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A Evolução da Política Cultural dos Bolcheviques e a Pintura na União Soviética: Da Liberdade ao Monolitismo do Realismo Socialista [1917-1934]

10.11.2006
 
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A Evolução da Política Cultural dos Bolcheviques e a Pintura na União Soviética: Da Liberdade ao Monolitismo do Realismo Socialista [1917-1934]

João Lopes

João Lopes, formado em filosofia e autor do livro Adeus ao Stalinismo é membro do CEI- Comitê Executivo da LIT-QI e militante de Ruptura/FER, organização portuguesa que integra o Bloco de Esquerda. Neste artigo, Lopes rebate as acusações, infelizmente hoje freqüentes, de que o chamado realismo socialista da época de Stalin nada seria do que uma mera continuação da política bolchevique desde 1917.

A poderosa campanha das forças ideológicas do capitalismo contra a Revolução Russa a os bolcheviques sempre incluiu a questão da arte à guisa de algo que traria gravadas "ab ovo" as marcas da tentação totalitária. Ela estaria logo nas idéias estéticas de Lenine e a política cultural dos bolcheviques apenas teria sofrido mudanças de quantidade até ao aparecimento do realismo socialista em 1934 (1).

Ainda há poucos anos uma monumental exposição de pintura sobre "A arte e a ditadura" tinha lugar em Viena a dava uma linha de continuidade à pintura soviética dos anos 20 a 30 à luz do realismo socialista, ignorando intencionalmente o importante papel das diferentes correntes da vanguarda russa no quadro da política libertária de Lunatcharsky.

O historiador de arte Lionel Richard comentava então lucidamente a manobra dos organizadores dessa exposição: "Por ser provar a todo o custo que há traços permanentes durante todo o período de Stalin entre 1924 e 1953, não se deforma acenas a história deforma-se também a história da pintura..Com efeito, a aurificação das associações de artistas e a reorganização da vida artística. Implicando as palavras de ordem impostas e adequadas [pelo poder] data apenas de 1932. A intenção do realismo socialista dá-se em 1934. Portanto, teria sido mais compreensível mostrar o tipo de pintura que ainda era possível em 1925 e 1934 e, a seguir, aquilo (isto é, o tipo de pintura acadêmica oficial do realismo socialista) que iria se impor. Um dogmatismo cego decidiu organizar a exposição de outra forma” (2)

No princípio da década de 30, a liberdade e a pluralidade de correntes pictóricas ainda se fazia sentir na União Soviética. O predomínio dos realistas do AkhRR (Associação dos Artistas da Rússia Revolucionária) ainda comportava, por um lado, cisões internas como o grupo Outubro e a RAPKh (Associação Russa de Artistas Proletários) mais propensas à variedade estilística da arte proletária, e, por outro lado, um amplo arco de grupos que se lhe opunha, corno o OST e o Círculo (admissão do tratamento formal das temáticas hodiernas a revolucionárias), como a Sociedade das 4 Artes e a Sociedade dos Artistas de Moscou (refratários à "ideiinost" - arte de tendência - e aos temas do realismo comprometido, a cultores das variantes formalistas do modernismo ocidental a russo) ou como Filonov a os seus discípulos (comprometimento integral com o refinado esteticismo da vanguarda russa) (3).

Todavia, o espaço já estava a encerrar-se perigosamente. Lunatcharsky, cabeça da política artística dos bolcheviques desde a Revolução de Outubro, demite-se em 1929 na seqüência da pressão dos dogmáticos da AkhRR a dos quadros culturais do Partido Bolchevique. Os VkulTelns (Alto Instituto Artístico-Técnicos) de Moscou e Leningrado onde se concentrava a maior parte da vanguarda com Tatline a Malevitch à frente, são fechados em 1930.

Malevitch, regressado recentemente de uma "tournée" a Berlim a Varsóvia, é detido durante três messes a interrogado sobre o formalismo da sua arte em 1930. A dissolução das correntes artísticas e o monolitismo do realismo socialista estavam prestes a sufocar as liberdades artísticas dos anos 20.

Conscientes de que, tal como o ser de Aristóteles, também a reescrita da revolução Russa se diz de muitas maneiras (desde o "Livro Negro do Comunismo" a exposições de pintura aparentemente inocentes e a livros sobre a política cultural dos bolcheviques), procuremos dar um pequeno a introdutório contributo para esclarecer a evolução dessa política cultural, sobretudo na sua relação com a pintura.

A Revolução de Outubro ou pintura em liberdade

Embora obrigados a restringir as liberdades democráticas e o pluripartidarismo soviético devido à guerra civil e à intervenção de vários exércitos dos países imperialistas em solo russo, os bolcheviques promoveram logo a liberdade cultural. Neste campo, a sua política foi essencialmente desenvolvida por Lunatcharsky, figura bastante querida nos meios revolucionários, ideologicamente eclética a dotada de uma formação artística que ia desde o realismo novecentista dos "itinerantes" ao radicalismo do "Proletkult" e ao modernismo europeu (impressionismo-cubismo). futurismo...).

A sua orientação foi pautada pela liberdade de criação a pela pluralidade de correntes, o que, ainda assim, lhe valeu ataques dos mais variados quadrantes ideológico-artísticos. Contra os futuristas, o "Proletkult" e o próprio Malevitch, Lunatcharsky põe em prática a proteção da herança artística do passado e recruta mesmo figuras conservadoras como Benois para lugares destacados. Contra os "comunistas-futuristas" e o "Proletkult" que furiosamente se digladiavam a chamavam a si a orientação autoritária da vida artística do país, Lunatcharsky apoiava as mais variadas correntes a nem sequer discriminava os "itinerantes" (ala do realismo acadêmico que chocara com a Revolução de Outubro, que iria progressivamente recuperar o seu papel a partir de 1922 a estará na origem do realismo socialista).

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