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Beijar lábios cinzas

02.02.2009
 
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De modo que nos restou apenas reconstituir o périplo que Borges costumava fazer pela manhã sob as árvores da Plaza San Martin, a meia quadra de seu apartamento, sempre de terno e gravata, e, às vezes, se estivesse frio, protegido por uma boina galega, além de tomar um café cortado na cafeteria na esquina diagonal à do antigo prédio em que ele morava na Calle Maipú, de onde se podia ver a janela de seu apartamento no 6º piso. Naquela cafeteria, o escritor habitualmente parava antes de subir para o seu lar, onde vivia, praticamente, sozinho desde que a mãe morrera em 1975 e fracassara em 1970 o seu fugaz casamento de dois anos com Elsa Astete Millán, uma viúva que era onze anos mais jovem que ele.

Tudo aquilo me recordou o périplo que eu fizera solitariamente em 1981, reconstituindo os passos que James Joyce (1882-1941) costumava dar pelas ruas de Trieste à época em que estava escrevendo Ulisses, por volta de 1914 a 1921.

III

Meirelles lembra que, na porta de madeira do apartamento 6-B daquele edifício da Calle Maipú, uma pequena placa dourada exibia, em preto, uma palavra que identificava o seu morador: “Borges”. Logo depois de tocar a porta, os visitantes tinham uma surpresa. Ela era aberta pelo próprio Jorge Luis Borges, apoiado em sua bengala chinesa de bambu, a favorita: “A minha governanta é um pouco surda... não ouve quem chega. Eu não enxergo, mas escuto bem – disse ele, com um sorriso irônico ao me receber na primeira vez que o visitei em setembro de 1980”, conta Meirelles, sem deixar de assinalar que a cena se repetiria outras 16 vezes nos cinco anos seguintes, então já sem necessidade da explicação, tornando-se uma espécie de ritual.

Meirelles lembra que a porta se abria e, depois dos cumprimentos, ele, então dizia: “Ah, é o brasileiro...”, e depois de se acomodar no sofá de tecido verde na pequena sala de estar com duas paredes cobertas por livros, perguntava: “E, então, quais são as novidades da rua?”

Solitário, Borges gostava de visitas, diz Meirelles, observando que o escritor não possuía televisão nem rádio ou sequer um aparelho toca-discos. “Bastava telefonar para ele e perguntar quando poderia conversar. Uma ou outra vez foi para entrevista formal. A maior parte das vezes foi pelo simples prazer da conversa”, recorda. “Se puder ser daqui a pouco... Ou quem sabe no início da tarde, Borges dizia, ávido por uma companhia. Vivo a monótona vida de um velho cego que já deveria ter morrido, costumava justificar, recorda Meirelles.

No inverno de sua velhice, Borges atenuava a solidão criando contos que guardava em sua memória prodigiosa – como Funes, el memorioso, lembram-se? –, até que aparecesse um amigo para ouvir e transcrever, à máquina, o que ditava. “Ele não parecia triste. Melancólico, sim. Dizia não ter medo de morrer. Isso, afinal, seria o fim da solidão”, diz Meirelles, reproduzindo em seguida uma frase do escritor: “Estou um pouco cansado... gostaria de morrer o mais rápido possível, disse-me em várias ocasiões”, conta.

Ir ao cinema parecia ser a sua diversão preferida: cego, só podia ouvir os diálogos. E, mesmo assim, só podia ir de vez em quando porque vivia de uma frugal pensão de funcionário público que recebia desde outubro de 1973, quando se aposentara depois de exercer o cargo de diretor da Biblioteca Nacional desde outubro de 1955, de maneira ininterrupta. E também dos direitos autorais que pingavam aos poucos.

Meirelles conta que, certa vez, perguntou-lhe quem, afinal, era Borges. Depois de pensar longamente, ele abriu um sorriso maroto e balbuciou: “Ah, meu filho... isso eu ainda estou tratando de averiguar. Às vezes, eu mesmo me sinto farto de Borges”, conta.

O jornalista revela que um dos momentos mais sublimes nos encontros vespertinos que teve com Borges, a maioria deles por conta apenas de uma boa conversa, pois não se tratavam de entrevistas formais, aconteceu quando voltando, pela enésima vez, à questão da cegueira, o escritor contou que se sentia resignado a ela, sobretudo, porque um velho amigo sofria do mesmo mal e, segundo ele, tinha uma existência mais sofrida que a sua. E explicou: “Enquanto eu ainda consigo ver sombras e vultos amarelados, ele os vê cinzas”.

Ingênuo, Meirelles perguntou-lhe que diferença fazia isso, se, afinal, nenhum dos dois enxergava. Por que o amigo teria uma vida mais dura que a dele, devido a essa diferença de cor? E Borges, sorrindo gostosamente como quem acabara de pregar uma peça em alguém, respondeu: “Ah, meu filho... você já pensou o que é beijar lábios cinzas?”

IV

Como o leitor pode perceber, vem desta tirada o título do livro. Ainda que seja um livro como tantos que foram escritos a partir de diálogos com escritores, este, sem dúvida, pode ser colocado ao nível daquele que Orlando Barone produziu com base em conversas de Borges com Ernesto Sabato (1911), que se deram em dezembro de 1974, reunidas em Diálogos Borges-Sabato (Buenos Aires, Emecé, 1976). Ou de Conversaciones de Jorge Luis Borges con Osvaldo Ferrari (Buenos Aires, Grijalbo, 1985), que saiu no Brasil em tradução de Eliane Zagury com o título Borges em diálogo (Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1986), reunindo entrevistas para um programa de rádio que foram transmitidas na Argentina no decorrer de 1984.

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