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Adelto Goncalves faz palestra em Quito

13.06.2019
 
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Adelto Goncalves faz palestra em Quito

QUITO - O jornalista e escritor Adelto Goncalves participou, ontem (segunda-feira) a noite, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrion, em Quito, com o escritor Rogerio Pereira, ex-diretor da Biblioteca Publica do Parana e editor do jormal mensal literario Rascunho, que contou com a moderacao do poeta Santiago Estrella, jornalista do diàrio El Mercurio.

O encontro foi promovido pela Embaixada do Brasil em Quito e contou tambèm com a presenca do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Goncalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa, Bocage e Tomas Antonio Gonzaga. Jà Rogerio Pereira abordou a relacao entre literatura e jornalismo como espacos confluentes. 

De Fernando Pessoa, destacou que o ensaio "O ideal politico de Fernando Pessoa", que consta de seu livro "Fernando Pessoa: a Voz de Deus" (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em "Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundacao Cultural Brasil Portrugal, 1986), teve uma trajetòria interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaista Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro "Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935" (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edicao. 
Na introducao que escreveu para esta segunda edicao, De Cusatis lembra que o fato de o ensaista ter mostrado que o pensamento de Pessoa passava longe das hostes esquerdistas desagradou ao escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), tradutor da obra de Pessoa para o italiano.

Em artigo publicado no diario Corriere dela Sera, de Milao, em 31 de maio de 2001, Tabucchi acusou De Cusatis de se basear num ignoto brasiliano (brasileiro desconhecido), como se le a pagina 24 da edicao atual de Politica i Profezia. 
De Cusatis lembrou que "Adelto Goncalves è um ensaista de prestigio e critico, autor de uma biografia critica do poeta portugues Tomas Antonio Gonzaga publicada em 1999 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro". 


Durante a apresentacao, Goncalves lembrou que Fernando Pessoa se definiu como "um conservador ao estilo ingles, isto è, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionario". Mais: Pessoa era contra o comunismo, o socialismo, o catolicismo e o revolucionarismo. Mas nunca fez a defesa explìcita da escravidao. "Seria um anarquista utòpico, mas de direita, tal como se autodefiniu certa vez Gilberto Freyre.

Defendia, porèm, que havia um imperialismo da cultura, ou seja, certos povos exerciam influencia sobre outros. Como exemplo, citava a Franca", disse, lembrando que esta posicao politica do poeta tem despertado protestos de intelectuais africanos para a decisao da Comunidade de Paises de Lingua Portuguesa (CPLP) de dar o nome de Fernando Pessoa a um programa de bolsas para estudantes. E que seria melhor optar por um nome mais consensual, como o poeta mocambicano Jose Craveirinha (1922-2003), Premio Camoes de 1991, filho de pai algarvio e de mae ronga. 


Depois de fazer referencia a escritores equatorianos como Jorge Icaza e Jorge Enrique Adoum, Goncalves destacou principalmente a vida de Tomas Gonzaga, lembrando que, em Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), corrigiu a informacao do professor portugues Rodrigues Lapa segundo o qual o poeta, no exilio na Ilha de Mocambique, casara com a "herdeira da casa mais opulenta de Mocambique em negocios da escravatura" e dedicara "as horas vagas ao rendoso comercio de escravos". 


"De fato, Gonzaga casou em 1793 com Juliana de Franca Mascarenhas, de 18 anos de idade, filha de Alexandre Mascarenhas, que era escriváo e subordinado do poeta na estrutura judiciaria da comarca local. Mais: Mascarenhas morreria em 1793 e, portanto, Gonzaga nao teria tempo de ajudar o sogro a aumentar a fortuna", disse. ªAlem disso, Mascarenhas era pessoa de poucas posses: tinha uma casa na ilha e outra no continente fronteiro que obtivera pelo casamento. Ressaltei tambem que nas edicoes da Gazeta de Lisboa, de 1792 a 1810, Gonzaga, autor de Marilia de Dirceu, so seria superado em numero de citacoes por Bocage, que sempre viveu em Lisboa, com excecao dos quatro anos (1786-1790) que passou entre Rio de Janeiro, Goa, Damao e Macau", acrescentou. 
De Bocage, Goncalves destacou que, em Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), provou com documentos que o poeta náo nasceu na rua de Sao Domingos, atual Edmond Bartissol, em Setubal, mas sim numa casa localizada a rua das Canas Verdes, atual Antonio Joaquim Granjo.  


"Essa casa a mae de Bocage herdara do pai, o corsario frances l'Hedois du Bocage. Em 1771, o pai de Bocage, Josè Luis de Barbosa, ouvidor em Beja, seria acusado de desviar a arrecadacao da dècima, sendo preso na cadeia do Limoeiro ate 1777. A casa, sequestrada, iria a leilao em 1800. Da documentacao referente a rua de Sao Domingos, no Arquivo da Torre do Tombo, nao ha registro de que alguma familia Bocage ou Barbosa tenha residido naquela casa. Ate hoje, porem, a Camara Municipal de Setubal nao se resolveu a adquirir o imovel da verdadeira casa onde nasceu Bocage. E corrigir uma informacao falsa de quase seculo e meio", concluiu.

 


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