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Resenha do livro Muralhas da Linguagem, de Vito Giannotti

07.11.2008
 
Resenha do livro Muralhas da Linguagem, de Vito Giannotti

O comunicador social e escritor Vito Giannotti analisa as relações sociais sob o enfoque da linguagem usada pelas pessoas, de acordo com a classe social a que pertencem: quanto mais poder econômico ou político existe num determinado grupo social, mais poder ele tem de defender os próprios interesses. Este é o conceito de hegemonia aplicado à comunicação.


O autor refere a obra Casa grande e senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, para explicar diferenças de cultura e de modos de expressão, com mundos incomunicáveis, maneiras de viver, reações diversas frente à realidade, traduzidos sob a linguagens do “senhor” e do “escravo”.


O livro também mostra como a linguagem determina valores, ações e fatos sociais. Por exemplo: em Brasília existe uma escola freqüentada em maioria por alunos brasileiros, onde o ensino é ministrado em inglês – idioma de prestígio mundial – e a mensalidade custa 3.500 dólares. Isso ocorre num país de milhares de escolas miseráveis, sem giz, sem livros e com professores ganhando uma miséria.


Giannotti defende que não é justo o Brasil ser visto somente como produtor de samba, carnaval e futebol e ocupar o último lugar na capacidade de seus alunos para interpretar um texto.

O dicionário e as frases
Conforme ensina o autor, para compreender uma língua, há dois planos de dificuldades: o do dicionário, do repertório, das palavras e o da construção das frases.


Embora muitos tenham vontade de falar bonito, mostrar suas idéias e seus conhecimentos, não é fácil fazer isso com simplicidade. De fato, para expressar e entender entender bem, é preciso treinar leitura e escuta. É preciso aprender a pensar.
Gianotti lembra que a Rede Globo tem objetivos econômicos, ideológicos e políticos muito claros. E nada aparece de graça na telinha. Literalmente, inclusive.

As três raízes da nossa cultura
O autor analisa as influências dos africanos, dos europeus e dos índios, na formação das linguagens que estruturam os estilos de fala e escrita em nosso país.Vimos de um projeto de exploração que exigia mão-de-obra dócil, submissa, obediente, temerosa, cheia de fantasmas religiosos e, conseqüentemente, sem escolas, ensina o autor.

As muralhas da comunicação
A maior é a da escolaridade. A outra é o intelectualês, que inclui somente quem tem alta escolaridade. A primeira barreira, da baixa escolaridade, exclui mais de 80% da população brasileira. A segunda exclui mais uns 15%. Ficam, portanto, incluídos apenas cerca de 5% que têm diploma de terceiro grau.

Hegemonia, linguagem e contrahegemonia
Se as camadas populares querem afirmar e firmar seu projeto social, sociedade, é preciso que ele seja divulgado e espalhado entre milhares e milhões. Sem isso, o sonho de um “outro mundo é possível” não passa de fantasia.


Uma comunicação popular deve estar a serviço da maioria, descendente direta ou indiretamente da nossa famosa senzala. Estar a serviço da senzala significa reconhecer e enfrentar a “casa grande”, que, de 1500 até hoje, sempre deteve o controle da sociedade brasileira e não está absolutamente disposta a perdê-lo.


É preciso ter noção do que significa essa disputa, que é preciso falar e escrever de forma que se entendam os objetivos, os sonhos, os planos, as dificuldades e as perspectivas da maioria.
O autor considera que a raiz da dificuldade de compreender um texto ou um discurso, por parte da maioria, tem uma explicação: a senzala. Neste aspecto, para Gianotti, “a escravidão não acabou” é uma expressão de conformismo, resignação. E propõe uma frase que inspire ação: “temos de acabar com a escravidão no Brasil”.


De fato, uma pedagogia ativa fará milhões de pessoas dispostas a se comprometerem com uma ação transformadora. Isso porque os fatos não levam, automaticamente, à ação. Somente a fome, a miséria, a exploração e a opressão não fazem um povo se revelar. Se fosse assim, os da senzala do Brasil já teriam feito sua revolução há tempos.


Se miséria fosse suficiente para revoltar um povo, a Índia teria feito sua revolução. Já foi dito que “um povo faminto não faz revolução, morre de fome”. É desta constatação que vem a necessidade de falar, escrever, comunicar.


Obviamente, uma comunicação que comunique não é bastante para promover grandes mudanças; contudo, é mais do que meio caminho andado.

Título: Muralhas da linguagem
Autor: Vito Gianotti
Rio de Janeiro: Ed. Mauad, 2004
181 páginas
Fernando Nunes Patrício
Engenheiro eletricista, diretor do Senge-PR


www.piratininga.org.br


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