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Ciência

A linguagem como instrumento de luta

27.05.2007
 
Pages: 12
A linguagem como instrumento de luta

 

Vito Gianotti nasceu em uma família proprietária de uma pequena fábrica de calçados, na Itália. Seu pai era fascista, "inimigo mortal dos socialistas e comunistas". Apesar da influência que recebeu no lar - e talvez justamente por causa dela - resolveu dedicar a vida para lutar ao lado da classe trabalhadora, contra a exploração.

Viajou o mundo e acabou no Brasil, onde se tornou metalúrgico e engajou-se na resistência à ditadura militar. Sua universidade foi a fábrica. Fanático por livros, devorou muitos. E escreveu 20, dentre os quais Muralhas da Linguagem (Mauad, 2004) e o recém-lançado História das lutas dos trabalhadores no Brasil (Mauad, 2007). Hoje, com 63 anos, coordena o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), entidade que se dedica a aperfeiçoar a comunicação dos trabalhadores para disputar a hegemonia na sociedade.

Entrevista concedida a Bruno Zornitta, do Fazendo Media .

Como começou seu envolvimento com as lutas dos trabalhadores? Você teve alguma influência familiar?
Tive uma influência da minha família no sentido contrário. Minha família tinha uma pequena fábrica de calçados e meu pai era fascista, inimigo mortal dos socialistas e comunistas. Por rebeldia natural, eu sempre tive contato com os operários que trabalhavam para meu pai, todos anarquistas ou comunistas. Eles me contavam as coisas, queriam me abrir a cabeça. Eu ficava chocado de ver as realidades dos trabalhadores, que na minha casa eram completamente escondidas. Então, eu diria que virei de esquerda por contraposição ao meu pai, e acabei depois encontrando a realidade da classe trabalhadora, conhecendo, e resolvi me engajar nessa luta. Saí da faculdade onde eu estava para viver a realidade da maioria da população e me engajei na luta para tentar melhorar esse mundo.

E por que você decidiu sair da Itália?
Para conhecer o mundo. Tinha 20 anos, era a época do Che Guevara. Eu queria conhecer o mundo e encontrei a realidade da classe trabalhadora.

Em que ano você chegou ao Brasil?
Em 1966. O propósito de me engajar na luta foi se firmando na medida em que eu via a realidade de exploração, de opressão, de discriminação racial. Toda aquela realidade brasileira, que era substancialmente parecida com o que é hoje. O que determinou minha paixão pelo Brasil foi um livro que eu li em 60, chamado "Geografia da fome", de Josué de Castro. Para mim foi marcante, pois mostrava a realidade do nordeste, sobretudo de Recife, e a fome que havia no Brasil.

Aí você foi para São Paulo e virou metalúrgico.


Virei, porque, na visão do grupo político ao qual eu pertencia, você tinha que ser operário e, concretamente, metalúrgico. Os metalúrgicos eram a categoria mais organizada e mais disposta a ir à luta, por várias razões sociológicas. Aí eu fiz uma porção de cursos de especialização e virei um profissional bom, um torneiro ferramenteiro.

E o que você havia estudado antes, na Itália? Filosofia?
É, filosofia e sociologia, mas não me interessei, absolutamente. Abandonei, e a partir daí nunca mais me passou pela cabeça entrar em uma faculdade. Sempre estudei, li muito. Aprendi com os livros bons. Sou fanático por leitura e acabei conhecendo muita coisa, além de escrever vários livros mais tarde.

Como começou esse interesse pela comunicação?
Muito simples: eu estava na fábrica com um objetivo político, que era despertar pessoas para a luta contra a ditadura. Mas não só, pois a ditadura militar era uma coisa passageira, conjuntural. O que era estrutural, o objeto de nossa grande batalha, era a exploração capitalista, a exploração do trabalhador.

O meu objetivo, como o de muitos companheiros, era o de conversar, dialogar, convencer os companheiros de que a situação que estava colocada era de uma injustiça tremenda e nós tínhamos que mudá-la. E para isso tínhamos que nos organizar. Como se faz isso? Conversando com o outro e, se você quiser conversar com muito mais gente, tem que escrever. Então, desde o começo, em 68, 69, começamos a fazer os jornaizinhos de fábrica; uma folha de ofício dobrada. Ou duas folhas, que dava oito páginas, o que já era uma grande façanha. Jornais clandestinos, evidentemente, que falavam contra a ditadura, contra a opressão dos patrões. Era uma necessidade de despertar pessoas para a luta. Sempre procurando fazer bons boletins, bonitos, na medida do possível, com os recursos paupérrimos que nós tínhamos na época. E com uma linguagem acessível.

Quais as dificuldades que você enfrentou? Porque além da questão de ser clandestino, tinha essa outra questão da linguagem, que você tocou.
A nossa linguagem, da esquerda, nos distanciava daqueles que não participavam dos nossos cursos, que não liam nossos livros clandestinos, ou que não liam livro nenhum - a imensa maioria dos trabalhadores.

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