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Um conto (quase) inédito de Machado e outras preciosidades

14.04.2009
 
Pages: 12
Um conto (quase) inédito de Machado e outras preciosidades

 Adelto Gonçalves (*)

I

Escrito por Machado de Assis (1839-1908) para a revista A Estação e publicado originalmente em seis folhetins (30 de julho, 15 e 30 de agosto, 15 e 30 de setembro e 15 de outubro de 1879), o conto “Um para o outro” foi dado como perdido por muitos especialistas. Sabia-se de sua existência, mas pesava contra a sua localização que não constasse do acervo de obras raras nem de manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que seria o local natural onde deveria estar. Jamais incluído em qualquer antologia ou em edição de volume, foi preciso um trabalho de investigação que levou mais de seis anos para que o professor e pesquisador literário Mauro Rosso o localizasse depois de quase 130 anos de “desaparecimento”.

Foi no acervo pessoal de José Galante de Souza (1913-1986), professor, pesquisador e autor de obras fundamentais para a compreensão do pensamento machadiano, como Bibliografia de Machado de Assis e Fontes Para o Estudo de Machado de Assis, que Rosso encontrou o que procurava em meio a recortes, excertos, fragmentos e anotações variadas. Como pesquisador, Galante trabalhou para o Instituto Nacional do Livro e na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, o que explica por que seu acervo está lá, embora ainda em fase de organização.

Dessa maneira, “Um para o outro” encontra-se agora, finalmente, à disposição do público-leitor, ao lado de outros textos de Machado de Assis que dormiam o sono solto dos arquivos cariocas, inclusive o primeiro publicado pelo autor, “Três tesouros perdidos”, localizados e reunidos após exaustiva investigação em Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés (Rio de Janeiro: PUC-Rio/São Paulo: Edições Loyola, 2008). Além do conto “desaparecido” e daquele que marca a estréia do autor, há mais dois de restrita ou esparsa publicação: “Uma partida”, nunca antes publicado na íntegra em coletâneas contemporâneas; e “Bagatela”, sobre o qual pairam dúvidas quanto a ser tradução de uma narrativa originalmente em francês ou criação machadiana.

As narrativas curtas de Machado de Assis, porém constituem apenas a primeira parte do livro, depois de uma alentada introdução de 20 páginas do organizador. O segundo bloco reúne informações detalhadas sobre todos os 226 contos escritos pelo autor, numa inédita reconstrução bibliográfica da obra machadiana em matrizes-raisonnés. Em outras palavras: para quem desconhece, é preciso que se diga que raisonné, como explica Rosso, é a listagem descritiva e anotada da bibliografia de um ou vários autores, podendo organizar-se por áreas temáticas.

Os contos estão listados em ordem alfabética de seus respectivos títulos, o que permite um retrato completo, peça por peça, dos veículos e datas de publicação original e das sucessivas antologias e coletâneas, seqüenciado pela catalogação em ordem cronológica (ano de publicação original), por periódico (jornal, revista ou almanaque), por coletâneas e – documentação inédita, porque completa – por pseudônimos e as várias assinaturas utilizadas à exaustão por Machado de Assis.

Se, como observou no prefácio Eliana Yunes, ensaísta, crítica e professora de literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a grande contribuição do livro está nessa reconstrução do histórico bibliográfico dos contos machadianos consubstanciado nas matrizes-raisonnés, não se pode deixar de ressaltar que Rosso desenvolveu um trabalho de fôlego e paciência que revela um pesquisador extremamente dedicado e atento. E oferece subsídios para novos estudos sobre a evolução literária machadiana e seu desenvolvimento como criador de narrativas curtas ao longo de quase cinco décadas, ao mesmo tempo em que mostra textos importantes na produção machadiana que ainda não haviam sido levados em conta até aqui por estudiosos e especialistas.

Sem contar que promove algumas correções, ao excluir, por exemplo, “O sermão do diabo” e “A cena do cemitério” do elenco de contos para defini-los como crônicas, além de advertir para a possibilidade de que “Madalena”, que sempre foi tido como conto, embora leve mais o jeito de novela, seja tradução de algum original em francês de autor não identificado. Já quanto a “Bagatela”, para o investigador, os indícios são de que tenha saído mesmo da pena do chamado bruxo do Cosme Velho, embora já tenha sido apontado como tradução.

II

É claro que a maior atenção recai sobre “Um para o outro”, publicado em 1879, ano do auge do auge da inflexão machadiana dentro de seu processo de evolução literária. É, porém, texto que se mantém no diapasão dos valores estético-literários do Romantismo, tanto em sua forma como em sua estrutura, embora antecipe uma visão de mundo que Machado de Assis desenvolveria na maioria de seus contos e romances da fase realista: “a do conformismo dos amores não-realizados e a aceitação/submissão dos protagonistas ao destino que lhes fora traçado”, como bem observa Rosso.

De assinalar é que a edição deste e dos demais contos vem acompanhada de notas de rodapé assinadas pelo compilador que são de extrema valia para a compreensão de alguns detalhes datados que ao leitor comum passariam despercebidos, tal a distância do tempo que nos separa dos acontecimentos subjacentes aos fatos narrados.

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