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Claude Lévi-Strauss vai fazer 100 anos em Novembro

16.08.2008
 
Claude Lévi-Strauss vai fazer 100 anos em Novembro

Hilan Bensusan
Professor adjunto da Universidade de Brasília,
Departamento de Filosofia,
doutor pela University of Sussex

Viver cem anos e ver tudo mudar. Lévi-Strauss ficou associado a uma movimentação em direção a um estruturalismo total – que permeou gente como Jean-Pierre Vernant, Jacques Lacan, Pierre Bourdieu, Luc de Heusch e, em certa medida, Michel Foucault – que tentava transpor, para além dos limites das diferenças na linguagem, o que Saussure tentara fazer. Tratava-se de procurar estruturas. Estruturas são padrões capazes de invadir fronteiras – por exemplo, aquelas estabelecidas em um tempo pré-estruturalista no ocidente. Fronteiras como civilizado-selvagem, humano-animal, escrito-gesticulado, sujeito-assujeitado, real-imaginário.


Lévi-Strauss não faz demolição de estruturas. Seu trabalho é o de um escavador, um garimpeiro. Seu trabalho etnográfico é o seu manifesto político acerca de como viver: veio ao Brasil em 1935 e ficou três anos colando e costurando mitos. Seu Tristes Tropiques virou então um manual de etnologia e sua etnologia virou um acento de pensamento, ou um lugar onde colocar o pensamento.


A política de Lévi-Strauss estava na prática etnológica. Nisso também ele contrastou com Sartre. Como disse Bourdieu uma vez, a política de Sartre era a do pensamento amplo com vocação para o que tem grande significado macroscópico enquanto a política de Lévi-Strauss estava no detalhe, na escolha do seu objeto. Para Bourdieu, a etnologia de Lévi-Strauss é um enorme manifesto anti-racista.


Na França, o estruturalismo foi uma marca de barômetro de muitos ventos no século XX ocidental; uma maneira de ver como a vida gradativamente se transformou desde 1908. Às vezes descrevemos os tempos depois de 1968 como pós-estruturalistas. E o pós-estruturalismo em filosofia foi um impacto: o impacto de Lévi-Strauss contra Sartre, das estruturas contra o sujeito, dos padrões supra-humanos versus as situações históricas, da morte do homem em contraste com o caráter sui generis da existência humana.


La Pensée Sauvage, em certo sentido, inaugurou os tempos pós-estruturalistas construindo uma polêmica com o sujeito a partir da etnologia. O estruturalismo foi um divisor de águas: pós-estruturalista é o pensamento que não começa no sujeito humano. Pós-estruturalista ficou uma parte do pensamento, por exemplo, na França, nos Estados Unidos e no Brasil depois de 68.


Pós-estruturalista significa muita coisa; ou apenas uma: ter sido afetado pela idéia de estruturas para além da civilização, para além do sujeito, para além do humano. Virou desconstrução, se entrelaçou com Nietzsche, procurou outras formas de textualidade.


Em alguns anos o cenário filosófico na França já parecia estar meio século distante da fenomenologia e do existencialismo dos tempos de L’être et le néant de Sartre. A picada estruturalista provocou um arrebatamento da imaginação filosófica para todos os lados: Derrida, Irigaray, Badiou, Guattari, Kristeva, Deleuze. Parece que o estruturalismo existiu para inaugurar outro continente.

Jorge ANTUNES

Ler original em: http://alternativa-unb.blogspot.com/

Fotos: J. Antunes com Claude Levi-Strauss


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