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Bilac, um jornalista bom de briga

12.01.2008
 
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Bilac, um jornalista bom de briga

Adelto Gonçalves (*)

I

O poeta Olavo Bilac (1865-1918), a exemplo de outros parnasianos, foi condenado ao ostracismo depois que as idéias que redundaram na Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, insufladas pelos ventos que vinham da Europa, afirmaram-se na sociedade brasileira. Seu nome passou mesmo por sinônimo de passadismo, formalismo, oficialismo e alienação.

E seus versos tornaram-se alvo de chacotas, tal como a produção de outros poetas que, ao seu tempo, o tiveram como paradigma. De fato, os versos bilaqueanos, hoje, são velharias que só atraem estudiosos e um ou outro leitor interessado em conhecer a história da Literatura Brasileira.

Mas o que, geralmente, não se sabe é que, além de autor de versos grandiloqüentes e enxundiosos, o “príncipe dos poetas brasileiros” foi cronista de excepcionais qualidades. Basta ver que, a partir de março de 1897, foi quem teve a responsabilidade de substituir o genial Machado de Assis (1839-1908) nas páginas da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. E o fez com igual brilho, a tal ponto que muitas de suas crônicas parecem mesmo saídas da pena do bruxo do Cosme Velho.

Quem tiver dúvidas já pode compará-las sem ter de remexer papéis velhos nos arquivos, pois o professor Antonio Dimas, da Universidade de São Paulo, acaba de lançar Bilac, o jornalista em que reuniu em dois extensos volumes a maior parte das crônicas bilaqueanas saídas em jornais e revistas do final do século 19 e início do 20. Num terceiro volume, o de menor extensão, com prefácio do professor Alfredo Bosi, o organizador reuniu dez excepcionais ensaios em que mostra que o Bilac cronista pouco tinha do poeta indiferente às necessidades cotidianas, imagem que ficou por conta da revisão histórica comandada pelos modernistas.

Ainda que seus versos possam dar a falsa impressão de que viveria romanticamente nas nuvens, Bilac sempre usou a tribuna de que dispôs na imprensa para expor suas idéias (às vezes, equivocadas) e combater o que entendia que poderia representar entraves ao desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, e do Brasil.

II

Lembra Dimas que seu objetivo não foi o de atribuir a Bilac múltiplas personalidades profissionais ou versatilidade inesgotável, aumentando-lhe a importância, mas mostrar outras facetas hoje praticamente desconhecidas de quem a história estigmatizara como poeta oficial tão-somente.

De fato, depois de começar a carreira como poeta parnasiano, Bilac como homem público terminaria seus dias como baluarte de causas cívicas de interesse nacional, como a defesa do serviço militar obrigatório, e defensor da reurbanização do Rio de Janeiro e da renovação de hábitos sociais e comportamentos políticos.

Chegou ao ponto, como empreendedor, de criar em Paris uma agência para a divulgação de produtos brasileiros na Europa. Nessa tarefa, aliás, teve a colaboração do médico e também poeta parnasiano Martins Fontes (1884-1937). Depois, magoado com acusações de que se teria valido de recursos públicos para essa tarefa, fechou as portas da agência e retornou ao Rio de Janeiro.

Solidário com seus pares, Bilac nunca deixou de defender o escritor como categoria profissional. Se hoje ainda é comum a existência de pequenos editores que escamoteiam números e adiam o quanto podem a prestação de contas, imaginem o que seria há mais de um século.

A essa época, era famoso no Rio de Janeiro o editor Baptiste Louis Garnier (1823-1893), ou apenas B.L.Garnier, não só pela qualidade dos autores que publicava, mas também porque teria explorado descaradamente escritores como Gonçalves Dias (1823-1864), José de Alencar (1829-1877), Casimiro de Abreu (1839-1860), Álvares de Azevedo (1831-1852) e Aluísio Azevedo (1857-1913), entre outros, a tal ponto que era mais conhecido como o Bom Ladrão Garnier.

Bilac não deixaria de assinalar que a outra editora famosa da época, a Laemmert, não ficava atrás na arte de esbulhar escritores. Estabelecidos no Rio de Janeiro, esses editores europeus, supostamente, passavam-se por beneméritos do ainda incipiente mercado editorial brasileiro.

Numa crônica publicada na revista A Bruxa, em janeiro de 1897, exumada por Dimas, Bilac lembrava que, se outros profissionais, como o sapateiro, o advogado, o médico e o alfaiate, dispunham de leis que lhes asseguravam a plena posse dos seus direitos, não havia sentido em que o escritor continuasse à mercê da vontade ilimitada do capitalista que adquirira, geralmente, por uma ninharia, o direito de publicar em primeira mão a sua produção intelectual, fazendo-o depois indefinidamente à revelia do autor.

Bilac sabia cobrar por seu trabalho para a imprensa à base de colaborações, tornando aquilo uma atividade profissional por quase duas décadas, que se não o tornaria rico, pelo menos servia para cobrir despesas mais prementes, a exemplo do que fizera décadas antes Camilo Castelo Branco (1825-1890) no Porto.

III

Observa o professor Dimas que, das muitas crônicas que Bilac deixou sobre o teatro, a grande maioria incide sobre aspectos práticos e não estéticos, lembrando que o cronista ia quase todos os anos a Paris, de onde trazia como referência o que via nos teatros franceses, cujas companhias, vez por outra, aportavam no Rio de Janeiro.

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