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Mendoza e a revolução falhada

01.11.2007
 
Pages: 12

Com esses e outros personagens menos relevantes, o autor constrói uma lúcida reflexão sobre a condição humana, pois Porritos acaba enferma pelo vírus da Aids (Sida) e tem um fim breve e trágico, enquanto Mauricio, embora tenha travado relações sexuais com a mulher infectada, escapa ileso do “mal do século”. Consegue o perdão de Clotilde pela traição, mas não desampara Porritos, mantendo-se solidário até o final.

III

Embora não seja livro que se equipare aos melhores da obra mendocina – La verdad sobre el caso Savolta (1975) e La ciudad de los prodigios (1986) –, Mauricio o las elecciones primarias é um romance que seduz pelos vívidos diálogos que o seu autor constrói. E também porque constitui um balanço moral de uma época-chave para o estágio de desenvolvimento da sociedade espanhola de hoje, com uma pujança econômica que a faz avançar não só sobre o vizinho Portugal – comprando cada vez mais terras, empresas e mais empresas – como aproveitar as oportunidades que o gigantesco mercado brasileiro oferece.

É, portanto, um livro sobre a geração de 1968, não a de Woodstock, da fase paz e amor, mas daquela que sonhava fazer a revolução, ainda que nem todos tivessem coragem de carregar debaixo do braço um fuzil ou uma metralhadora e assaltar bancos para expropriar o dinheiro da burguesia em favor da pretensa causa dos oprimidos.

É, enfim, para repetir em chave um poema de Manuel Bandeira (1886-1968), um romance que conta um pouco da vida que poderia ter sido – e não foi –, se a revolução tivesse triunfado. É claro que, hoje, sabendo quem são – ou quem foram – alguns daqueles que se pretendiam à frente da revolução, com o fracasso daqueles ideais, parece que o mundo se livrou foi mesmo de tipos desprezíveis e sanguinários como Fidel Castro Ruz (1926). Ainda bem.

Embora não tenha recebido uma acolhida unânime da crítica e de leitores em Espanha, Mauricio o las elecciones primarias rendeu a Eduardo Mendoza a sexta edição do Prêmio Fundação José Manuel Lara, uma dotação de 150 mil euros criada por doze editoras para a escolha do melhor romance escrito em castelhano de 2007.

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MAURICIO O LAS ELECCIONES PRIMARIAS , de Eduardo Mendoza. Barcelona: Editorial Seix-Barral, 2006, 365p., 19 euros. E-mail: editorial@seix-barral.es

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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