e grande parte da infraestrutura da Sérvia em ruínas, juntamente com escolas, hospitais, monastérios e a estação nacional de TV, equipes forenses invadiram Kosovo para exumar provas do "holocausto". O FBI não conseguiu encontrar uma única cova coletiva e voltou para casa. A equipe forense espanhola fez o mesmo, seu líder denunciando com indignação "a pirueta semântica das máquinas de propaganda de guerra". Um ano depois, o tribunal das Nações Unidas sobre a Iugoslávia anunciou a conta final dos mortos em Kosovo: 2.788. Esta cifra incluía combatentes de ambos os lados e sérvios e romas assassinados pelo ELK. Não houve genocídio. O "holocausto" foi uma mentira. O ataque da OTAN foi fraudulento.

 

Por trás da mentira, havia um objetivo sério. A Iugoslávia era uma federação multiétnica singularmente independente que tinha sido uma ponte política e econômica durante a Guerra Fria. A maior parte de seus serviços e fábricas era de propriedade pública. Isto não era aceitável para a Comunidade Europeia em expansão, especialmente a recém-unificada Alemanha, que havia desencadeado uma iniciativa rumo ao leste, visando capturar seus "mercados naturais" nas províncias iugoslavas da Croácia e da Eslovênia. Na época em que os europeus se encontraram em Maastricht, em 1991, para desenvolver seus planos para a desastrosa eurozona, um acordo secreto foi selado: a Alemanha reconheceria a Croácia. A Iugoslávia estava condenada.

 

Em Washington, os Estados Unidos tomaram providências para que o Banco Mundial negasse empréstimos aos esforços então ultimados pela economia iugoslava. A OTAN, então uma relíquia quase defunta da Guerra Fria, foi reinventada como executor imperial. Na conferência de "paz" para Kosovo de 1999 em Rambouillet, França, os sérvios foram submetidos às táticas de duplicidade do executor. O acordo de Rambouillet incluía um Anexo B secreto, inserido na última hora pela delegação estadunidense. Este anexo exigia a ocupação militar de toda a Iugoslávia - um país com memórias amargas da ocupação nazista - a implementação de uma "economia de livre mercado" e a privatização de todos os ativos do governo. Nenhum país soberano poderia assinar aquilo. A punição foi rápida: bombas da OTAN caíram sobre um país indefeso. Este episódio foi o precursor das catástrofes no Afeganistão e no Iraque, na Síria e na Líbia, e na Ucrânia.

 

Desde 1945, mais de um terço dos países membros das Nações Unidas - 69 países - foram objeto de algumas ou de todas as seguintes formas de intervenção nas mãos do fascismo moderno dos Estados Unidos. Eles foram invadidos, seus governos derrubados, seus movimento populares esmagados, suas eleições subvertidas, seu povo bombardeado e suas economias despojadas de toda proteção, suas sociedades submetidas a um cerco incapacitante conhecido como "sanções". O historiador britânico Mark Curtis estima que o tributo em número de mortes tenha sido de milhões. Em cada um dos casos, uma grande mentira foi desdobrada.

 

"Esta noite, pela primeira vez desde 11 de setembro, nossa missão de combate no Afeganistão terminou." Estas foram as palavras de abertura do discurso de Obama sobre o Estado da União em 2015. Na verdade, cerca de 10 mil soldados e 20 mil prestadores (mercenários) permanecem no Afeganistão em missão de tempo indeterminado. "A mais longa guerra da história dos Estados Unidos está chegando a uma conclusão responsável", disse Obama. Na verdade, mais civis foram mortos no Afeganistão em 2014 do que em qualquer ano desde que a ONU começou a fazer registros. A maioria foi morta - civis e soldados - durante o período de Obama como presidente.

 

A tragédia do Afeganistão rivaliza o crime épico da Indochina. Em seu elogiado e muito citado livro, The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives [O grande tabuleiro de xadrez: Prioridade norte-americana e seus imperativos geoestratégicos], Zbigniew Brzezinsky, padrinho das políticas estadunidenses no Afeganistão até o presente, escreve que, se os Estados Unidos quiserem dominar a Eurásia e o mundo, não podem sustentar uma democracia popular, pois "a busca do poder não é um objetivo que demande paixão popular... A democracia é inimiga da mobilização imperial." Ele tem razão. Como o WikiLeaks e Edward Snowden revelaram, um Estado policial e de vigilância está usurpando a democracia. Em 1976, Brzezinsky, então conselheiro de segurança nacional do presidente Carter, demostrou seu argumento desfechando um golpe de morte na primeira e única democracia do Afeganistão. Quem está a par desta história crucial?

 

Nos anos 1960, uma revolução popular varreu o Afeganistão, o país mais pobre da terra, e finalmente derrotou os vestígios do regime aristocrático em 1978. O Partido Democrático do Povo do Afeganistão (PDPA) formou um governo e anunciou um programa de reformas que incluía a abolição do feudalismo, liberdade para todas as religiões, direitos iguais para as mulheres e justiça social para as minorias étnicas. Mais de 13 mil prisioneiros políticos foram libertados e arquivos da polícia foram queimados em público.

 

O novo governo introduziu a assistência médica gratuita para os mais pobres. A servidão por dívida foi abolida e um programa de alfabetização em massa foi lançado. Para as mulheres, os ganhos foram sem precedentes. No final dos anos 1980, a metade dos estudantes universitários eram mulheres, assim como quase a metade dos médicos do Afeganistão, um terço dos funcionários públicos e a maioria dos professores. "Todas as moças", recorda-se Saira Noorani, uma cirurgiã, "podiam fazer o segundo grau e entrar para a universidade. Nós podíamos ir aonde quiséssemos e nos vestir como gostássemos. Nós íamos a cafés e ao cinema para ver o último filme indiano às sextas-feiras e ouvir as últimas músicas. Tudo começou a dar errado quando o mudjaheddincomeçou a ganhar. Eles matavam professores e queimavam escolas. Nós estávamos aterrorizadas. Era estranho e triste pensar que o Ocidente apoiava aquelas pessoas."

 

O governo do PDPA era apoiado pela União Soviética, embora, conforme admitiu posteriormente o secretário de Estado Cyrus Vance, "não [houvesse] nenhuma prova da cumplicidade soviética [na revolução]". Alarmado pela confiança crescente dos movimentos de libertação em todo o mundo, Brzezinsky decidiu que, se o Afeganistão tivesse sucesso sob o PDPA, sua independência e seu progresso representariam a "ameaça de um exemplo promissor".

 

Em 3 de julho de 1979, a Casa Branca autorizou secretamente o apoio a grupos "fundamentalistas" tribais conhecidos comomudjaheddin, programa que alcançou mais de 500 milhões de dólares por ano em armas estadunidenses e outras formas de assistência. O objetivo era derrubar o primeiro governo secular reformista do Afeganistão. Em agosto de 1979, a embaixada dos Estados Unidos em Cabul relatou que "os interesses mais amplos dos Estados Unidos... seriam servidos pela derrubada [do governo do PDPA], a despeito de todo e qualquer revés que isto possa significar para as futuras reformas sociais e econômicas no Afeganistão." Os itálicos são meus. Os mudjaheddin foram os ancestrais da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Entre eles, Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu dezenas de milhões de dólares em dinheiro da CIA. A especialidade de Hekmatyar era traficar ópio e jogar ácido no rosto das mulheres que se recusavam usar o véu. Recebido em Londres, ele foi celebrado pela primeira ministra como um "combatente da liberdade".

 

Fanáticos deste quilate poderiam ter permanecido em seu mundo tribal se Brzezinsky não tivesse lançado um movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia Central e, deste modo, minar a libertação política secular e "desestabilizar" a União Soviética, criando, como ele escreveu em sua autobiografia, "um punhado de muçulmanos turbulentos". Seu grande plano coincidia com as ambições do ditador paquistanês, o general Zia ul-Haq, de dominar a região. Em 1986, a CIA e a agência de inteligência paquistanesa, a ISI, começaram a recrutar pessoas em todo o mundo para juntar-se à jihad afegã. O multimilionário saudita Osama bin Laden foi uma dessas pessoas. Agentes que finalmente adeririam ao Talibã e à al-Qaeda eram recrutados numa universidade islâmica do Brooklin, em Nova Iorque, e recebiam treinamento paramilitar num campo da CIA na Virginia. Esta ação foi chamada de "Operação Ciclone". Seu sucesso foi celebrado em 1996, quando o último presidente do PDPA do Afeganistão, Mohammed Najibullah - que tinha ido à Assembleia Geral da ONU pedir ajuda - foi enforcado num poste pelo Talibã.

 

O "tiro pela culatra" da Operação Ciclone e seu "punhado de muçulmanos turbulentos" foi o 11 de setembro de 2001. A Operação Ciclone se transformou em "guerra contra o terror", na qual um número incontável de homens, mulheres e crianças perderiam a sua vida em todo o mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, Iêmen, Somália e Síria. A mensagem do executor continua a ser a mesma: "Ou você está conosco ou está contra nós."

 

O elemento comum no fascismo, passado e presente, é o assassinato em massa. A invasão norte-americana do Vietnã teve suas "zonas de fogo livre", sua "contagem de corpos", seus "efeitos colaterais". Na província de Quang Ngai, onde fui correspondente, muitos milhares de civis ("gooks") foram assassinados pelos Estados Unidos. Entretanto, só um massacre, o de My Lai, é lembrado. No Laos e no Camboja, o maior bombardeio aéreo da história produziu uma época de terror até hoje marcada pelo espetáculo de crateras feitas à bomba, as quais, vistas de cima, parecem monstruosos colares. O bombardeio deu ao Camboja o seu próprio ISIS, liderado por Pol Pot.

 

Hoje, a maior campanha isolada de terror do mundo envolve a execução de famílias inteiras, de convidados em casamentos, de enlutados em funerais. Essas são as vítimas de Obama. Segundo o New York Times, Obama faz a sua seleção a partir de uma "lista de morte" apresentada a ele todas as quintas-feiras na Sala da Situação da Casa Branca. Nessa ocasião, ele decide, sem nenhum traço de justificativa legal, quem vai morrer e quem vai viver. Sua arma de execução é o míssil Hellfire transportado pelo avião-robô conhecido como drone; esses mísseis calcinam suas vítimas e engrinaldam a área com seus restos mortais. Cada "ataque" é registrado na tela de console remoto como um "bugsplat", isto é, um inseto esmagado.

 

"Os soldados a passo de ganso", escreve o historiador Norman Pollock, "são substituídos pela militarização aparentemente mais inócua da cultura total. E no lugar do líder bombástico, nós temos o reformador fracassado, trabalhando jovialmente, planejando e executando assassinatos, e sorrindo o tempo todo."

 

Unindo o fascismo velho e o fascismo novo, está o culto à superioridade. "Eu creio no excepcionalismo estadunidense com cada fibra do meu ser", disse Obama, fazendo lembrar as declarações de nacional-fetichismo dos anos 1930. Conforme destacou o historiador Alfred W. McCoy, foi o devoto de Hitler, Carl Schmitt, que disse: "O soberano é quem decide a exceção." Isto resume o americanismo, a ideologia dominante no mundo. O fato de ela permanecer não reconhecida como uma ideologia predatória é obra de uma lavagem cerebral igualmente não reconhecida. Insidiosa, não declarada, apresentada astuciosamente como um iluminismo em marcha, seu conceito se insinua na cultura ocidental. Eu cresci com uma dieta cinematográfica de glória estadunidense, quase toda ela uma distorção. Eu não tinha a menor ideia de que foi o Exército Vermelho que destruiu a maior parte da máquina de guerra nazista, ao custo de não menos que 13 milhões de soldados. Em contraste, as perdas dos Estados Unidos, incluindo o Pacífico, foram de 400 mil soldados. Hollywood inverteu isso.

 

A diferença agora é que as plateias de cinema são incitadas a ficar tão somente roendo unhas face à "tragédia" dos psicopatas norte-americanos obrigados a matar pessoas em lugares distantes - exatamente como o próprio presidente as mata. Encarnação da violência de Hollywood, o ator e diretor Clint Eastwood foi indicado para um Oscar este ano por seu filme Sniper americano, que trata de um assassino e desiquilibrado com licença para matar. O New York Times o descreveu como um filme "patriótico pró-família que quebrou todos os recordes de bilheteria nos seus primeiros dias de exibição."

 

Não há filmes heroicos sobre a adoção do fascismo pelos Estados Unidos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos (e a Grã-Bretanha) entraram em guerra contra os gregos, que tinham combatido heroicamente o nazismo e estavam resistindo ao fascismo grego. Em 1967, a CIA ajudou a levar ao poder uma junta militar fascista em Atenas - como fez no Brasil e na maior parte da América Latina. Os alemães e europeus orientais que pactuaram com a agressão e com os crimes contra a humanidade nazistas obtiveram refúgio nos Estados Unidos; muitos foram mimados e tiveram seus talentos recompensados. Wernher von Braun foi o "pai" tanto da pavorosa bomba V-2 quanto do programa espacial estadunidense.

 

Nos anos 1990, à medida que ex-repúblicas soviéticas, a Europa oriental e os Balcãs se tornavam postos avançados da OTAN, os herdeiros do movimento nazista na Ucrânia ganharam a sua oportunidade. Responsável pela morte de milhares de judeus, poloneses e russos durante a invasão da União Soviética, o fascismo ucraniano foi reabilitado, e a sua "nova onda" foi saudada pelo executor como "nacionalista".

 

Isto chegou ao apogeu em 2014, quando a administração Obama esbanjou 5 bilhões de dólares num golpe contra o governo eleito. As tropas de choque eram neonazistas conhecidos como Setor Direito e Svodoba. Entre seus líderes, está Oleh Tyahnybok, que postulou o expurgo da "máfia moscovita judaica" e "outras escórias", inclusive gays, feministas e simpatizantes da esquerda política.

 

Os fascistas estão agora integrados no governo golpista de Kiev. O primeiro vice-presidente do parlamento ucraniano, Andriy Parubiy, um líder do partido governante, é cofundador do Svoboda. Em 14 de fevereiro, Parubiy anunciou que estava voando para Washington para convencer "os Estados Unidos a nos darem armamento moderno de alta precisão". Se ele for bem-sucedido, isto será visto como um ato de guerra pela Rússia.

 

Nenhum líder ocidental se pronunciou claramente sobre o renascimento do fascismo no coração da Europa - com exceção de Vladimir Putin, cujo povo perdeu 22 milhões de vidas numa invasão que entrou pela da fronteira da Ucrânia. Na recente Conferência de Segurança de Munique, a secretária de Estado assistente para assuntos europeus e eurasianos de Obama, Victoria Nuland, reclamou asperamente dos líderes europeus por se oporem ao armamento do regime de Kiev pelos Estados Unidos. Ela se referiu ao ministro da defesa alemão como "o ministro do derrotismo". Foi Nuland quem idealizou o golpe em Kiev. Esposa de Robert D. Kagan, "neoconservador" luminar e cofundador do Projeto para Um Novo Século Americano, de extrema direita, ela foi conselheira política de Dick Cheney.

 

O golpe de Nuland não se desdobrou como planejado. A OTAN foi impedida de tomar a base naval de águas temperadas historicamente legítima da Crimeia. A maior parte da população russa da Crimeia - ilegalmente anexada à Ucrânia por Nikita Krushchev em 1954 - votou esmagadoramente a favor do retorno à Rússia, como já haviam feito nos anos 1990. O referendo foi voluntário, popular e acompanhado por observadores internacionais. Não houve nenhuma invasão.

 

Ao mesmo tempo, o regime de Kiev se voltou contra a população étnica russa no leste com a ferocidade de uma limpeza étnica. Acionando milícias neonazistas à maneira da Waffen-SS, eles bombardearam e sitiaram metrópoles e cidades. Usaram a fome coletiva como arma, cortando o fornecimento elétrico, bloqueando contas bancárias, suspendendo assistência social e pensões. Mais de um milhão de refugiados cruzaram as fronteiras, fugindo para a Rússia. Na mídia ocidental, eles se tornaram um povo em fuga da violência promovida pela "invasão russa". O comandante da OTAN, general Breedlove - cujo nome e ações poderiam ter sido inspirados no Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick - anunciou que 40 mil soldados russos estavam "se concentrando". Numa era de provas forenses obtidas via satélite, ele não apresentou nenhuma.

 

O povo falante de russo e bilíngue da Ucrânia - um terço da população - aspirou por muito tempo uma federação que refletisse a diversidade étnica do país e fosse tanto autônoma quanto independente de Moscou. A maioria não é "separatista", mas formada por cidadãos que desejam viver em segurança em sua terra natal e se opõem à tomada de Kiev. Sua revolta e o estabelecimento de "Estados" autônomos são uma reação aos ataques de Kiev contra eles. Muito pouco disso tudo foi explicado ao público ocidental.

 

Em 2 de maio de 2014, em Odessa, 41 russos étnicos foram queimados vivos na Casa dos Sindicatos, a polícia estando presente. O líder do Setor Direito, Dmytro Yarosh, saudou o massacre como "mais um brilhante dia da nossa história nacional". Nas mídias norte-americana e britânica, o fato foi relatado como uma "sombria tragédia", resultante dos "choques" entre "nacionalistas" (neonazistas) e "separatistas" (gente que recolhia assinaturas em prol de um referendo sobre a instituição de uma Ucrânia federal).

 

New York Times enterrou a história, tendo descartado como propaganda russa as advertências sobre políticas fascistas e antissemitas dos novos clientes de Washington. O Wall Street Jornal culpou as vítimas - "Incêndio com mortes na Ucrânia provavelmente provocado por rebeldes, diz o governo". Obama congratulou a junta por seu "comedimento". Se Putin tivesse cedido à provocação e vindo em sua ajuda, seu papel pré-determinado de "pária" no Ocidente justificaria a mentira de que a Rússia estaria invadindo a Ucrânia. Em 29 de janeiro, o mais alto comandante militar da Ucrânia, general Viktor Muzhemko, quase desdenhou inadvertidamente as bases das sanções dos Estados Unidos e da União Europeia ao enfatizar numa conferência de imprensa: "O exército ucraniano não está combatendo unidades regulares do exército russo". O que havia, isto sim, eram "cidadãos individuais" que eram membros de "grupos armados ilegais", mas não se tratava de uma invasão russa. Isto não foi noticiado. Vadym Prystaiko, vice-ministro das relações estrangeiras de Kiev, disse estar preparando uma "guerra total" contra a Rússia, uma potência nuclear.

 

Em 21 de fevereiro, o senador estadunidense James Inhofe, um republicano de Oklahoma, apresentou um decreto que autorizaria o fornecimento de armas ao regime de Kiev. Em sua apresentação no senado, Inhofe usou fotografias que ela alegava serem de tropas russas cruzando as fronteiras da Ucrânia, as quais há muito haviam sido denunciadas como falsas. Isto lembra as fotografias falsas de Reagan de uma instalação soviética na Nicarágua, bem como as provas fictícias apresentadas por Colin Powell à ONU da presença de armas de destruição em massa no Iraque.

 

A intensidade da campanha de difamação contra a Rússia e a descrição de seu presidente como um vilão de pantomima é diferente de tudo que já vi como repórter. Robert Perry, um dos mais distintos jornalistas investigativos dos Estados Unidos, que revelou o escândalo Irã-Contas, escreveu recentemente: "Nenhum governo europeu, desde a Alemanha de Adolf Hitler, pareceu propenso a despachar milícias de partidos nazistas para combater uma população doméstica, mas o regime de Kiev o fez, e o fez conscientemente. Não obstante, em toda a mídia/espectro político ocidental, houve um esforço cuidadoso para encobrir esta realidade, chegando ao ponto de ignorar fatos que tinham sido bem estabelecidos... Se você se perguntar como o mundo pode dar de cara com uma terceira guerra mundial - muito semelhantemente ao que fez na Primeira Guerra Mundial, um século atrás - tudo o que precisa fazer é olhar para a loucura sobre a Ucrânia, loucura esta que se mostrou inteiramente impermeável aos fatos e a toda racionalidade."

 

Em 1946, o promotor público no Tribunal de Nuremberg disse sobre a mídia alemã: "O uso que foi feito da guerra psicológica por conspiradores nazistas é bem conhecido. Antes de qualquer agressão significativa, com algumas exceções baseadas em conveniência, eles iniciavam uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer suas vítimas e para preparar o povo alemão psicologicamente para o ataque... No sistema de propaganda do Estado de Hitler, a imprensa diária e o rádio foram as armas mais importantes."

 

No Guardian de 2 de fevereiro último, Timothy Garton-Ash pediu, com todas as letras, uma guerra mundial. "Putin tem que ser detido", dizia a manchete. "E às vezes, somente armas podem deter armas." Ele reconhecia que a ameaça de guerra poderia "alimentar a paranoia russa de cerco", mas tudo bem. Em seguida, ele se refere especificamente pelo nome ao equipamento militar necessário para fazer o trabalho e adverte seus leitores de que a "América tem o melhor kit."

 

Em 2003, Garton-Ash, um professor de Oxford, repetiu a propaganda que levou à matança no Iraque. Saddam Hussein, escreveu ele, "tem armazenadas, conforme documentou [Colin] Powell, grandes quantidades de armas químicas e biológicas horripilantes, tendo escondido o que delas restou. Ele ainda está tentado obter armas nucleares." Ele elogiou Blair como um "intervencionista liberal gladstoniano cristão." Em 2006, ele escreveu: "Agora, nós estamos enfrentando o grande teste do Ocidente depois do Iraque: o Irã."

 

As irrupções - ou, como Garton-Ash prefere, a sua própria "ambivalência liberal torturada" - não são atípicas dos membros da elite liberal transatlântica que chegaram a pacto faustiano. O criminoso de guerra Blair é seu líder. O Guardian, no qual foi publicado o artigo de Garton-Ash, divulgou um anúncio de página inteira de um bombardeiro Stealth estadunidense. Junto à imagem ameaçadora do monstro da Lockheed Martin, figuravam as palavras: "O F-35. EXCELENTE para a Grã-Bretanha." Este "kit" norte-americano custa aos contribuintes britânicos 1,3 bilhão de libras, seus modelos-F predecessores tendo promovido matanças em todo o mundo. Sintonizado com seu anunciante, um editorial do Guardian exigia aumentos do orçamento militar.

 

Mais uma vez, há objetivo sério. Os governantes do mundo querem a Ucrânia não só como base de mísseis; eles querem a sua economia. A nova ministra das Finanças de Kiev, Natalie Jaresko, é ex-funcionária de primeiro escalão do Departamento de Estado dos Estados Unidos, encarregada do "investimento" ultramarino norte-americano. Ela recebeu a cidadania ucraniana a toque de caixa.

 

Eles querem a Ucrânia por causa de suas reserva abundantes de gás; o filho do vice-presidente Joe Biden é membro do conselho da maior companhia de petróleo, gás e fraturamento da Ucrânia. Os produtores de sementes geneticamente modificadas, companhias como a infame Monsanto, querem o rico solo agricultável da Ucrânia.

 

Acima de tudo, eles querem a poderosa vizinha da Ucrânia, a Rússia. Eles querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar a maior fonte de gás natural do planeta. Ao mesmo tempo em que derrete-se o gelo ártico, eles querem o controle do Oceano Ártico e de suas riquezas energéticas, bem como da longa fronteira terrestre ártica da Rússia. Seu homem em Moscou era Boris Yeltsin, um beberrão, que entregou seu país e sua economia ao Ocidente. Seu sucessor, Putin, reestabeleceu a Rússia como nação soberana: este é o seu crime.

 

A responsabilidade do restante de nós é clara. Identificar e denunciar as mentiras implacáveis dos negociantes de guerra e nunca conchavar com eles. É fazer despertar novamente os grandes movimentos populares que conferiram um pouco de civilização aos Estados imperiais modernos. E o mais importante é impedir que sejamos nós mesmos conquistados: nossas mentes, nossa humanidade, nosso respeito próprio. Se ficarmos calados, a vitória sobre nós está garantida, e um holocausto já acena para nós.

Tradução: Renato Aguiar

 


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