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Música e sociedade no período joanino

09.03.2009
 
Pages: 1234
Música e sociedade no período joanino

Adelto Gonçalves (*)

I

De 1808 a 1821, o Rio de Janeiro foi o único centro urbano do Novo Mundo a conviver com práticas de corte e seus protagonistas, já que antes disso nunca uma família real havia colocado os pés em suas colônias. Para recuperar o que foi esse tempo e, principalmente, para refazer os caminhos da música no Brasil na época do príncipe regente d. João (1767-1826), por meio da história da formação do gosto musical brasileiro e de seu entorno, foi que o historiador Maurício Monteiro escreveu A Construção do Gosto – música e sociedade na corte do Rio de Janeiro 1808-1821, originalmente sua tese de doutoramento na Universidade de São Paulo, que acaba de ser lançada pela Ateliê Editorial, de Cotia-SP.

Professor da Universidade Anhembi-Morumbi, de São Paulo, e do curso de pós-graduação em Cultura e Arte Barroca da Universidade Federal de Ouro Preto-MG, Monteiro, em seu trabalho, expõe o que foi o encontro da sofisticada música trazida pela corte portuguesa, ou seja, o classicismo de vanguarda de Mozart (1756-1791) e Joseph Haydn (1732-1809), por exemplo, e os novos gêneros musicais como música de concerto e óperas, com as já existentes no Brasil colônia, isto é, o rico barroco mineiro e os ritmos africanos. “O que importa aqui é perceber como as atividades musicais, aquelas que vieram e aquelas que já existiam por esses trópicos, desenvolveram-se, amalgamando-se, articulando-se ou criando outra”, como observa o autor.

Para tanto, Monteiro constatou a existência de uma trindade de músicos da corte joanina que se tornou o sustentáculo da espiritualidade e do divertimento social, da moral e dos costumes cortesãos, das necessidades e das possibilidades do gosto no Brasil. “Um era diferente do outro, mas viveram num sistema de trocas culturais”, diz Monteiro.

Marco Antônio Portugal (1762-1830) foi o representante do estilo italiano, embora tivesse nascido português. Já Sigismund Neukomm (1778-1758), aluno de Haydn, foi o classicismo vienense, embora tivesse vivido muito tempo na França. E o padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), mulato, foi a única possibilidade e o possível resultado tropical, embora nunca tivesse saído do Rio de Janeiro. “Em termos gerais”, diz o autor, “foram os três compositores de maior popularidade da sociedade carioca, foram os que mais prestígio tiveram junto ao príncipe e à família real”.

II

Até a chegada da família real, diz o autor, predominaria no Rio de Janeiro e no Brasil a ideia de que a atividade musical era uma tarefa mecânica, indigna de um homem branco. E que, portanto, não se tinha o músico como artista, mas como artesão, ainda que muito habilidoso. Com a chegada da corte, segundo Monteiro, esse pensamento ter-se-ia alterado, a partir do momento em que regras de “bem-viver” ou cartilhas de bom-tom começaram a proliferar, incluindo a música, que passou a ser vista sob a ótica da etiqueta e do gosto.

Mas isto não é bem assim. Não é certo que a música fosse atividade só de negros e mulatos. Essa é uma bobagem repetida por muitos historiadores e Monteiro a deve ter lido num desses trabalhos. Se tivesse lido O Rio de Janeiro setecentista (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004), do arquiteto Nireu Cavalcanti, que não consta da bibliografia do seu livro, teria percebido que o mestre-capela Antônio Nunes de Siqueira, membro da Academia dos Seletos e da Academia Real da História Portuguesa, que depois entrou no sacerdócio, era branco, músico dos bons e figura importante na sociedade carioca (p.182). Aliás, da página 179 a 184 de seu livro, Cavalcanti relaciona vários músicos brancos (alguns seriam amadores porque não precisavam da música para sobreviver) que se apresentavam no Rio de Janeiro antes da chegada da família real.

Segundo Cavalcanti, era músico (amador) também o médico Francisco Correa Leal bem como seus filhos. Formaram eles um dos grupos que tocaram quando da chegada de dom João. A verdade é que havia músicos brancos, pretos e mulatos, mas, como foi o padre mulato José Maurício quem mais se destacou, historiadores apressados concluíram que era depreciativo ser músico no Rio de Janeiro colonial. Não era.

É claro que a chegada da corte fez crescer o movimento musical no Rio de Janeiro. Até cantores castrados (castratti) foram trazidos da Itália para interpretar árias e obras sacras, como ocorria em Lisboa e nas demais capitais europeias. Monteiro observa, porém, que, mesmo ditando preferências de estilo, a realeza e os reinóis recém-chegados não vieram a anular as já existentes, o que deixou espaço para a criação de novas práticas artísticas e culturais. Até porque, saindo às ruas, o que esses cantores e compositores ouviam, ainda que involuntariamente, eram os sons de batuques.

Nas duas primeiras partes do livro – “Música e Historiografia” e “O Gosto e o Costume” --, o autor traça um panorama da construção do gosto musical no Rio de Janeiro no começo do século XIX. Já em “Um lugar seguro nos trópicos” apresenta o impacto e as transformações artísticas e socioculturais que o Rio de Janeiro começou a sofrer a partir da presença da corte. Também aborda a música dos escravos africanos e dos indígenas e o seu entrecruzamento com a cultura europeia. Em “A música na sociedade da corte” mostra, entre outros temas, as associações religiosas leigas e irmandades que eram “as maiores fornecedoras e consumidoras” de artes no Brasil antes da chegada da corte.

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