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Ciência

Água para promover a paz

27.01.2009
 
Água para promover a paz

Economista diz que estrangeiros já investem no Brasil pensando em lucrar com reservas - O brasileiro não consegue imaginar um mundo onde a água seja razão para uma guerra, mas esta situação já é real no Oriente Médio. A economista Amyra El Khalili, fundadora do projeto Bece – Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais, afirma que uma possível escassez de água no futuro pode abrir oportunidade para o Brasil exercer uma liderança global.


O brasileiro não consegue imaginar um mundo onde a água seja razão para uma guerra, mas esta situação já é real no Oriente Médio. A economista Amyra El Khalili, fundadora do projeto Bece – Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais, afirma que uma possível escassez de água no futuro pode abrir oportunidade para o Brasil exercer uma liderança global. Ela esteve em Curitiba na última semana de maio para o IV Seminário Internacional das Águas, onde falou sobre a água como commodity ambiental. Em entrevista à Gazeta do Povo, Amyra comenta sobre as conseqüências geopolíticas da crise mundial no abastecimento de água.


Gazeta do Povo – É verossímil o cenário segundo o qual a falta de água pode ser motivo de guerras?


Amyra El Khalili – Na verdade, ele já é real: a questão palestina já tem um forte caráter hídrico. Enquanto os israelenses podem irrigar suas plantações à vontade, os palestinos não podem nem abrir poços. Israel não sai das colinas de Golan porque são áreas de manancial. Esse cenário parece uma coisa distante para nós, porque temos muita água. Mas no Oriente Médio esse é um bem escasso. Quem controla a água controla tudo – e, aqui, os políticos do Nordeste sabem muito bem disso há décadas. Por isso a transposição do Rio São Francisco é um assunto tão polêmico. A própria história do mundo mostra que tudo se organiza em torno da água: as cidades surgiram às margens dos rios, as indústrias se instalam perto deles, os agricultores precisam da água.


– A água pode ser o petróleo do futuro, no sentido de se tornar instrumento de poder mundial?


– O grande medo dos ambientalistas é que a água passe a ser cotada na bolsa como se faz hoje com o barril de petróleo. Certamente não queremos uma Opep da água [a Organização dos Países Exportadores de Petróleo controla o mercado de petróleo determinando o ritmo de produção], por um motivo muito simples: enquanto é possível viver sem petróleo, procurando outras fontes energéticas, não se pode viver sem água. Aliás, digo que um mundo sem petróleo seria mais feliz, embora um mundo sem água seja inviável. Consideramos o acesso à água como um dos direitos humanos. Mas não vejo problema em vender o excedente da produção, desde que antes as necessidades de toda a população estejam satisfeitas.


– Que posição o Brasil poderia ocupar no futuro?


– O Brasil é o país que tem as maiores reservas de água para consumo no mundo. Mais adiante, certamente teremos uma posição de mais destaque no mundo em relação ao que somos hoje, justamente por causa disso. Mas não é por isso que o Brasil deveria passar a regular seus estoques de água e determinar preços para obter vantagens com isso – seria a repetição dos erros do passado e do presente em relação a outros recursos, como o petróleo. Mesmo porque o Brasil não tem estratégia para ser a Opep da água, pois apesar das nossas riquezas, não sabemos vendê-las. Há quem veja essa minha opinião e pense que, por causa de uma questão de direitos humanos, perderíamos nossa grande chance de liderança mundial. Minha concepção é diferente: se é para vender água, melhor que a dê aos outros – e o Brasil se tornaria líder mundial por promover a paz. Essa generosidade seria reconhecida e abriria muitas oportunidades comerciais ao país. É uma questão de filosofia de vida. A regulação da água só interessa a quem lucra com a guerra.


– Essa riqueza brasileira pode atrair a ganância de outros países?


– Não há dúvida de que os estrangeiros sabem o que temos debaixo do solo; para isso basta passar com um satélite por cima. E eles já começaram a se mover. Organizações estrangeiras compram terras aqui com o pretexto de cuidar do que está do lado de cima, mas cientes das riquezas que estão no subsolo. Outra preocupação dos movimentos ambientais é impedir que terras com reservas subterrâneas de água sejam oferecidas como garantia na hora de firmar os contratos de seqüestro de carbono previstos no Protocolo de Quioto. Falta informação nesse sentido, e muitas negociações já foram feitas assim que surgiu essa possibilidade. Estamos criando uma bomba que pode estourar daqui a décadas.


Marcio Antonio Campos, Gazeta do Povo (Paraná), 05/06/2005


http://tudoparana.globo.com/gazetadopovo/brasil/conteudo.phtml?id=466569


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