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Hollywood ressuscita o mito Che

01.04.2009
 
Hollywood ressuscita o mito Che

Por Flávio Braga

A recriação de Guevara pelo cinema americano, espezinhada pela mídia por complacência com o guerrilheiro argentino, deixa bastante a desejar no esclarecimento da revolução que lhe serve de fundo. Aspectos reveladores da biografia Che Guevara, de John Lee Anderson, uma das fontes do roteiro, ficaram de fora.

Quando o personagem de Benício Del Toro frisa, enfático, que um revolucionário precisa amar a verdade, não lhe amparam cenas onde o espectador possa saber que o governo de Cuba era uma mentira porque não era governo. A trama não revela a máfia controlando o ditador Batista e os interesses do governo americano. A direção de Soderberg é correta e absorvente, mas não é reveladora. Um diretor como Gillo Pontecorvo, de Batalha em Argel e outros clássicos políticos, teria nos falado mais.


A interpretação de Benício Del Toro é aclamada como transcendente e é mesmo. Mas o mito pop em que o Che se tornou, necessita mais do que empenho e semelhança. Ao assistirmos ao filme temos a impressão de que uma sucessão de batalhas mais ou menos dramáticas definiu a situação. Arrisco a dizer que uma única cena de Godfather, em que o personagem de Al Pacino visita Cuba e assiste a um atentado, comentando que não valia mais a pena investir ali, diz mais que o filme Che, porque revela as forças atuantes na ilha.


Talvez seja pedir demais que um filme norte-americano recrie os interesses envolvidos na guerra fria, demonstrando como a invasão da Baía dos Porcos foi traída por Kennedy, por exemplo, levando os contra-revolucionários ao desastre. Seria uma oportunidade de mostrar aos jovens que gostam de cinema um pouco da História contemporânea.


Um dos melhores momentos do filme é um debate na ONU, em 1964, quando o Che acusa o representante do Panamá de cumplicidade com milícias homicidas. Há algumas falas fortes contra o imperialismo norte-americano, que na boca de Guevara soam um tanto engajadas demais. Um roteiro mais eficiente mostraria tudo sem afirmações diretas.


O governo de Fulgêncio Batista caiu há 50 anos. As décadas de Fidel no poder acumularam capítulos variados. Atentados da CIA contra a sua vida com a habitual incompetência da agência americana; sustentação pelos soviéticos da economia da ilha; a morte de Che na Bolívia; o afundamento da economia de Cuba até o atual afastamento de Fidel.

Se o doutor Ernesto Guevara ainda vivesse em Cuba, provavelmente no governo, seria classificado pela mídia ocidental como um velho decrépito da cúpula ditatorial comunista. Jamais inspiraria um filme. Sua morte lhe valeu a eternidade. Hollywood só perdoa os que soam românticos.

Flávio Braga é escritor


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