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Berlim, o outro lado de Eisenstein

16.02.2015
 
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Não há quem goste de cinema que não conheça o letoniano soviético Sergei Eisenstein, cuja obra maior foi o Encouraçado Potemkin, em 1925, seguida de Outubro, os dez dias que abalaram o mundo.

Em 1930, Eisenstein foi aos EUA a convite da Paramount para fazer um filme sobre o livro A Tragédia Americana, de Theodore Dreiser. O projeto abortou e, graças a Charles Chaplin, Eisenstein teve um contato com Upton Sinclair que o levou ao México para filmar Que Viva México, mas Upton Sinclair rompeu com o cineasta antes de terminar o filme e a produção foi interrompida, ao mesmo tempo que Stalin exigia seu retorno. Embora Sinclair devesse enviar o material rodado para Moscou, isso nunca foi feito, dando ensejo a algumas montagens diversas por outros cineastas.

Sergei Eisenstein é o personagem principal do filme Eisenstein em Guanajuato, do realizador inglês Peter Greenaway, conhecido por sua visão dinâmica e não convencional do cinema, cuja força é a rapidez das cenas, justaposições, colagens e uma total irreverência e ruptura com a maneira habitual de fazer filmes. Para ele "o cinema atual não tem proposições novas e a novas técnicas poderão fazer deslanchar o verdadeiro cinema".

Ao chegar no México, Eisenstein é recebido pelo pintores Diego Rivera e Frida Kaloh.

Depois de se documentar sobre Eisenstein, o cineasta Greenaway descobriu uma de suas afirmações de ter perdido a virgindade apenas aos 33 anos. E isso durante sua estada no México.

Eisenstein gozava, ao sair da URSS, total confiança do Partido Comunista, era a época em que sua preocupação com a Revolução de Outubro era apenas coletiva. Sua presença no México, levou-o, segundo o cineasta, à descoberta do indivíduo e do seu próprio corpo, que o levou à experimentação homossexual.

Provocador, Greenaway diz estar no meio cronometrado do filme, a cena de amor de Eisenstein, onde no centro iluminado de uma enorme sala e numa grande cama de casal, o cineasta soviético nu se deixa sodomizar pelo seu guia mexicano, numa longa cena de planos diversos. Teria sido essa a perda da virgindade do cineasta e seria também seu homossexualismo contraído no Ocidente (Eisenstein se casou e teve filho) a causa de ter caído em desgraça, durante quase dez anos, podendo só fazer a primeira parte do filme Ivan, o Terrivel, em 1945, a segunda parte foi censurada e a terceira não saiu do roteiro.

O homossexualismo, conta o filme, foi proibido pelo comunismo em 1936. Falando sobre seu interesse em fazer um filme sobre Sergei Eisenstein, o cineasta Greenaway conta: "em 1960, eu  era estudante em Londres e fiquei entusiasmado ao descobrir os filmes do cineasta soviético como Encouraçado Potemkin. Mais tarde, em 1990, vi o filme Greve, uma verdadeira obra de arte feita nos anos 20.

Nessa época, Eisenstein tinha apenas 25 anos e é incrível como um jovem pudesse ter criado uma obra tão completa e perfeita. Por diversas razões, acho que chegou o momento de se render homenagem a Eisenstein, mesmo porque senti que o cinema estava a morrer."

"Não houve nenhuma participação da Rússia na realização do meu filme, por problemas de censura e de comunicação. Tenho a intenção de fazer um segundo filme sobre Eisenstein e seria uma nova oportunidade para a Rússia participar com os filmes desse cineasta arquivados na cinemateca de Moscou. Como parece haver uma homofobia latente, seria importante se tratar francamente da questão, no que se refere a Eisenstein - por que a

Rússia não fez nenhum bom filme sobre Eisenstein?"

"Geralmente, diz Greenaway, quando mudamos de país podemos também mudar de comportamento e Eisenstein teria mudado seus conceitos, durante a estada no México, mesmo no que se refere ao materialismo dialético, que chegava a ironizar, e criticava a paranóia e a perseguição estalinista. Vivendo numa sociedade mexicana diferente ele se libertou e passou a se preocupar mais com a condição humana. Depois de Potemkin, Greve e Outubro o cineasta começou a se procupar com o indivíduo e não com o comportamento das massas".

"Eisenstein era conhecido não só como cineasta, mas como político, orador, dotado de muito humor, muito popular, que sabia se exprimir em cinco idiomas e foi importante nos anos 30 e 40, quando o cinema estava desenvolvendo sua linguagem e seu vocabulário".

"Não se pode esquecer que o filme gira em torno de Eros e Tanatos, do sexo e da morte, normal no México, onde os mexicanos se preocupam muito com a representação da morte".

Para Greenaway "o cinema é instrução e divertimento".

Rui Martins

 


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