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Basta o que basta!

03.09.2006
 
Basta o que basta!

Os caminhos e as possibilidades da arte são infinitos. E todos eles se entrecruzam de forma complexa. Essa invenção, ou melhor, essa necessidade humana é tão fascinante que freqüentemente nos deparamos com pessoas que não se contentam em fazer apenas um tipo de arte. Eles se fascinam com o que a natureza humana oferece e querem mais arte. Este é o caso dos multi-artistas, como Leonardo da Vinci que foi brilhante como pintor, escultor, inventor, arquiteto, cientista e escritor, ou para ser mais contemporâneo: Ariano Suassuna, escritor, iluminogravurista, teatrólogo, professor, poeta...

Mas, tudo fica interessante quando encontramos duas pessoas que se dedicam cada qual a uma arte distinta e vêem o ofício de forma diferente, mas pensam da mesma maneira. Esse modo de pensar acaba influenciando suas obras.

Há dois artistas que o velho lema árcade "Inutilia Truncat" (Cortar as Inutilidades) está bem de acordo com sua visão de arte. Um desses artistas é a cantora popular francesa Edith Piaf (1915-1963), considerada uma das maiores cantoras do século XX. Edith Giovanna Gassion, seu nome verdadeiro, era filha de um pobre acrobata que nasceu com catarata, doença só descoberta quando ela contava três anos, só aos sete ela se curou como que por milagre e pode ver o mundo que apenas conhecia em notas musicais. Ela participou da troupe do pai até os 15 anos quando, então, foi para Paris. Na capital francesa, ela passou a cantar nas ruas e nos cafés para ganhar a vida até ir para um cabaret onde, em 1935, foi descoberta pelo dono, este a chamava de " La Môme Piaf " (a pequena pardal) devido a sua baixa estatura. "Piaf" é uma gíria francesa para pardal.

Em 1940, porém, ela estava em dificuldades financeiras e precisando de dinheiro recorreu ao seu editor. Em troca, ofereceu-lhe o que viria a ser um clássico: "La vie en rose" (A vida cor-de-rosa), imortalizada pela atriz alemã Marlene Dietrich. Edith Piaf entreteve prisioneiros franceses com sua música durante a 2a Guerra Mundial e, inclusive, ajudou muitos a fugir.

A interpretação vocal rouca de baladas sentimentais de sua própria autoria cativava uma platéia cada vez maior. Exercitava sua poderosa voz e seu estilo expressivo em músicas como "Non, je ne regrette rien" (Não, eu não me arrependo de nada). Piaf cantava com o coração porque a música estava em sua alma. É impossível ficar indiferente a tal paixão, mesmo hoje quase quarenta anos depois de sua morte e mesmo não se sabendo francês. Mas uma coisa se percebe: Piaf cantava sempre trajando um vestido preto simples e não usa jóias ou qualquer tipo de maquiagem. Sua voz bastava. Confirma-se.

Durante sua existência, a "irmãzinha dos franceses" teve diversos relacionamentos, sempre em busca de encontrar na vida cotidiana a mesma impressão de felicidade que transmitia no palco. O mais marcante deles foi o ator e cantor Maurice Chevalier. Encorajada por ele, Piaf cantou em filmes e operetas. Também fez turnês pela Europa, Estados Unidos e América do Sul. Suas memórias, "Au bal de la chance", foram publicadas em 1958.

Edith Piaf teve uma vida marcada por enfermidades, acidentes e infelicidade pessoal.

O outro artista era um poeta racional que não aceitava a idéia de inspiração. "Impeço tanto quanto posso que o inconsciente governe minha mão", João Cabral de Melo Neto (1920-1999) disse certa vez. Quem sabe não tenha sido só a árida paisagem do sertão pernambucano que tenha contribuído para isso. Pois, ele desde os 16 anos sofria de uma dor de cabeça infernal capaz, inclusive, de tirar-lhe do sono. Cinco décadas depois a dor desapareceu misteriosamente, mas aí então João Cabral passou a sofrer de uma degeneração da retina. Ela foi deixando-o progressivamente cego e o, até então, maior poeta brasileiro vivo, foi morrendo aos poucos, definhando num mundo sem imagens. Nada mais podia ver do Recife ou de Sevilha, cidade espanhola onde serviu como diplomata e pela qual nutria grande paixão bem descrita em seus versos, os quais sem dúvida permanecerão.

João Cabral se afastou das formas eruditas e se aproximou das raízes populares das quadras, trovas e literatura de cordel. Era o grande mestre do verso depurado, seco como a paisagem do sertão em dias de estiagem, preciso e sem floreio como nunca conseguiu ser a poesia luso-brasileira. O autor de "Morte e vida severina" não se considerava um interlocutor das musas e odiava música, tanto que impedido de ler pela cegueira ouvia apenas o noticiário no rádio.

Mas o que há de comum entre uma cantora francesa e um poeta pernambucano? O apego apaixonado a ausência de ornamentos. João Cabral era um poeta que preservava o verso sem adornos e odiava a música. Edith Piaf uma cantora que amava a música e se apresentava sem adornos.

Adriano COSTA

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