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O livro do senhor Soares

02.06.2009
 
Pages: 123

Vivendo agora nas Galinheiras, um bairro degradado e meio esquecido na imensa Lisboa de hoje, o septuagenário Felício sabe que, apesar da vida fosca que levara, tivera a oportunidade de conviver diariamente com um homem que, meio século depois, transformar-se-ia em gênio da raça portuguesa, da estirpe de Luís de Camões (c.1524-1580), mas que em vida fora visto mais como um louco manso que andava nas nuvens e escrevia sem parar (e que, sem que quase ninguém soubesse, deitava as páginas um tanto a esmo numa arca).

Como não sabe escrever ou, no máximo, assinaria muito mal o nome, Felício começa a pensar num escritor que pudesse resgatar suas lembranças, antes que tivesse de entrar naquele túnel sem volta a que todo ser está condenado. Até que o encontra. E encontra um escriba disposto a escrever a sua história sem lhe cobrar um tostão pela tarefa, embora, por outro lado, não lhe garantisse maior veracidade ao que escrevesse na comparação com o que ouviria:

“(...) Eu utilizo palavras que o senhor é capaz de ignorar, recuso-me a aplicar umas quantas daquelas que o senhor usa, cometo umas elegâncias que alguns julgam excessivas, mas de que há quem goste, e acrescento por capricho vários posinhos ao que para certas pessoas mereceria um posinho só”. (...). (p.138).

Seja como for, ao septuagenário não há alternativa, a não ser confiar naquele que se propõe a ajudá-lo a resgatar do limbo de mais de cinqüenta anos aquelas lembranças fugazes, marcadas mais por gestos tímidos do que por palavras. Até porque o senhor Soares, figura fugaz, era homem de parcas palavras. A ponto de, no seu último dia no escritório do patrão Vasques, ao recolher seus pertences no cacifo e virar as costas em direção à porta da rua, foi com o senhor Soares, vindo na direção contrária, que se deparou. Abraçaram-se. E ouviu um murmúrio, quase um soluço, junto à orelha: “Até sempre, Antônio”. Em resposta, disse-lhe: “Boa noite, senhor Soares”.

III

Mário Cláudio (1941) faz parte de um seleto grupo de escritores portugueses – em número superior ao de brasileiros, apesar da diferença brutal entre o contingente populacional de cada país – que alcançaram projeção internacional, com livros traduzidos para o inglês, francês, alemão, húngaro, croata, checo e italiano.

Essa notoriedade, como assinala o professor Brunello de Cusatis na apresentação deste livro, teve início a partir das três biografias romanceadas que escreveu: uma do pintor futurista Amadeo de Souza-Cardoso (Amadeo, Lisboa:Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984), outra de uma violoncelista, Guilhermina Suggia (Guilhermina, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986), e a terceira de uma ceramista analfabeta, Rosa Ramalha (Rosa, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988), personalidades de destaque da cultura lusa nos meios cultos europeus. Outra figura ímpar da cultura portuguesa que teve sua biografia escrita por Mário Cláudio foi Camilo Castelo Branco (Camilo Broca, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006).

Recuperado do espólio literário de Fernando Pessoa, que hoje faz parte do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa, pelas pesquisadoras Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha, o Livro do Desassossego por Bernardo Soares foi publicado pela editora Ática, em 1982, em dois volumes organizados por Jacinto do Prado Coelho. Em 1986, António Quadros deu outra organização ao livro, que saiu pela Europa-América.

Em 1991, Teresa Sobral Cunha preparou outra edição, que saiu pela editora Presença. No Brasil, em 1986, Leyla Perrone-Moisés organizou uma edição para a editora Brasiliense. E, em 1999, a Companhia das Letras publicou a edição preparada pelo tradutor de Pessoa para o inglês, Richard Zenith, que propôs outra organização para os fragmentos.

IV

Mário Cláudio, pseudônimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nasceu no Porto, numa família da burguesia industrial de raízes irlandesas, castelhanas e francesas ligada à História da cidade nos últimos três séculos. No Porto, cursou o liceu e, em seguida, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, tendo depois se transferido para a Universidade de Coimbra, onde se graduou em 1966.

Assumiu a direção da Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia, de onde saiu para freqüentar a Universidade de Londres, graduando-se como Master of Arts, em 1976, defendendo uma tese que seria parcialmente publicada com o título Para o Estudo do Analfabetismo e da Relutância à Leitura em Portugal (Porto: Brasília Editora, 1979), o único livro que assinou com o seu nome civil (Rui Barbot Costa). De regresso a Portugal, exerceu funções técnicas no Museu Nacional de Literatura. Em 1985, iniciou-se como professor na Escola Superior de Jornalismo do Porto e, atualmente, é professor convidado da Universidade Católica do Porto e da Fundação de Serralves.

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