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Entrevista com Leandro Konder - “Precisamos recuperar a garra do velho Marx”

13.10.2008
 
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Entrevista com Leandro Konder - “Precisamos recuperar a garra do velho Marx”

 BoletimNPC - Quando pensamos em fazer essa entrevista com o senhor estávamos próximos do dia 1° de maio e elaboramos algumas perguntas relativas a essa data. A primeira, por exemplo dizia respeita ao sentido da palavra trabalhador. Geralmente quando se diz que fulano é trabalhador, a expressão traz uma carga de sentidos positivos. Também faz parte do imaginário da esquerda o sujeito trabalhador que carrega em si todas as possibilidades de transformação. De onde o senhor considera que vêm esses sentidos?

Leandro Konder - É uma longa história. Na verdade, a palavra trabalho, que antecede trabalhador, vem do latim e era um instrumento de tortura. Era um utensílio que tinha três pés de madeira – tripária - para castigar os escravos que tentavam fugir. Os escravos eram amarrados a essa tripária e sofriam muito.

Posteriormente a palavra mudou de sentido e começou a difundir um significado positivo com os teóricos cristão-protestantes. Eles começaram a teorizar e a dizer: “o trabalho redime o ser humano, o trabalhador está envolvido em um clima de santidade”. E aí veio um terceiro momento. Então, o primeiro momento é o trabalho como tortura. No segundo momento, o trabalhador é honrado por ser o homem que realiza a superação dos problemas presentes, de uma maneira meio mística.

E o terceiro momento é o que diz que o trabalhador não é uma figura que precisa de exaltação. Também não tem nada a ver com aspectos desagradáveis da atividade física chamada trabalho. O trabalhador é um homem que trabalha e vai além do trabalho porque ele leva com ele a disposição de luta para superar o que está aí, funcionando do jeito que está. Nós não podemos invejar os trabalhadores porque eles são explorados, oprimidos, mas também temos que olhar para eles com esperança de que eles realizem uma transformação social importante.

BoletimNPC - Essa esperança nos trabalhadores ainda existe hoje?

Leandro Konder - Ela existe, mas está muito machucada, muito sofrida porque a crise das experiências socialistas na prática tem um efeito mais devastador, sem dúvida, do que o questionamento teórico ao qual foram submetidas as idéias socialistas.

As teorias socialistas foram severamente atacadas por gente até competente, mas resistiram bem. Agora, o fim da União Soviética, as transformações que estão acontecendo na China, são coisas que têm o efeito muito grave.

Aí é difícil acreditar, mas se a gente acompanhar direitinho o trabalho feito por [Karl] Marx no Capital, ou se a gente discutir e esclarecer o que Marx escreveu neste livro, vamos perceber que nem tudo está perdido, tem coisas muito importantes que estão vivas aí. No momento essas coisas não são divulgadas porque o clima psicológico que nós estamos vivendo é muito ruim.

Mas existe também o Marx filósofo, que não depende da discussão sobre as formas de opressão e de exploração. O Marx filósofo tem idéias sobre o que é a história, o que é o ser humano, que são idéias bem importante. O encontro de Marx com os trabalhadores hoje pede uma complementação, uma correção teórica que nós ainda não conseguimos fazer. Estamos devendo isso, não podemos nos limitar a repetir Marx, o que ele disse e escreveu, nós temos que pensar em recuperar a radicalidade e a combatividade de Marx, recuperar isso recriando em condições diferentes das quais Marx trabalhou.

O Carlos Nelson Coutinho dizia uma coisa interessante: “no partido ensinaram para a gente que a pior coisa do mundo era o revisionismo. O revisionismo matava a ideologia, matava a teoria da revolução proletária, matava Marx, matava o espírito revolucionário radical, então, o revisionismo era abominável. Mas agora estamos dependendo de um revisionismo de novo tipo, não para destruir Marx, pelo contrário, para exibir Marx”.

BoletimNPC - Para retomá-lo?

Leandro Konder - Para vê-lo usado pela classe média, pela pequena burguesia, por alguns intelectuais desanimados, decadentes, pessimistas. Precisamos recuperar aquela garra do velho Marx, isso de maneira revisionista, porque senão a gente não sai da sombra dele. Marx é um escritor muito poderoso, muito vigoroso. Com certeza, se estivesse vivo ele diria para radicalizar isso aí.

BoletimNPC - A Revista Veja fez uma reportagem sobre o marxismo, dizendo que era uma teoria ultrapassada...

Leandro Konder - A Veja é abominável, né...

BoletimNPC - Por que esse medo todo do marxismo?

Leandro Konder - É um medo herdado do século XIX. O negócio ficou preto porque de repente a burguesia sentiu que estava enfrentando um adversário poderoso. Aconteceu no final do século XIX. Marx não viu isso, já tinha morrido; mas Engels viu, criaram-se os primeiros partidos de massa na Europa, o partido socialista italiano, o partido socialista francês, o partido social-democrata dos trabalhadores alemães e o Labour, inglês, que é o único que não é marxista. Esses partidos assustaram a burguesia, mas eu acho que o susto maior veio em 1917 quando os leninistas tomaram o poder. Aí já era uma coisa concreta, não era um programa de transformação, era um programa de administração de um aparelho de Estado conquistado.

BoletimNPC - O senhor comentou que estamos em uma época difícil, é a mais difícil pela qual o senhor já passou?

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