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Fernando Pessoa e os modernistas anglo-americanos

03.12.2008
 
Pages: 12

Sejamos claros: Portugal costuma mitificar o seu passado porque sempre teve (e tem) um futuro incerto, diante de sua exigüidade de forças e tamanho, do mesmo modo que o Brasil mitifica um futuro (que nunca chega) diante de um passado e um presente de pobreza, dificuldades e distorções sociais, apesar de toda a potencialidade da terra. No caso de Portugal, essa mitificação, que acompanha todo cidadão português desde os bancos escolares, foi o que levou Fernando Pessoa, provavelmente também influenciado por uma época de mitificação do passado empreendida pela máquina de propaganda do regime ditatorial de António Salazar (1889-1970), a idealizar em “Mensagem” o “destino manifesto” que teria Portugal no século XX como missão civilizadora do Ocidente. Um arroubo poético.

Essa mitificação, que parece ter contaminado também até a própria autora, tem servido para ludibriar alguns historiadores incautos, como o norte-americano Laurence Bergreen (1950), autor de Viagem a Marte (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2002) e Over the Edge of the World: Magellan´s Terrifying Circumnavigation of the Globe (HarperCollins, 2003), que se refere à Escola de Sagres como “uma diversificada escola de construtores de navios, cartógrafos e marinheiros para explorar a costa ocidental da África”, comparando-a à equipe de Marte da Nasa.

Como já reconheceu a própria Academia Portuguesa da História, não se tem notícia de documento nem de ruínas que provem que, algum dia, a Escola de Sagres possa ter existido no sentido do que se entende o que seria uma escola: um grupo de sábios elaborando teorias para se chegar ao fim do mundo. Aliás, nada impede que se faça a comparação dos Descobrimentos com a corrida espacial, mas é preciso que se diga que, quando o Infante Dom Henrique instalou-se em Sagres, o saber marítimo português era absolutamente empírico, pré-científico. Nem eram os portugueses os mais avançados na arte da navegação. Nada disso invalida a importância das “descobertas”, mas é preciso ir mais devagar com o andor.

III

Como se tratam de dois poetas, ficamos, portanto, no plano da idealização. E nesse sentido tudo é possível, inclusive o sonho pessoano de considerar o Oceano Atlântico um centro definidor das nações que aparentemente lideradas por Portugal dariam forma ao futuro: a Península Ibérica, a Irlanda e as Américas. Ou seja, Pessoa acreditava firmemente na restauração do novo império português, o que nunca foi muito bem recebido por admiradores menos nefelibatas de sua obra, como João Gaspar Simões (1903-1987), que escreveu a sua primeira biografia, Jorge de Sena (1919-1978) e Adolfo Casais Monteiro (1908-1972).

Segundo Irene Santos, tanto “Mensagem” como “The Bridge” aspiram a traduzir o império material de uma nação, seja ela uma potência em declínio ou em ascensão, no império espiritual da poesia. “Crane teve de lidar com o embaraço de tornar digno da poesia o materialismo crasso do emergente império americano. Pessoa, por sua, vez, poeta bilíngüe educado em escolas inglesas na África do Sul até aos 17 anos, por isso herdeiro, não de um, mas de dois impérios, teve de se dar conta de que o império português era praticamente inexistente ao final do século XIX, dada a sua dependência do império britânico, antes de poder re-inventar a poesia portuguesa como imperialismo cultural”, escreve.

Deve-se reconhecer, porém, que Crane nunca embarcou nas celebrações eufóricas de Whitman, deixando claro que não via com bons olhos a expansão a qualquer preço que a industrialização e a acumulação capitalista traziam. Até porque ele mesmo nunca foi um usufrutuário das benesses do capitalismo, tendo militado sempre nas classes subalternas, como Pessoa. Isso não o impediu de ver na Ponte de Brooklyn a metáfora ou o mito originário da América como a Terra Prometida, a Canaã. Se tivesse vivido até este começo de século XXI, talvez imaginasse agora que essa ponte começa a balançar perigosamente para, quem sabe, um dia, ruir...

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POETAS DO ATLÃNTICO: FERNANDO PESSOA E O MODERNISMO ANGLO-AMERICANO , de Irene Ramalho Santos, com prefácio de Harold Bloom. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 421 págs., 20007.

E-mail: editora@ufmg.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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