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Montezuma, o lampadário de Lisboa

02.07.2008
 
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Montezuma, o lampadário de Lisboa

Adelto Gonçalves (*)

I

Com exceção do suplemento Das Artes, Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, que vem publicando todas as semanas seus artigos póstumos, partiu do Brasil -- mais especificamente de Goiânia, no cerrado do Centro-Oeste -- a primeira homenagem à memória de Joaquim de Montezuma de Carvalho (1928-2008), falecido a 6 de março. E veio em forma de poema, “Joaquim de Montezuma de Carvalho, o lampadário de Lisboa”, de autoria de Gabriel Nascente (1950), que faz parte do livro A poesia de Gabriel Nascente em Portugal, que reúne ainda dois textos do pensador português e um deste articulista sobre a arte do poeta goiano, todos publicados no Primeiro de Janeiro, além de parte da correspondência trocada entre ambos nos últimos

anos.

Embora não tenha conhecido pessoalmente Montezuma de Carvalho, Nascente solidificou sua amizade com o escritor português a partir de uma correspondência epistolográfica assídua nos últimos tempos. Avesso à correspondência digital pela Internet, assim como Nascente, Montezuma, como fazia com a maioria de seus amigos, engordava suas cartas com fotocópias de textos e ilustrações que, geralmente, “descobria” em suas pesquisas no Arquivo Histórico Militar, de Lisboa, em frente à Estação de Santa Apolônia, que fica a escassos 200 metros da Rua dos Remédios, na Alfama, onde morava.

Em junho de 2007, foi com grande entusiasmo que Montezuma recebeu o livro Viagem às criptas de Dante, que traz um longo poema de Nascente, além de apresentar na contracapa um trecho do artigo com que o crítico recebeu o livro anterior do poeta, a antologia Inventário Poético (Goiânia, Editora Alternativa, 2005). “A chispa de Dante tocou este poeta do interior do Brasil”, diz Montezuma logo nas primeiras linhas da recensão que fez ao livro, considerando-o “um poemário de grande poder sugestivo e fruto de um talento recriador”.

O que também chamou a atenção de Montezuma, além da beleza dos versos, foi a referência no Canto Segundo ao lago Bulicame:

(…) É certo, eu me ia; e, me indo,

naquele lago -- o Bulicame, fumegante --

após o Cocito, gelado, um susto tive,

ao ouvir de Farinata, tão agros vaticínios,

de minha volta à luz dos páramos. (...).

Lembrando-se logo de Boliqueime, a terra algarvia do atual presidente da República portuguesa, o professor doutor Aníbal Cavaco Silva, Montezuma deslocou-se ao sempre à mão Arquivo Histórico Militar. Haveria alguma relação entre o Bulicame de Dante e o Boliqueime (ou Boliquême, que assim também se escreveu por algum tempo)? Encontrou uma pista no Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular, de Américo Costa, v.3, de 1932, ligando bulicame a “olhos d´água”.

Depois, num dicionário da lingua italiana, constatou que bulicàre significa o bulir da água. Logo, concluiu que, se os genoveses, sicilianos e venezianos nos séculos XIII, XIV e XV andavam em contínua faina de pesca de atum e baleia nas costas do Algarve, principalmente em Lagos, Boliqueime foi nome dado pelos italianos à aldeia portuguesa.

Depois, constatou que Nascente buscou inspiração no Canto Décimo Quarto da Divina Comédia, que constitui o sétimo círculo do “Inferno”, onde habitam os homens violentos:

(…) Qual do Bulicame sai um regato cuja água

as meretrizes dividem entre si, tal aquele rio

descia através da areia do terceiro girão. (…).

II

De livro em livro, constatou que Boliqueime e Bulicame são a mesma coisa. E intuiu o que ninguém, ao que se saiba, antes assinalara: a origem italiana (antes da existência da Itália como nação organizada) do povoado algarvio. Foi o que escreveu no ensaio “O Buliqueime de Dante e o de Aníbal Cavaco Silva… e a sombra de Maquiavel”, publicado no suplemento Das Artes, Das Letras O Primeiro de Janeiro, de 25/6/2007, a uma época em que Montezuma já se encontrava mal de saúde, com saídas constantes de casa para fazer exames médicos ou ir ao hospital, como me confidenciou por telefone a 25/7/2007, uma quarta-feira, data de nossa última conversa.

O poemário, porém, tanto o entusiasmara que voltaria ao assunto, com o ensaio “Viagem às Criptas de Dante com Gabriel Nascente, Teixeira de Pascoaes, Murilo Mendes, Ludovico Silva, Fidel Castro, Frei Betto…”, publicado a 10/9/2007, no qual diz que se trata de “um poema a causar calafrios”. Afirma: “Vejo-o como uma condensação superior da Divina Comédia de Dante (1265-1321), o vasto poema sacro a descrever Inferno, Purgatório e Paraíso, os três territórios dogmáticos da religião católica e não só (a pulsar também com os evangelistas das religiões reformadas após Lutero e outros, com os muçulmanos e alguns mais geógrafos do nosso além-morte)”.

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