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Prestes, quase um desconhecido

04.04.2017
 
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Luís Carlos Prestes é ao lado de Getúlio Vargas um dos dois ou três mais importantes personagens da história política do Brasil no século XX. Em nenhum dos episódios mais marcantes que o País viveu, entre 1920 e 1990, quando morreu aos 91 anos, Prestes deixou de ser um protagonista importante, ou pelo menos, quando ausente, exerceu forte influência sobre eles.

Uma figura tão extraordinária, por força dos preconceitos que ainda hoje persistem contra os defensores da criação de uma sociedade socialista no Brasil, é muito pouco estudada, permitindo com isso que vicejem versões discutíveis sobre a sua participação em momentos cruciais da história do Brasil, como a Coluna Prestes/ Miguel Costa, a Revolução de 30, as ações militares de 35 (pejorativamente chamada de Intentona Comunista), as relações com Getúlio Vargas no final do Estado Novo, o golpe de 64 e finalmente seu conflito com os dirigentes comunistas nos anos 80.

Outro dia, o vereador Wambert Di Lorenzo, um político da extrema direita, ligado ao Movimento Opus Dei, apresentou projeto na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, tentando impedir que o Memorial Luís Carlos Prestes, criado por uma lei municipal em 2010, ocupe o prédio que lhe foi destinado na Praia de Belas.

O prédio, uma obra de Oscar Niemayer tem previsão de inauguração para outubro próximo, mas o vereador pretende, numa manobra pouco ética, que ele seja usado como museu para um movimento em defesa da cultura negra na capital.

Por tudo isso, é preciso falar novamente em Luís Carlos Prestes. As gerações mais novas, hoje extremamente alienadas da história do Brasil, precisam conhecer sua história, até para entender muitas das coisas que ocorrem hoje no País.

Além de uma biografia laudatória escrita em 1942 por Jorge Amado, "O Cavaleiro da Esperança", o que tínhamos até há pouco  sobre Prestes eram os textos isolados  de sua filha Anita Prestes  o livro "Prestes, Lutas e Autocríticas", de Dênis de Moraes e Francisco Viana, feito a partir de entrevistas com  Prestes e trabalhos mais extensos sobre a História do Brasil, principalmente de Hélio Silva e Nelson Werneck Sodré, onde sua figura aparece destacadamente em vários momentos, além dos jornais e revistas para os quais Prestes nunca negou uma entrevista.

Muito pouco, para quem exerceu tanta influência na vida política brasileira do século passado.

Para preencher esta lacuna, nos últimos anos foram lançados dois livros "Luís Carlos Prestes, um revolucionário entre dois mundos", do professor da Universidade Federal Fluminense, Daniel Aarão Reis e a tão esperada biografia de Prestes, escrita por sua  filha, Anita Leocádia, denominada  "Luiz Carlos Prestes, Um Comunista Brasileiro" ( Anita faz questão de grafar o nome com Z e sem acento, como está no registro de nascimento de Prestes) 

Dispondo de uma grande quantidade de fontes de pesquisa, algumas das quais inéditas, o livro de Daniel Aarão Reis reconstrói a vida de Prestes, desde o seu nascimento em Porto Alegre, em 1898, até a sua morte no Rio de Janeiro em 1990. Não faltam no trabalho detalhes inéditos na vida pessoal de Prestes, principalmente os vividos com sua segunda mulher, Maria, os filhos e netos no exílio em Moscou, mas o importante é a reconstrução de momentos decisivos da sua vida como revolucionário, na Coluna que levou seu nome, a partir de 1924; nos preparativos da Revolução de 30; na sua adesão ao Partido Comunista; na preparação das ações revolucionárias em 35; nos anos de prisão; na eleição para o Senado; nos exílios e nas lutas inter nas do Partido.

Das páginas dessas narrativas emerge uma figura moralmente inatacável, sempre fiel à defesa de uma sociedade igualitária e que prefere a solidão, a aceitar negociar seus princípios políticos, como aconteceu no final de sua vida.

Pena que o livro não escape de alguns senões, inadimissíveis numa biografia de uma figura tão importante. Em muitos momentos, talvez buscando uma linguagem mais coloquial, o autor se permita usar determinadas gírias contra- indicadas nesse tipo de trabalho (um exemplo; "a chapa está esquentando" para indicar um crescimento das dificuldades). Em outras vezes, emite opiniões sobre os acontecimentos, o que prejudica o distanciamento que o pesquisador deve ter dos fatos.

Mais importantes são alguns erros factuais, que podem levar o leitor a duvidar de outros dados que apresenta. Um exemplo: na página 282, comenta que nas eleições de 1958, alguns candidatos apoiados pelos comunistas venceram e cita Leonel Brizola. Só que diz que Brizola derrotou João Neves.  Brizola derrotou Perachi Barcelos.  João Neves (certamente pensava em João Neves da Fontoura) já estava longe da política partidária nessa época.

Mais adiante, comentando as eleições de 1962 afirma que as forças conservadoras ganharam as eleições em importantes estados, citando Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ocorre que, como o tempo de duração dos mandatos não eram os mesmos, Magalhães Pinto havia sido eleito governador de Minas um ano antes, iniciando em seu mandato em 31 de janeiros de 1961, enquanto Ildo Meneghetti, eleito em 62, assumiu no Rio Grande do Sul em 25 de março de 1963. Por sua vez, Adhemar de Barros, também eleito em 62, tomou posse em São Paulo, em 31 de janeiro de 1963.

Já o livro de Anita Leocádia, obviamente não sofre desses pequenos equívocos, mas padece de uma isenção que todos os historiadores deveriam manter em relação às figuras que analisam, tarefa obviamente difícil para alguém que alia essa posição com a condição de filha e confidente do biografado.

Nascida em 1935 no campo de concentração de Barrminstrasse, Alemanha, para onde sua mãe, Olga Benário, foi enviada pelo Estado Novo, Ana Leocádia se formou em Química pela Universidade Fluminense, em Economia pela Universidade de Moscou e em História, especialidade em que se tornou doutora pela Universidade Fluminense.

Crítica da obra de Aarão, o Prestes que emerge do livro de Anita é um político quase perfeito, Os acertos do Partido são sempre atribuídos a ele e os erros, aos demais dirigentes que o isolavam das decisões mais importantes.

Um exemplo claro desse tipo de problema é a descrição do controvertido processo de justiçamento de Elvira Cupelo, Elza ou a Garota, em 1936, no qual a responsabilidade de Prestes no episódio não é esclarecida.

 Outro problema do livro é que, na ânsia de comprovar suas afirmações, a autora se socorre de longas citações das atas de reuniões partidárias, o que torna sua leitura, às vezes, um pouco maçante.

 Mesmo com esses problemas, tanto o livro de Aarão, como o de Anita Leocádia são fundamentais para qualquer estudioso ou interessado na história mais recente do Brasil.

 Uma boa sugestão para se conhecer a vida de Prestes seria a leitura comparativa dos dois livros.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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