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Berlim - Filme ridiculariza o machismo católico ortodoxo na Macedônia

11.02.2019
 
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Berlim - Filme ridiculariza o machismo católico ortodoxo na Macedônia 

Depois do anticlerical Graças a Deus, do francês François Ozon, o Festival Internacional de Cinema reincide com outro filme de crítica à religião, e, desta vez, o alvo é a Igreja Ortodoxa da Macedônia. Uma festa, na data da Epifânia, que consiste no desafio de recuperar  uma cruz lançada ao rio pelo padre local, caiu no ridículo, pois pela primeira vez, em toda Macedônia, foi uma mulher a mais rápida, desencadeando uma reação machista.

 

Se existe Deus, não é masculino mas feminino

 

Todos os anos, a tradição ortodoxa, na Macedônia, é a de lançar ao rio uma cruz no rio mais próximo. Quem consegue mergulhar e achar o símbolo cristão no fundo do rio pode guardar a cruz, com o valor de amuleto capaz de dar sorte. Porém, ninguém esperava que, em 2014, uma mulher de 32 anos, Petrunyia, desempregada, com diploma superior em História, mergulhasse junto com os rapazes da região e recuperasse a cruz, desencadeando uma vaga machista, envolvendo não só os rapazes derrotados mas igualmente a Igreja, a polícia e a própria justiça

 

A realizadora macedônia Teona Struger Mitevska se inspirou desse episódio, publicado nos jornais da época mas abafado pelas autoridades civis e religiosas, para fazer um filme de denúncia do caráter machista daquela comemoração popular da Epifânia, destinado a fazer muito mais vagas e provocar muito mais escândalo na 

Macedonia e nos países ortodoxos, que o fato ocorrido há cinco anos.

 

Segundo a realizadora Teona, o ocorrido provocou na época uma simples pequena notícia no jornal local, na rubrica fatos diversos, mostrando o comprometimento da imprensa com os poderes político e religioso da região, além de ter sido demitida a única jornalista ativa na divulgação desse episódio pela televisão.

 

Por uma razão principal, o filme Deus Existe, Seu Nome é Petrunyia foi até agora o mais aplaudido pelos críticos, viveu um standing ovation no momento da entrevista coletiva da realizadora e atores do filme com a crítica, e a atriz principal Zorica Nusheva, no papel de Petrunyia, é a mais cotada para o Urso de melhor atriz.

 

Mais do um previsível sucesso internacional, num momento em que até a Berlinale divulga um documento criando uma paridade entre os filmes de gênero, são as previsíveis repercussçoes do filme nos países dos Balcâs, onde as mulheres ainda estão longe de um acesso à igualdade com homens, não apenas entre os ortodoxos como entre os muçulmanos.

 

A realizadora Teona Struger Mitevska, uma feminista convicta, como se reafirmou no encontro com a crítica, tomou praticamente como missão pessoal, denunciar com seu filme a situação inferior das mulheres no seu país e nos Balcãs em geral, com o objetivo de ajudar numa mudança dessa situação entre os jovens macedônios.

 

A jovem Petrunyia, causadora do escândalo e inspiradora do filme, deixou a Macedônia faz algum tempo e vive atualmente em Londres. Ausente na apresentação do filme, imagina-se que poderá vir a Berlim, caso haja uma premiação.

 

Na sinopse do filme, a Berlinale destaca - ¨Teona Strugar Mitevska faz uma sátira raivosa mas melancólica, denunciando que o mergulho religioso para celebrar a Epifania é um assunto de homem. Mas desta vez é Petrunya quem recupera a santa cruz das águas geladas. Contra todas as pressões, ela defende seu triunfo. Uma sátira sobre a mudança democrática na sociedade macedônia que transmite um severo julgamento aos representantes da igreja, do judiciário e da mídia. As simpatias do filme são todas com a mulher determinada que se posiciona contra as tradições arcaicas e o oportunismo paralisante¨.

 

Rui Martins, de Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

 


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