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A melhor hora para morrer

14.09.2016
 
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Jesus Cristo, segundo a tradição cristã, morreu aos 33 anos. Fora dessa mitologia religiosa, outros grandes personagens, cujos registros históricos não trazem nenhuma dúvida sobre suas existências, morreram relativamente jovens para os padrões de vida atual.

Alexandre, o Grande, da Macedônia, como Cristo, também morreu aos 33 anos, depois de levar a cultura helenística para boa parte do mundo então conhecido, uns 300 anos antes da nossa era.

Marino Boeira

Napoleão Bonaparte viveu apenas 52 anos, suficientes para conquistar pela força das armas boa parte da Europa.

Lenin, que comandou a mais importante revolução do século passado, viveu 54 anos.

Mesmo o grande teórico do comunismo, Karl Marx, cujas fotos lembram um ancião, morreu aos 65 anos.

O que dizer então dos artistas?

Castro Alves, o poeta baiano do Navio Negreiro, morreu aos 24 anos.

James Dean, que seria o maior astro de Hollywood, no pós-guerra, viveu até a mesma idade de Castro Alves, 24 anos.

O grande escritor brasileiro, Graciliano Ramos morreu aos 60 anos

John Lennon, morreu aos 40 anos e Ernest Hemingway, apesar de viver até os 61, escreveu suas obras primas - Por quem os sinos dobram e o Velho e o mar - entre 40 e 50 anos.

Hoje, é comum as pessoas viverem até os 80, ou mesmo 90 anos.

O problema é se vale a pena.

Situado no topo da vida animal, o homem se distinguiu de seus ancestrais pela consciência que teve da sua existência. Isso permitiu que sua vida útil pudesse ser balizada por dois parâmetros: a possibilidade física de continuar cumprindo o papel primordial de todos os seres vivos, de perpetuar a sua espécie e a possibilidade mental de ter consciência de seus atos.

A medicina, pelo seu espetacular desenvolvimento, principalmente na segunda metade do século passado, tem conseguido prolongar a vida útil do ser humano por muitos anos, mas obviamente é incapaz de evitar o seu envelhecimento e morte.

Ocorre que, o envelhecimento físico e o mental não obedecem a mesma linha de tempo. Homens, já incapazes de cumprir sua função de conservação da espécie, são ainda mentalmente capazes de usar sua inteligência superior para realizar obras importantes para a humanidade.

O problema crucial é que essa usina de ideias, que funciona dentro do nosso cérebro e que aparentemente tem vida própria, está atrelada à sua base física.

O que chamamos de espírito humano não existe fora da matéria.

E como, embora as vezes pareça que prescinda dessa base material (as religiões vivem dessa suposição) ele sofre das doenças do corpo e vai se extinguindo aos poucos.

Então, assistimos essas pessoas perderem aquilo que as caracterizava como seres humanos, a consciência da existência e a capacidade de, com base em experiências passadas, elaborar projetos para o futuro.

São pessoas que se tornaram apenas corpos vazios, mantidos vivos por uma deturpação perversa da medicina, que atende, muitas vezes, apenas as expectativas dos outros (parentes e amigos) incapazes de se permitir um gesto de adeus definitivo.

No seu extraordinário romance O Drama de Jean Barois, Roger Martin du Gard, intuiu que seu personagem poderia estar condenado a se tornar também um morto vivo e se antecipou ao futuro, deixando um testamento, cuja primeira frase é: o homem que sou hoje aos 40 anos, deve prevalecer sobre o velho que serei um dia.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 


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