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Novo Filme: Waiting for Europe, sobre emigração da Europa de Leste

06.09.2006
 
Novo Filme: Waiting for Europe, sobre emigração da Europa de Leste

PRAVDA.Ru: Por quê é que escolheu este título?
O título surgiu com uma das personagens. Numa cena do filme, o irmão do namorado da Vânia que também é imigrante e vive com eles diz “Estamos todos à espera da Europa”. Em Sófia vi nas ruas os relógios que contam os dias e as horas para a entrada da Bulgária na União Europeia.
Por outro lado, evoca a espera absurda de Samuel Beckett – “Á espera de Godot”. Da mesma forma, identificamos a Europa com um sonho, projectamos nela utopias, esperanças e ficções.


PRAVDA.Ru: O filme foi baseado num caso real? O filme, sendo um documentário, é o retrato intimista de uma jovem mulher búlgara, a Vânia. Ela, ao conta-nos a sua vida e a passagem pelos vários países, transmite uma detalhada reflexão sobre o ponto de vista feminina da imigração, ou melhor, sobre o que é ser mulher na Europa de hoje.


PRAVDA.Ru: Assume um cariz didáctico? Vivo há dez anos em Portugal. Nos meus anos difíceis ninguém perguntou: como te sentes como estrangeira? O filme vive muito de uma projecção ficcional que eu faço sobre a vida dela, os sonhos e as decisões que ela tem de tomar sobre a sua vida: são os de qualquer jovem mulher sobre casamento, filhos e carreira. Isto é o lado vulgar dela, mas também o seu lado comovente. É por causa disto que eu posso compreender a Vânia.


PRAVDA.Ru: Qual seria o conselho que daria para mulheres que pretendem vir trabalhar na União Europeia? A Vânia daria o conselho de não ir sozinha, de sempre já conhecer alguém ou melhor, várias pessoas. Curiosamente, uma personagem mais velha do filme, uma búlgara que vive há quinze anos em Espanha e que Vânia encontra a trabalhar num bar, dá na cena o conselho à Vânia de voltar à Bulgária e procurar lá trabalho: sem papeis muita gente não é pago. Eu própria acho que quem vai trabalhar para um país estrangeiro devia estar minimamente aberto para a nova cultura que encontra, se fosse possível aprender a língua antes.

 Sem saber ler, escrever ou falar uma pessoa fica como analfabeta e deficiente e logo é vítima de abusos e malentendidos. Quem sabe pelo menos falar pode mostrar ao outro quem é e perceber quem é o outro.


PRAVDA.Ru: O caso da Vânia é um caso extremo ou típico?
O caso da Vânia é um caso típico, não só de uma mulher búlgara, mas de uma jovem mulher de um país do leste, apesar do filme ser muito pessoal. É pela rede de dependências tipicamente femininas e à moda antiga na qual se envolve inconscientemente e de repente não pode sair delas. Acho que a imigração traz um retrodecer da emancipação à Europa, pelo simples facto das mulheres ganharem muito menos dinheiro e têm mais dificuldades passarem a uma situação completamente legalizada que passa por um contracto de trabalho.


PRAVDA.Ru: Poderia dizer-nos, Christine, o que pretendia com este filme?Não quis procurar um caso extremo porque não quero servir o sensacionalismo. Já há muito sobre prostitutas vítimas do leste, mas a verdade é que a maioria das imigrantes trabalha na limpeza e não na prostituição. A verdade para mim é importante quando faço um filme e passa pela subjectividade: o ser humano não é capaz de pensar em algo sem ficcionar…

Christine Reeh é realizadora alemã. Nasceu em Frankfurt em 1974 e vive em Portugal cerca de dez anos. Formou-se na Escola de Arte Multimédia (ZKM) em Karlsruhe, no Conservatório de Karlshrue (Canto) e na Escola de Arte de Nurtingen (Artes Plásticas). Continuou a sua formação em Portugal, na Escola de Artes Visuais Maumaus e na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Agora como bolseira da Fundação de Ciência e Tecnologia, trabalha no seu mestrado na área de Filosofia e Cinema.

Christine Reeh fez vários documentários: “Contacto”, sobre as mulheres em Angola, ”Exile”, “Paraíso em Lugar Nenhum” e “Requiem para a Minha Mãe” e filmes como “Outros Sonhos” sobre pessoas com deficiências

Entrevista: Timothy BANCROFT-HINCHEY

PRAVDA.Ru

Não. Como autora do filme não tenho nenhuma intenção social à priori. Que o filme possa servir também para debates sobre o tema da imigração tem a ver com o facto que a personagem é imigrante de um país pobre e muitos dos problemas que tem vêm daí. Mas a Vânia interessou-me sobretudo como pessoa. Interessei-me por ela de um ponto de vista humano, psicológico, como ela é mesmo, talvez por eu própria ser estrangeira, da Alemanha.


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